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Frente-a-Frente da homeopatia. Verdade comprovada ou uma enorme mentira?
Francisco Patrício vs David Marçal

Frente-a-Frente da homeopatia. Verdade comprovada ou uma enorme mentira?

Francisco Patrício vs David Marçal Stephanie Maze/Corbis Marta F. Reis 06/06/2015 20:08

Desafiámos um médico homeopata a trocar argumentos com o céptico mais acérrimo que o país conheceu.

Desafiámos um médico homeopata a trocar argumentos com o céptico mais acérrimo que o país conheceu nos últimos tempos. Eis a conversa entre Francisco Patrício, presidente da Associação Médica Portuguesa de Homeopatia, e David Marçal, bioquímico e autor de “Pseudociência”.

Francisco Patrício vs David Marçal

não há dúvidas...
O médico alemão Samuel Hahnemann descobriu que qualquer medicamento tem duas acções: uma acção primária, que corresponde ao que actualmente se conhece como efeito terapêutico, adverso ou colateral dos fármacos, e uma acção secundária ou reacção homeostática do organismo, que é conhecida por efeito rebound. 

Na homeopatia é o efeito rebound que é usado como efeito terapêutico, pois existe esta resposta do organismo como um todo e a nível celular a um estímulo terapêutico que é administrado pelo princípio da similitude, recuperando-se a homeostasia. Já na farmacologia convencional, quando os medicamentos são usados pelo princípio dos contrários (de forma enantiopática), o efeito rebound torna-se um efeito adverso e grave. 

O estudo do fenómeno do efeito rebound, os estudos da hormesis da toxicologia moderna e a abordagem recente intitulada como farmacologia paradoxal, entre outras, fundamentam cientificamente a homeopatia. O médico e cientista prof. dr. Marcus Zulian Teixeira fundamentou cientificamente o princípio da similitude na designada farmacologia moderna através de investigação sobre o efeito rebound. Da investigação básica salienta-se que os medicamentos dinamizados emitem sinais electromagnéticos específicos, sendo uma linha de investigação do Prémio Nobel da Medicina Jean Luc Montagnier. Outros estudos mostram que a nanoestrutura da água é diferente da do solvente de partida e que mesmo ultradiluições acima da 12CH (limiar do número de Avogadro) apresentam ainda nanopartículas do soluto inicialmente diluído, detectadas por microscopia electrónica. Estudos segundo a metodologia científica actual (duplamente cegos e randomizados) em seres humanos, em animais e em células com ultradiluições acima da 12CH mostram que os medicamentos homeopáticos têm um efeito diferente do placebo. 

Destaca-se ainda da investigação clínica até 2014 a existência de seis grandes revisões sistemáticas e metanálises de ensaios clínicos randomizados e controlados, cinco das quais indicam que a homeopatia tem efeito específico e superior ao placebo. Apenas uma publicação no “The Lancet” em 2005 pôs isso em causa. Mas foi bastante contestada quanto à sua metodologia: em 110 ensaios clínicos homeopáticos, seleccionou apenas oito para as conclusões finais. Desses oito, quatro apresentavam resultados positivos a favor da homeopatia e os outros quatro eram ensaios clínicos cuja metodologia feria marcadamente os princípios fundamentais da homeopatia. Assim, até aos dias hoje, só existem estudos que indicam que a homeopatia, quando aplicada segundo os princípios que a definem, é eficaz e eficiente. 
Francisco Patrício

... de que não funciona
A homeopatia é uma prática inventada há cerca de 230 anos pelo médico alemão Samuel Hahnemann, segundo a qual o poder curativo de qualquer substância (desde abelhas esmagadas a cicuta) é tanto maior quanto mais diluída ela for. A magia está alegadamente numas pancadas (“dinamizações”) dadas com os frascos numa superfície dura e flexível (originalmente, a sela do cavalo de Hahnemann). Este foi contemporâneo de Lamarck e morreu em 1843, ano em que nasceu Robert Koch, que viria a descobrir que muitas doenças são causadas por microorganismos. Décadas depois seria determinada a constante de Avogadro, que permite saber quantas moléculas há numa certa quantidade de matéria (num preparado homeopático 30C, a probabilidade de encontrar uma só molécula da substância original é equivalente à de ganhar o Euromilhões várias vezes).

A homeopatia surgiu quando a ciência moderna dava os primeiros passos e rapidamente se tornou evidente que os seus princípios não tinham fundamento científico. A ciência baseia-se em experiências e observações que possam ser repetidas e confirmadas de modo independente. A homeopatia é uma pseudociência, procura imitar a aparência da ciência. Para isso recorre a um conjunto de estratégias típicas que descrevo no meu livro “Pseudociência” (Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2014), tais como figuras de autoridade, ou seja, dizer que uma coisa é verdade porque há pessoas muito importantes que dizem que é (“médico e cientista prof. dr. Marcus Zulian Teixeira”, “Prémio Nobel da Medicina Jean Luc Montagnier”, que ganhou o Nobel pela descoberta do vírus HIV nos anos 80, e não por divagações sobre “assinaturas electromagnéticas” quase aos 80 anos de idade). Outra é a linguagem aparentemente científica, usada sem qualquer significado (“efeito rebound”, “farmacologia paradoxal”). Lembra-se das pulseiras power balance com um “holograma quântico?” É a mesma coisa. Escolher a dedo os estudos que parecem mais favoráveis, ignorando os restantes, tal como escolher um postal sem olhar para a paisagem, é outra característica da pseudociência. A exigência para a medicina baseada na ciência são as revisões sistemáticas da literatura científica, como as feitas pela organização sem fins lucrativos Cochrane Collaboration. Se acreditam ter provas de que a homeopatia funciona, aceitem introduzir os remédios homeopáticos no mercado sujeitos às mesmas exigências dos medicamentos convencionais. Fica o desafio. 
David Marçal 

Talvez possa tirar medicina
Há quatro princípios fundamentais na homeopatia: uso de um medicamento único e individualizado para o total de sintomas do doente; o uso de medicamentos na forma dinamizada ou ultradiluída; e o princípio da similitude, o mais importante, que define que a cura de uma pessoa doente pode ser alcançada administrando-lhe o medicamento que produz sintomas semelhantes em utilizadores saudáveis. Assim, a sua afirmação de que “o poder curativo de qualquer substância é tanto maior quanto mais diluída ela for” não é correcta. A acção verifica-se, acima de tudo, segundo o princípio da similitude. 

Aquilo a que chama “pancadas” são sucussões e está provado por métodos como a espectrografia que geram alterações. As ultradiluições são diferentes do solvente, existindo agregados supramoleculares de moléculas de água; é possível identificar medicamentos específicos, sinais electromagnéticos ou emissão de fotões. É uma nanomedicina. 

Não existe nenhum estudo que conteste a eficácia e eficiência do tratamento que contenha ensaios clínicos feitos de acordo com os princípios referidos. Na homeopatia não há doenças, há doentes únicos, o que não impede que seja posta à prova através destes ensaios clínicos controlados e randomizados. Prova disso é a mais recente meta--análise e revisão sistemática de 2014 publicada no “Systematic Reviews”, que mostra que o tratamento individualizado tem um efeito superior ao placebo. Faltam mais ensaios por várias razões: negação da homeopatia e dos médicos que a investigam por preconceito, falta de apoios, falta de médicos com conhecimentos adequados.

Claro que há figuras de autoridade que servem de referência científica. Isso também não impede a contestação, desde que os críticos estudem a matéria. Não fica bem menosprezar cientistas como Montagnier só porque são idosos…
Não é médico nem engenheiro ou físico, senão compreenderia que, além de moléculas, há subpartículas atómicas e forças que comandam o universo. Numa ressonância magnética fotografam-se fotões emitidos pelos núcleos dos átomos de hidrogénio, ou seja, concentrações protónicas correspondentes a concentrações de água nos tecidos! Vai dizer que é um engodo por isso? E há medicamentos convencionais administrados pelo princípio da similitude, por exemplo, anticoncepcionais na síndrome pré-menstrual. Não me é permitido alongar, se não teria de lhe explicar como a ciência quântica é aplicada na medicina. Talvez possa inscrever-se num curso de Medicina e depois fazer homeopatia. Um grande médico americano, Constantin Hering, foi inicialmente um detractor e, quando a estudou a fundo, tornou-se um dos principais defensores de Hahnemann. 
Francisco Patrício 

Para quando uma pílula homeopática?
Patrício afirma que a acção da homeopatia se baseia “acima de tudo” no princípio da similitude. Tendo em conta que algumas das substâncias usadas são poderosos venenos (como o arsénico ou a beladona), o principio de as diluir até não sobrar nada também é importante para que o paciente sobreviva e marque a segunda consulta. A questão para Patrício (ou deveria dizer dr. Patrício?) continua a ser de autoridade. A sua, porque é médico, face à ausência da minha, porque não sou “médico nem engenheiro ou físico”. Enquanto for conveniente para Patrício, Montagnier terá autoridade, não obstante ter ganho o Nobel por um trabalho completamente diferente realizado há 30 anos. Os resultados de Montagnier acerca da “assinatura electromagnética das moléculas” não são passíveis de serem reproduzidos por outros grupos de investigação. Goste-se ou não, a reprodutibilidade dos resultados é uma característica da ciência, pois ninguém está imune à fraude e ao erro. Em 1999, a Fundação James Randi ofereceu um milhão de dólares a quem conseguisse demonstrar a existência da “assinatura electromagnética”, prémio que nunca foi reclamado.

Patrício contínua a abusar de linguagem aparentemente científica sem qualquer significado. É verdade que há várias técnicas em que contar o número de fotões permite saber a concentração de uma substância, mas isso em nada apoia a causa homeopática. E usa o Santo Graal das pseudociências: a palavra “quântica”! Há instrumentos usados na medicina cujo funcionamento se explica com a física quântica, mas o mesmo se aplica às máquinas de lavar roupa, já que estas têm transístores. Requer um tratamento de excepção para a homeopatia, pois reivindica que os ensaios clínicos sejam feitos “de acordo com os princípios da homeopatia”, e não de acordo com as exigências para qualquer outro tratamento. Rejeita os princípios da medicina baseada na ciência, mas paradoxalmente reclama um estatuto científico para os remédios homeopáticos. Se estes conseguissem provar a sua eficácia através de ensaios clínicos metodologicamente robustos, a homeopatia não seria alternativa, seria simplesmente... medicina. Mas não, os remédios homeopáticos são introduzidos no mercado com um regime especial em que a única coisa que têm de provar é que são... inócuos! Nisso estamos de acordo, são só água e açúcar. Patrício fala de anticoncepcionais. Porque não uma pílula anticoncepcional homeopática? A associação portuguesa de famílias numerosas certamente apoia a ideia. Claro que dá mais jeito um remédio para a gripe, que é uma doença que passa sozinha. 
David Marçal 

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