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Televisão. Uma barca só com mulheres tem mesmo de acabar num inferno?
Moura Guedes abandonou o programa em directo

Televisão. Uma barca só com mulheres tem mesmo de acabar num inferno?

Moura Guedes abandonou o programa em directo antónio pedro santos Rosa Ramos 09/06/2015 13:00

Manuela Moura Guedes abandonou, irritada, “A Barca do Inferno”. Especialistas explicam se um painel só com mulheres tende a produzir debates mais emocionais.

A primeira “demissão” aconteceu logo na estreia. Marta Gautier, psicóloga e humorista, saiu do painel de comentadoras do programa “A Barca do Inferno”   – anunciado pela RTP como de “debate da actualidade social e política” – depois de ter tentado fazer humor com assuntos como o Citius (cujo nome, explicou, lembra “citrino”). As piadas caíram mal às colegas de painel e Isabel Moreira, deputada do PS, Manuela Moura Guedes, jornalista, e Raquel Varela, historiadora, trocaram olhares incrédulos até que a ex-apresentadora da RTP decidiu interromper a humorista. “Isto é a visão da Marta que, parece-me, está um bocado longe e que não se interessa muito pelas coisas da justiça. É a leitura possível da Marta”, atirou. 

Dois dias depois, Marta Gautier comunicava ao então director de informação da RTP, José Manuel Portugal, que não voltaria a participar no programa. A segunda desistência deu-se ontem à noite, com Manuela Moura Guedes a abandonar o estúdio em directo e no meio de uma discussão com Isabel Moreira sobre a descida da TSU. “Já chega. É inacreditável o que aqui se passa. (...) Vou-me embora, que isto já são programas a mais com estas questões”, justificou a jornalista, irritada, antes de sair do estúdio.  

Nilton, o moderador e único homem do programa, tem-se recusado a comentar o incidente, mas admite que “A Barca do Inferno” é, desde o início, “um programa tenso”. Isabel Moreira e Moura Guedes já se tinham desentendido recentemente por causa da greve de 1982. De tal forma, que a deputada do PS chegou a escrever um post no Facebook com críticas à jornalista.  

Mulheres mais emocionais Tratando-se de um programa com um painel composto só por mulheres, poderá atribuir-se a tensão ao facto de o debate ser no feminino? O psiquiatra Daniel Sampaio admite que as discussões entre mulheres tendem a ser mais emocionais: “As mulheres são mais emotivas e, por razões culturais, falam mais dos seus sentimentos. Por isso, quando há confrontos de ideias, é natural que a emocionalidade – a dificuldade em controlar as emoções – venha ao de cima.” Além disso, as mulheres tendem também a ser mais competitivas. “Nos últimos anos, têm ocupado lugares de preponderância nas sociedades, de forma progressiva, o que aumenta a competitividade, especialmente umas com as outras”, defende o psiquiatra. 

O psicólogo Bruno Inglês concorda que existem particularidades no confronto de ideias entre mulheres. “Há, por exemplo, uma tendência para se interromperem mais que os homens”, nota. Os debates no masculino são mais lineares e num registo de “agora falo eu, agora falas tu” e as mulheres parecem ter uma vantagem: conseguem “manter uma atenção maior” perante interrupções ou discursos sobrepostos. Não se pense, porém, que não existem explosões emocionais no masculino. Daniel Sampaio garante que as há e que quando acontecem são  até mais violentas que as femininas: “O homem é treinado para esconder emoções, o que pode levar a grandes explosões violentas, enquanto que a mulher vai exprimindo as zangas no dia-a-dia.”

O consultor de comunicação Rodrigo Moita de Deus também vê diferenças no discurso de homens e mulheres, mas prefere atribuí-las a outros factores que não a emocionalidade feminina. “As mulheres falam de maneira diferente por estarem menos envolvidas na política, o que lhes permite debater de forma mais descomprometida”, defende. 

Os politólogos fazem uma leitura diferente. António Costa Pinto, por exemplo, atribui a tensão no programa “A barca do inferno” à coexistência, em directo, de comentadoras com ideologias diferentes. “Um debate tende a ser mais sereno quanto mais próxima for a proximidade ideológica dos participantes”, sublinha. E a professora de Ciência Política Ana Espírito Santo, que se tem debruçado sobre questões de género na política, descarta mesmo qualquer diferença nas intervenções de homens e mulheres: “Há homens tão ou mais emotivos que muitas mulheres e, neste caso em concreto, estamos a falar de pessoas muito habilitadas a discutir política em público, não sendo expectável que se deixem levar pelas emoções, sejam homens ou mulheres.”  

Barca acaba no fim do mês Manuela Moura Guedes, adiantou o “Expresso”, não deverá voltar ao programa e “A Barca do Inferno” vai acabar. A última emissão tem data marcada para 29 de Junho, mas a direcção da RTP Informação já esclareceu, num comunicado, que o fim do projecto nada tem a ver com o desentendimento de anteontem. “Já tinha sido anunciado à equipa na semana passada”, lê-se no comunicado, que refere o abandono de Moura Guedes como uma situação “que será sempre, do ponto de vista ideal, algo a evitar, mas possível de suceder em debates em directo”. 

Isabel Moreira e Raquel Varela reagiram ao incidente no Facebook. A deputada do PS elogiou Nilton – que “fez o seu papel de forma exemplar” perante a “profunda superficialidade” de Moura Guedes – e acusou a jornalista de ter aproveitado “uma oportunidade de saída de vítima de ‘má educação’”. “Logo a pessoa em causa”, escreveu a deputada, acrescentado que Moura Guedes “saiu tarde”. Raquel Varela foi mais comedida e preferiu recordar que “A Barca do Inferno” é um programa “inovador”, num país em que “o debate político é, de forma acintosa, dominado por homens”. Manuela Moura Guedes não fez comentários.

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