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Empregada de bar enigmática rende milhões em leilão
“Le Bar aux Folies-Bergère”, 1881-82  (versão definitiva)

Empregada de bar enigmática rende milhões em leilão

“Le Bar aux Folies-Bergère”, 1881-82 (versão definitiva) José Cabrita Saraiva 25/06/2015 12:36

Pintura impressionista de Manet foi arrematada por 23 milhões de euros em Londres.

Uma “imagem absolutamente clássica da noite de Paris”. É assim que Philip Hook, especialista em arte impressionista e moderna da leiloeira Sotheby’s, define “Le Bar aux Folies-Bergère”, de Edouard Manet. A pintura – que representa uma empregada na famosa sala de espectáculos – atingiu mais de 23 milhões de euros ontem à noite num leilão em Londres. Outras obras em destaque foram “Suprematismo. 18.a Construção”, de Kazimir Malevich (30 milhões), e “Retrato de Gertrude Loew”, do austríaco Gustav Klimt (recordista da noite, com 34 milhões).

O interesse da pintura de Manet resulta em parte de se tratar da primeira versão do homónimo “Le Bar aux Folies-Bergère”, considerado um “resumo da arte” do mestre do impressionismo. Na década de 70 do século xix, Manet tornara-se um frequentador assíduo dos locais de diversão nocturna da capital francesa. Da sua observação resultou um conjunto de pinturas em que representou clientes e empregadas, homens de chapéu, mulheres fáceis, fumadores de cachimbo e grandes canecas de cerveja. “Le Bar aux Folies-Bergère” foi feito quando Manet já se encontrava doente e ficaria na sua colecção pessoal até ao fim da vida do pintor, que morreu dois anos depois, em grande sofrimento.


A fachada do Folies-Bergère

O estudo vendido pela Sotheby’s foi feito ainda no local. Depois o artista montou um bar no seu ateliê e compôs a pintura final. As duas obras partilham a composição complexa, com o balcão de pedra com garrafas em primeiro plano e o retrato da empregada ao centro – “exposta como um bem de consumo, tão atraente como as garrafas” e com “um olhar vazio e fatigado” – escreveu o historiador da arte alemão Peter H. Feist. O fundo é dominado por um enorme espelho que reflecte a multidão, o lustre e o espaço cheio de fumo da sala.

O fascínio continua

É precisamente aqui – no espelho – que começa o enigma. Na obra final, um dos ícones da colecção do Courtauld Institute, também em Londres, o reflexo da rapariga surge demasiado deslocado (para a direita), e não atrás da própria, como seria de esperar. Além disso, embora o retrato a represente erecta, o reflexo parece mostrar a figura inclinada na direcção de um cliente, que de resto não se vê no espaço real.

Inaugurado em 1869, o Folies-Bergère (“folies” significa loucuras em francês) apresentava diversões para todos os gostos: ópera, uma banda, bebidas alcoólicas, dança, prostitutas e espectáculos de acrobacia. A empregada, porém, não parece partilhar esse sentimento. A sua expressão, comentou o escritor britânico Philip Pullman, autor da trilogia “Mundos Paralelos” (adaptada ao cinema em “A Bússola Dourada”), “é de longe mais enigmática que a da Mona Lisa. O que sente ela? Tristeza? Arrependimento? Desconforto? Alienação?”

O enigma continua por resolver. Mais de 130 anos depois de ter sido pintada, a obra ainda fascina historiadores, críticos e, pelos vistos, coleccionadores. Algo que já Marcel Proust previra no funeral de Manet. “Manet et manebit”, disse o escritor na altura. O trocadilho com o nome do pintor significava mais ou menos “Ele continua e será continuado”.

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