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Portugal está “num processo de decadência histórica”
“O país não pode ir à falência, não pode expulsar 300 mil pessoas do seu país", disse a investigadora

Portugal está “num processo de decadência histórica”

“O país não pode ir à falência, não pode expulsar 300 mil pessoas do seu país", disse a investigadora Jornal i 22/06/2015 17:09

Expulsamos “300 mil filhos” e colocamos 1,5 milhões no desemprego. Segundo a investigadora Raquel Varela, isso leva-nos à decadência.

Expulsamos “300 mil filhos” e colocamos 1,5 milhões de pessoas no desemprego. A investigadora Raquel Varela considera que nos encontramos num “processo de decadência histórica”.

“Temos um problema gravíssimo de sustentabilidade de toda a sociedade” que obriga a uma “transformação radical da sociedade” ao nível político, social e da participação política, que “imponha que os recursos públicos são para o público”, disse Raquel Varela à margem da Conferência Internacional do Observatório para as Condições de Vida, que está a decorrer em Lisboa.

A investigadora no Instituto de História Contemporânea da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e membro do observatório adiantou que “o princípio de uma sociedade em que os países podem ir à falência, mas os bancos não, é insustentável”.

“O país não pode ir à falência, não pode expulsar 300 mil pessoas do seu país, nem pode colocar 1,5 milhões de pessoas no desemprego, nem ter baixos salários. Isto não é uma forma de viver no século XXI”, sublinhou.

Portugal tem 5,5 milhões de população activa, mas há uma parte substancial dessa população que “está imobilizada numa situação de desemprego forçada”.

“O nosso cálculo é que, neste momento, há cerca de 1,4 milhões desempregados reais e cerca de dois milhões de trabalhadores em situação de grande precariedade”, salientou a investigadora.

Mesmo quem tem contrato de trabalho encontra-se “numa situação de ameaça permanente de perder o trabalho” devido à mobilidade na Função Pública e da facilidade dos despedimentos.

Raquel Varela advertiu que esta situação tem “consequências devastadoras” em termos de aumento de acidentes de trabalho, de burnout (estado de esgotamento físico e mental provocado pela vida profissional) e depressões, porque “as pessoas estão sempre no fio da navalha”.

“Baixos salários e precariedade não garantem nenhuma forma de trabalhar bem. Pelo contrário, há um desgaste grande na qualidade, na formação e na capacidade de trabalho” das pessoas, defendeu.

Apontou o caso dos desempregados com mais de 45 anos e que têm o 6.º ano de escolaridade, ou menos, em que a tendência é para não voltarem ao mercado de trabalho, “terem a sua vida destruída”, "viverem num estado vegetativo" e terem as suas relações afectivas e familiares afectadas de "forma devastadora" devido à situação de desemprego estrutural no país.

Presente na conferência, o investigador Paulo Marques Alves, do Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE), salientou o aumento do número de desempregados de longa duração, que, segundo disse, já representava 40% do total do número de desempregado no primeiro trimestre de 1999 e que atingiu os 64,5% no primeiro trimestre deste ano.

Para Paulo Marques Alves, este número de desempregados de longa duração (mais de 12 meses) representa “uma catástrofe”.

Raquel Varela salientou, na conferência, que “a sociedade portuguesa está toda em situação precária, porque a flexibilização dos despedimentos generalizou a precariedade, mesmo para quem tem um contrato fixo".

Sendo que, "isso só foi possível porque havia três milhões de precários e desempregados a pressionar quem está empregado”, afirmou.

Lusa

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