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Isaltino Morais. “O sistema judicial é uma tenebrosa corporação em que ninguém toca”
Isaltino a dar autógrafos (e beijinhos) aos fãs, em Oeiras

Isaltino Morais. “O sistema judicial é uma tenebrosa corporação em que ninguém toca”

Isaltino a dar autógrafos (e beijinhos) aos fãs, em Oeiras Artur Borges Rosa Ramos 12/06/2015 16:21

O ex-autarca deu uma sessão de autógrafos em Oeiras: uma plateia repleta de fãs e críticas duras à justiça.

Maria Helena jura que sabe do que fala. Andou na escola com Isaltino Morais, em Mirandela, e por isso pode atestar que o ex-presidente é “um homem genuíno e verdadeiro”. Só tem um problema: “É um bocado rabo de saias”. Namorou uma prima dela, mas não havia maneira de a pedir em casamento e a rapariga, cansada de esperar, acabou por emigrar para o Brasil. 

Os dramas de família são “águas passadas” e a antiga desenhadora da câmara de Lisboa foi “apoiar o presidente” à sessão de autógrafos de ontem, ao final da tarde, na FNAC de Oeiras. A jogar em casa, Isaltino Morais esbanjou cumprimentos e falou do livro “A minha prisão” – um exercício de “reflexão” sobre “a corrupção do sistema” e “os poderes absolutos”. A começar pelos juízes, cujo poder não é escrutinado: “São infalíveis, quais deuses”. 

Críticas e acusações

Durante quase uma hora, o ex-presidente de Oeiras disparou em todas as direcções. Do sistema prisional – que “não respeita a dignidade dos que, justa ou injustamente, estão presos” – à ministra da Justiça, que “não zela pela paz” nas cadeias. 

Sem esquecer as greves “constantes” dos guardas prisionais, que retiram aos reclusos “os seus já reduzidos direitos” e desestabilizam as prisões. “Os guardas gostam de motins e de pancadaria, especialmente com reclusos, para que o poder político sinta que são poucos”, atirou Isaltino. Já o funcionamento da Justiça em Portugal também não se recomenda. “Condena-se por convicção” e, como escreveu um dia Pinto Monteiro, “os jornalistas julgam na praça pública e os magistrados, pressionados, condenam”. Enquanto isso, a classe política “esconde-se na separação de poderes e “ninguém escrutina os juízes quando violam a lei”. O sistema judicial, garantiu Isaltino à plateia, é “uma corporação tenebrosa em que ninguém toca”. 

Inocência

Isaltino insistiu que foi preso apesar de a Autoridade Tributária se ter “certificado que não tinha dívidas ao Fisco” e atirou-se aos que o prenderam: “Em, Portugal é possível um juiz de primeira instância tomar uma decisão desrespeitando uma decisão de um tribunal superior e não lhe acontecer nada”. No final de tudo, todos os magistrados que participaram no processo “foram promovidos”. 

Contou como a procuradora Leonor Furtado, titular do processo, lhe pediu, na década de 1990, “para meter uma cunhazinha ao Cavaco porque gostava de ser directora-geral ou como a juíza Carla Cardador era “novinha” e o procurador Luís Eloy – “o magistrado do copianço no CEJ” – foi promovido a subdirector do Centro de Estudos Judiciários. “Quem me meteu na prisão não foram os políticos que não gostavam de mim. Esses limitaram-se a pressionar os magistrados, juntamente com a comunicação social. E os magistrados não se podem deixar pressionar”, acusou. 

É por estas e por outras que Isaltino garante que as cadeias “estão cheias de inocentes”. Como aliás comprova o artigo recente da revista “Sábado” que revela uma conversa entre Rosário Teixeira e José Sócrates. “O procurador faz uma figura triste porque não diz de que factos é acusado José Sócrates. Não imaginam a quantidade de Sócrates e Isaltinos que há nas prisões. Em Portugal abusa-se da prisão preventiva”, assegurou. No final, e antes dos autógrafos, o ex-presidente de Oeiras deixou um aviso: “E se isto lhe acontece a si? Nós pensamos que só acontece aos outros, mas pode acontecer a nós”.  

Maria Helena, a prima da noiva, não duvida das palavras de Isaltino. A prisão é “um caso político” e o presidente é “um homem de futuro” – “senão não tinha mandado construir o repuxo de Paço d’Arcos”. E mesmo que não seja inocente, “quantos outros, que fizeram pior, não estão por aí à solta?”. 

“Há quem tenha feito pior e esteja solto. Já viu o Ricardo Salgado? O Oliveira e Costa? Destruíram famílias e houve quem se tenha suicidado pelo que fizeram. Por causa do Isaltino Morais nunca ninguém se suicidou”, acrescenta Isabel, assistente de marketing e a primeira a chegar à loja. “Quem não tem telhados de vidro?”, pergunta.
 
Um autarca ingénuo

Em Oeiras, diz Carina, que levou a filha adolescente à sessão de autógrafos, conta-se que o ex-presidente pode muito bem ter sido vítima “da forma ingénua como confiou nas pessoas” próximas. “Diz--se que foi acusado por causa de uma guerra de ciúmes entre mulheres”. Será então Isaltino um homem inocente? A resposta, garante, é indiferente: “As pessoas só querem viver bem e Oeiras é um concelho com uma grande qualidade de vida graças ao Isaltino”. De tal forma que, desde que o autarca se foi embora, “a recolha do lixo piorou imenso”. 

Pires Costa, que vive há 40 anos em Carnaxide, também foi atrás de um autógrafo e teve de correr entre uma consulta no hospital Amadora-Sintra e a loja de Oeiras. O sacrifício justifica-se porque, assegura, Isaltino é inocente: “Quando há documentos que mostram que não havia qualquer dívida ao Fisco só se pode concluir que se trata de um caso político e de vingança do PSD”. Mesmo ao lado, Justino Barbosa confessa que o assunto da prisão do “presidente que baniu as barracas de Oeiras” lhe mexe com o sistema nervoso: “Estou todo arrepiado. A prisão de um homem bom é uma coisa que me irrita”. 

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