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Paulo Sousa. Por vezes o caminho mais longo é o melhor
No relvado representou a Juve, o  Parma e o Inter. Agora aterrou em Florença, onde o amigo Rui Costa foi ídolo

Paulo Sousa. Por vezes o caminho mais longo é o melhor

No relvado representou a Juve, o Parma e o Inter. Agora aterrou em Florença, onde o amigo Rui Costa foi ídolo Arnd Wiegmann/Reuters Pedro Miguel Neves 23/06/2015 10:05

As experiências no QPR e Leicester não correram bem, e só o Swansea se salvou.

Num diferente fuso horário do dia 4 de Abril de 2009, Flavio Briatore encontrava-se no Grande Prémio da Malásia, em Kuala Lumpur. Paulo Sousa orientava o QPR contra o Crystal Palace, na II divisão inglesa. Omagnata da Fórmula 1, na altura co-proprietário do QPR, lançava um olho ao jogo. Ao intervalo, com 0-0 no marcador, ligou a Paulo Sousa e exigiu que o treinador substituísse o médio Liam Miller. Este episódio foi apenas uma amostra do que o técnico teve de aturar do excêntrico dirigente. Pouco tempo depois, foi despedido por... divulgar “informação confidencial”. Cheirou a desculpa esfarrapada. Afinal, durante os três anos da passagem do louco Briatore pelo QPR, nove treinadores ocuparam o cargo.

Era um começo traumatizante no seu primeiro projecto no futebol profissional – depois da passagem pelos sub-16 de Portugal. Mas Sousa soube reerguer-se lentamente e ontem foi apresentado no Artemio Franchi como o novo treinador da Fiorentina, um dos históricos do futebol italiano. Pelo meio tinham ficado outros episódios atribulados e a passagem porInglaterra fez o treinador perceber que, em vez de atalhar caminho, tinha de optar pela via mais longa na tentativa de chegar ao topo.

A passagem pelo QPR não afectou a sua reputação e, em Junho de 2009, foi escolhido pelo Swansea para suceder a Roberto Martínez. O espanhol fizera um excelente trabalho no clube galês, subindo ao Championship e terminando em 8.º, a um pequeno passo do play-off de acesso à Premier League. Numa época, Sousa conseguiu o 7.º lugar, a melhor classificação dos últimos 27 anos. E aceitou o convite do Leicester, liderado pelo milionário Milan Mandaric. Só durou 86 dias no banco dos foxes. Logo quando estava na fase ascendente da carreira. “Foi um erro deixar o Swansea”, admitiu mais tarde. Era tempo de repensar os seus passos. O português sabia que, depois de duas experiências menos boas em escalões secundários, outro movimento em falso podia significar o fim da carreira no futebol de alto nível.

Parou. Observou jogos, estudou tácticas, continuou a formação de treinador. O regresso aos bancos dar-se-ia na obscuridade do futebol húngaro. O próximo passo era o Videoton. “Os 18 meses ali ajudaram-me a descobrir a minha mentalidade vencedora. Depois fomos mais longe com o Maccabi. Esses dois anos e meio foram cruciais para mim. Não tenho problemas de ir para ligas menos conhecidas. Para um treinador, é importante ter sucesso porque justifica os seus métodos e a sua abordagem, e o sucesso cria uma atmosfera positiva”, confessou ao Guardian em 2014.

Foi campeão em Israel, pelo Maccabi, e na época passada venceu a liga suíça, ao comando do Basileia. “Não sei se vamos conseguir aguentar o Paulo mais que um ano. Não tenho a mínima dúvida de que brevemente vai treinar um dos 10 melhores clubes europeus”, confessou à Sábado Georg Heitz, director desportivo do Basileia. Tinha razão. Afinal a gestão de carreira de Paulo Sousa revelou-se de uma mestria assinalável. Aceitou ir para países com pouca relevância no futebol europeu mas a qualidade do jogo das suas equipas foi sempre chamando a atenção de emblemas maiores. A qualificação para os oitavos-de-final da Champions, depois de passar um grupo com Real Madrid, Liverpool e Ludogorets, foi uma montra. “Um dia vou ganhar a Liga dos Campeões”, disse o treinador Paulo Sousa. Como jogador já o fez, em duas épocas consecutivas, por Juventus e Borussia.

vingança Junho de 2015. E assim chega a Florença, a terra que ainda hoje idolatra Rui Costa. Sousa vestiu a camisola da Juventus, o inimigo público dos viola, o que não vai ajudar à sua popularidade. Mas os adeptos da Fiorentina talvez se tenham esquecido que o antigo médio deixou os bianconeri, após ter vencido um scudetto e a Liga dos Campeões, com mágoa. “Porque é que me venderam? Porque já não acreditavam na minha qualidade. Lesionei-me no joelho e eles acharam que eu já não conseguiria atingir os níveis elevados de anteriormente. Enganaram-se porque um ano depois bati-os na final da Champions”.

Sousa era um geómetra no relvado, um regista que elevou o futebol da Juventus de Marcelo Lippi a outro nível. É um admirador da poesia do jogo, dos ritmos que ele tão bem sabia comandar a partir do centro do terreno. “Agradeço por me teres feito ler os livros de Tabucchi, um fora-de-série da literatura e da vida”, disse a um amigo italiano. Sousa era um fora-de-série com a camisola 6, agora quer sê-lo também nos bancos de suplentes. Talvez um dia regresse a Inglaterra pela porta grande, como um Special. Para já aguarda-o a Fiorentina, o clube amado pelo seu ídolo, Tabucchi.

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