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Anish Kapoor. A vagina de Versalhes nas bocas do mundo
A vagina de Versalhes que a partir de hoje está aberta ao público

Anish Kapoor. A vagina de Versalhes nas bocas do mundo

A vagina de Versalhes que a partir de hoje está aberta ao público Kamil Zihnioglu/AP Clara Silva 09/06/2015 12:30

A exposição de Anish Kapoor nos jardins do Palácio de Versalhes abre hoje ao público. “Dirty Corner” é a peça mais polémica.

É um pássaro? É um avião? Aqui nenhuma destas questões se coloca, até porque estamos com os pés bem assentes nos arbustos do Palácio de Versalhes – quer dizer, a menos que façamos a primeira pergunta no feminino. Antes que se começasse com teorias e adivinhas próprias da arte contemporânea, Anish Kapoor confirmou as impressões iniciais: “É uma vagina.” Mais ainda, “le vagin de la reine qui prend le pouvoir”, que é como quem diz, a vagina da rainha Maria Antonieta.

A escultura gigante nos jardins do Palácio de Versalhes andou nas bocas do mundo antes mesmo de a exposição do britânico de origem indiana abrir portas ao público(estará ali plantada a partir de hoje e até 1 de Novembro, mesmo a tempo das férias).

Assim que surgiram as primeiras imagens de “Dirty Corner” (o nome da obra) choveram críticas na internet e na imprensa mundial, principalmente em sites e jornais franceses conservadores. É certo que Kapoor gosta de chocar e que o tema não é novo (é ver, por exemplo, as esculturas cor-de-rosa da sua exposição do mês passado na londrina Lisson Gallery). Mas parece que desta vez ninguém estava preparado para uma vagina gigante no centro de Versalhes, “local de passeios de domingo em família”, escreve um desses sites mais conservadores. 

O artista de 61 anos nascido em Bombaim (radicou-se em Inglaterra e foi aí que começou a dar nas vistas com as suas esculturas, nos anos 80) é o oitavo a intervir nos jardins do palácio e sucede a Lee Ufan. Xavier Veilhan, Takashi Murakami, Bernar Venet, Jeff Koons e Joana Vasconcelos também constam da lista. 

Em 2012, a portuguesa esteve envolvida noutra polémica quando a sua obra “A Noiva”, um lustre de cinco metros feito de tampões, foi considerada “inadequada” para a exposição – dessa vez pelos próprios curadores de Versalhes – e acabou por encontrar abrigo no Centquatre de Paris.

Agora é “Dirty Corner”, feita de aço e pedra, a dar que falar nos jardins que, em tamanho, equivalem a 800 campos de futebol. Há muito espaço e a escultura de 60 por 10 metros aproveita-se disso – aliás, Kapoor é conhecido pelos trabalhos de grandes dimensões, como as monstruosas esculturas “Leviathan” para a Monumenta de Paris em 2011. 

“Sei que a rainha teve os seus defeitos, mas é uma vagina muito estranha”, escreve Michele Hanson na sua crónica do jornal britânico “The Guardian”. “Vasta, brutal, metálica e de aspecto sujo, a afunilar-se num buraco negro. Devo dizer que estou um bocado farta deste tipo de ideia de uma vagina. Pensei que tudo isso tinha morrido há mais de meio século atrás, quando ‘O Amante de Lady Chatterley’ foi publicado e tudo o que era longo e pontiagudo era um pénis e cada orifício era uma vagina.”

No mesmo jornal, Jonathan Jones considera que não há razão para tanto choque. “Por que raio é que os franceses estão tão chocados?”, pergunta. “O que aconteceu com a nação que nos deu a pintura explícita de Courbet ‘A Origem do Mundo’?” 

Já o jornal francês “Le Figaro”, num ensaio intitulado “A Vagina da Rainha em Versalhes: Profanação da Memória e Especulação Financeira”, insurge-se com “a quantidade de dinheiro investida para pôr à prova os visitantes”.

Em resposta, o artista diz que sempre teve como preocupação “preservar a integridade deste local histórico” e que o objectivo da exposição é “criar um diálogo entre estes jardins e as obras”. E que diálogo está a criar...
Além de “Dirty Corner”, “Shooting Into the Corner” parece ser outra das peças mais provocadoras da exposição, que foi hoje inaugurada. Instalada na sala Jeu de Paume (é a única dentro de portas), a peça inclui um canhão – “fálico”, apontam alguns – a disparar cera vermelha para uma parede branca.

Outra das obras é “Descension”, já apresentada em 2014 numa escala mais pequena, na Índia, com um lago a sugar água como num ralo de banheira. A peça surge em oposição a “Ascension”, um dos pontos altos da Bienal de Veneza de 2011, com fumo a subir pela Basílica de São Jorge Maior.

A exposição também inclui “Sky Mirror”, uma das séries de obras mais populares de Kapoor, um espelho de seis metros encomendado pela primeira vez em 2001 pelo teatro Nottingham Playhouse.

Palácio de Versalhes, França. Entrada livre todos os dias, das 8h00 às 20h30. Mais informações aqui

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