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Glastonbury. Punks, copos de leite e uma visita do dalai lama
O festival começou na quarta-feira e decorre até domingo

Glastonbury. Punks, copos de leite e uma visita do dalai lama

O festival começou na quarta-feira e decorre até domingo Joel Ryan/AP José Cabrita Saraiva* 27/06/2015 10:00

O maior festival pop do mundo tem de tudo um pouco:ontem recebeu as Pussy Riot, domingo é a vez do líder espiritual tibetano.

Nem só de música se faz o maior festival pop do mundo, que abriu as portas na passada quarta-feira. No final dos cinco dias de festa, terão passado pelo palco principal de Glastonbury nomes como Florence + the Machine, The Who, Kanye West, Pharrell Williams e o clássico Burt Bacharach. Mas há perto de uma centena de espaços – com nomes tão curiosos como Salon Carousel, Lizard Stage ou The Astrolabe Theatre – para actuações de diferentes naturezas: além dos concertos, pode assistir-se a números de circo e cabaret, sessões de cinema, teatro, declamação de poesia ou participar em actividades para as crianças.

Era precisamente no reduto dos mais novos, The Kidzfield, que estava previsto aparecer um dos nomes fortes desta edição, Stephen Hawking –, mas o astrofísico não pôde comparecer. O fundador do Kidzfield lamentou ao “Guardian” a ausência do cientista e explicou a razão de ser do convite: “Como todos os adultos, ele queria reencontrar a criança interior e, lá diz o ditado, nunca é tarde para viver uma infância feliz.”

Já a actuação de dois membros das Pussy Riot, ontem à tarde, não foi seguramente para meninos. O colectivo russo chocou com o seu visual impactante, praguejou e colocou a política debaixo dos holofotes. Masha Alyokhina, da banda punk feminista, descreveu o presidente Putin como um “quase-super-herói demente seminu montado a cavalo”.

Hippies e copos de leite A história de Glastonbury remonta a 1970, quando, no auge do movimento hippie, um agricultor britânico ficou fascinado ao assistir a um concerto dos Led Zeppelin. Michael Eavis, produtor de lacticínios, resolveu então colocar as vacas no estábulo e realizar o seu próprio festival. Chamava-se Pilton Festival e decorreu precisamente na vila de Pilton, no condado de Sommerset, Reino Unido. Os T-Rex foram os cabeças-de-cartaz da primeira edição e o bilhete custava uma libra. Os festivaleiros tinham à sua disposição – naturalmente – copos de leite gratuitos.

No ano seguinte, já com o nome de “Glastonbury Fair”, David Bowie é a grande atracção. Surge aí uma das marcas do festival: o Pyramid Stage, um palco gigante feito à imagem da Grande Pirâmide de Gizé, no Egipto.

Na década de 1980, o festival ganha carácter anual e conquista fãs. Depois torna-se um dos principais responsáveis pela expansão da música electrónica. Em 1995, o concerto dos Orbital, transmitido ao vivo pela televisão, contribui para derrubar alguns dos preconceitos relativamente a este género musical. Sobre a inclusão da dance music no cartaz, Eavis haveria de pronunciar-se em 2014, numa entrevista ao “Guardian”: “Tentei ser fiel aos estilos de música de que gostava, mas as pessoas queriam mais disto e daquilo. E os meus filhos diziam: ‘Nós gostamos de música electrónica, queremos uma tenda electrónica. O festival não é para ti, é para nós!’ E resolvemos então mudar as coisas um bocado.”

Wellington e o dalai lama Instalado numa zona onde chove com regularidade, Glastonbury tornou-se, para muitos, um sinónimo de lama. As welly boots – designação que as galochas conquistaram na Grã-Bretanha por terem sido muito usadas e popularizadas por Arthur Wellesley, duque de Wellington, no século XIX – são um acessório indispensável, ditando tendências na indumentária dos festivais em todo o mundo. Mas este ano, a palavra “lama” assume outras conotações para as mais de 170 mil pessoas presentes no condado de Sommerset: a organização já confirmou a presença do dalai lama no domingo.

O líder espiritual do Tibete estará na área dos “Green Fields” para falar à audiência. A comunicação servirá para “a promoção da mensagem de compaixão, não violência e unidade da comunidade humana”, disse um porta-voz citado pela BBC. A presença do dalai lama num festival de música pop poderá causar estranheza – mas só àqueles que desconhecem as origens hippies e pacifistas de Glastonbury. E nada tem que ver com o lamaçal épico em que o recinto se transforma nos dias de chuva.

*com o estagiário Jorge Costa

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