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Tudo o que precisa de saber sobre a arte de curar pelo igual
A homeopatia é um sistema de tratamento fundamentado pelo médico alemão Samuel Hahnemann

Tudo o que precisa de saber sobre a arte de curar pelo igual

A homeopatia é um sistema de tratamento fundamentado pelo médico alemão Samuel Hahnemann 06/06/2015 19:17

Saiba como surgiu e como funciona esta terapêutica, que garantias oferecem os produtos, quem os supervisiona.

É este o significado da palavra homeopatia: do grego hómoios + páthos = semelhante + doença. Saiba como surgiu e como funciona esta terapêutica, que garantias oferecem os produtos, quem os supervisiona, o que é exigido por lei a um homeopata ou como funcionam geralmente os tratamentos. Pedimos ajuda a alguns especialistas para responder às principais dúvidas sobre aquela que é uma das terapias não convencionais mais populares em Portugal, rodeada de mitos como não poder tomar os remédios em colheres de metal pois isso anula o efeito. Há, contudo, precauções a ter em conta: se está a tomar outros medicamentos convencionais, da chamada medicina alopática, deve ter cuidado com interacções que podem ser perigosas para a saúde.

O que é a Homeopatia?

É um sistema de tratamento fundamentado pelo médico alemão Samuel Hahnemann (1755-1843). Segue quatro princípios: o princípio da similitude, a experimentação farmacológica homeopática nos indivíduos saudáveis, o medicamento único individualizado e o medicamento dinamizado. Defende que é preciso encontrar o estímulo medicamentoso adequado (o simillimum) para levar a pessoa doente a restabelecer o seu equilíbrio. Quanto mais similar for o estado global de funcionamento do doente com o estado de funcionamento que o medicamento mostrou produzir em experimentadores saudáveis, maior é a probabilidade de haver resultado eficaz. Quanto maior for a ultradiluição, e desde que o doente tenha ainda um bom estado vital, mais rápidos e duradouros são os efeitos terapêuticos. 

Qual a diferença para os remédios normais?

Segundo os especialistas, até um medicamento convencional pode ser considerado um medicamento homeopático, se administrado por esse princípio de similitude. Tal como um medicamento ultradiluído pode ser considerado um medicamento alopático (da medicina convencional) se aplicado pelo princípio dos contrários. Mas a principal distinção é o método de fabrico, que se chama dinamização ou potencialização: a diluição e agitação sucessivas das substâncias medicinais, que podem ter origem em minerais, plantas e animais ou produtos biológicos, bactérias, vírus, fungos, e até medicamentos sintéticos convencionais. 

Como se consegue isso?

Primeiro obtém-se uma tintura--mãe, dissolvendo a matéria-prima que se pretende usar ou fazendo uma maceração, por exemplo no caso de se usar a planta camomila. Esta é a solução de partida e segue-se o processo de dinamização. Na maior parte das vezes usa-se a escala de diluição centesimal. Ou seja, dissolve-se uma parte da tintura-mãe em 99 partes de água ou solução hidroalcoólica, agitando ou sucussionando manualmente 100 vezes seguidas, alcançando-se a dinamização 1CH. O processo repete-se em cadeia, e a partir da 12CH, segundo o chamado número de Avogadro, teoricamente deixa de haver moléculas da substância na ultradiluição. Apesar disso, na prática clínica usa-se com frequência dinamizações como a 12CH, 30CH, 200CH e superiores.

Como se sabe o graude diluição? 

Geralmente, à frente do nome da substância há um número que indica quantas vezes foi diluída e um CH ou um DH, de centesimal ou decimal hahnemanniana, que indica o método de diluição usado (centesimal ou decimal). Por exemplo, 5CH significa que o processo de diluição e agitação sucessivas foi repetido cinco vezes na escala centesimal.

O que os distingue na forma de actuar?

Os medicamentos convencionais são dose--dependentes: dependem dos efeitos directos das moléculas ao nível de receptores celulares para haver resultado clínico. No entanto, sabe-se que as células ajustam a quantidade de receptores em função do estímulo, podendo surgir sintomas após interrupção abrupta da medicação – o efeito rebound ou secundário. Por exemplo, quando se deixa de tomar café diariamente, a maioria dos consumidores sentem sono e cansaço, efeitos indesejáveis. Na homeopatia, como os medicamentos são usados pelo princípio da similitude, é o efeito rebound (resposta do organismo) que é responsável pelo efeito terapêutico, e não a acção directa do fármaco. Por isso é que Hahnemann propôs a diluição das substâncias, para evitar um agravamento clínico resultante dessa acção directa. 

Mas o que é a teoria da memória da água?

Sustenta o facto de mesmo altamente diluídos, os medicamentos homeopáticos continuarem a fazer efeito. Foi proposta em 1988 pelo imunologista francês Jacques Benveniste. Apesar da controvérsia, têm sido repetidos estudos, alguns com resultados positivos. Os homeopatas defendem com base nestes estudos que o efeito dos medicamentos pode resultar não de moléculas presentes nas ultradiluições, mas das modificações na estrutura da água impressas pela substância inicial. 

É preciso tomar em jejum, com colheres de plástico em vez de talheres normais? os preparados não podem estar perto de máquinas?

Os medicamentos homeopáticos podem ser tomados a qualquer hora, mas habitualmente dá-se um intervalo de 15 a 30 minutos antes ou depois de uma refeição. Podem ser ingeridos directamente ou podem ser primeiro diluídos num pouco de água. Apesar do mito, não há diferença no uso auxiliar de talheres. Ainda assim, alguns estudos indicam que aparelhos eléctricos, temperaturas elevadas, exposição solar, exposição a radiação de telemóveis ou aos microondas podem alterar a estrutura tridimensional da água.

Em que formatosão vendidos?

Em tubos de grânulos, glóbulos ou em frascos em líquido, com conta-gotas. Também existem em pomada e em ampolas.

Qual é a diferença para os produtos naturais?

Produtos naturais nos quais se incluem os suplementos alimentares e a fitoterapia são fabricados e aplicados de modo muito diferente: basicamente, não são diluídos. Alguns homeopatas combinam a prescrição de medicamentos homeopáticos com produtos naturais ou mesmo indicações alimentares, já que há uma abordagem que tenta ser mais natural. Incluem-se muitas vezes cataplasmas, unções preparadas à base de produtos naturais com efeitos calmantes e anti-inflamatórios. 

Os resultados da Homeopatia são garantidos?

Segundo as revisões da Cochrane Collaboration – entidade que através da revisão sistemática e meta--análise produz evidência científica para a utilização de terapêuticas específicas em determinada doença –, não há resultados conclusivos sobre a eficácia da maioria das intervenções nem estudos que permitam dizer que determinado medicamento funciona, por exemplo, na rinite ou na asma. Ainda assim, a Cochrane indica que existe uma pequena evidência em alguns casos.

Que casos?

No tratamento homeopático da síndrome do cólon irritável, na perturbação do défice de atenção e hiperactividade, na profilaxia da dermatite aguda durante a radioterapia, na estomatite induzida pela quimioterapia e no tratamento da gripe sazonal. Não emite um parecer final, mencionando a necessidade de mais ensaios clínicos e de qualidade para se tirarem conclusões definitivas. Os homeopatas e mesmo as agências de medicamentos invocam o facto da homeopatia assentar numa abordagem individualizada em que a mesma doença pode ser tratada de forma diferente, já que o que importa são os sintomas e não a causa, para as dificuldades em realizar os convencionais ensaios clínicos em que se confronta a eficácia de uma terapia contra outras em função da doença.

Como assim diferentes tratamentos para a mesma doença?

Imagine-se uma gripe. O homeopata vai avaliar os sintomas e o estilo de vida da pessoa. Se sentir arrepios, é ansioso e há sintomas gastrointestinais, o remédio mais indicado pode ser o Arsenicum album. Se há dores musculares intensas, há o Eupatorium perfoliatum. Se por outro lado há cansaço ou dores de cabeça, o mais indicado pode ser o Gelsemium. 

Mas há alguma regulação ou é tudo vendido sem controlo?

Em Portugal, os preparados homeopáticos à venda têm de ser registados no Infarmed, controlo que não existe, por exemplo, nos suplementos alimentares. Estão previstos dois regimes. No caso dos medicamentos de toma oral ou aplicação externa, com um grau de diluição considerado inócuo do ponto de vista tóxico e que não apresentem quaisquer indicações terapêuticas especiais na rotulagem ou em qualquer informação relativa ao medicamento, basta ser feito um registo simplificado do produto. 

A partir de que nível de diluição é que um produto é considerado inócuo pelo Infarmed?

Segundo a legislação portuguesa, não deve conter mais de uma parte por 10 mil de tintura-mãe – ou seja, deve estar na dinamização acima da 2CH – nem mais de 1/100 (1CH) da mais pequena dose eventualmente utilizada em alopatia no caso de substâncias sujeitas a receita médica. Se lhe receitarem um medicamento acima desta diluição, informe-se sobre as condições em que foi avaliado.

Quantos medicamentos homeopáticos estão registados no Infarmed?

Segundo informação fornecida ao i pela agência do medicamento, há 634 medicamentos simples e 38 que tiveram de demonstrar eficácia. Contudo, atendendo ao facto de ser uma terapêutica individualizada, pode ser usada bibliografia que comprove o uso bem estabelecido.

Se é inócuo, como pode funcionar?

Numa revisão sistemática de 2012 publicada no “International Journal of Clinical Practice”, por exemplo, verificou-se que os medicamentos dinamizados também podem produzir efeitos adversos, principalmente decorrentes da sua acção primária directa (sintomas patogenéticos), sobretudo quando não usados pelo princípio da similitude e sem acompanhamento, explica o homeopata David Nascimento Moreira. Os mais cépticos atribuem resultados ao efeito placebo, um efeito psicológico e inconsciente que existe também na medicação convencional, já que por vezes nos ensaios clínicos, doentes a quem é dado farinha ou água com açúcar para ver a diferença face ao resultado dos doentes que tomam a nova medicação também melhoram. 

É preciso teralgum cuidado?

É preciso ter cuidado com as interacções medicamentosas. Preparados que contenham valeriana não devem ser, por exemplo, usados por pessoas com epilepsia. E outros que contenham ginkgo biloba devem ser evitados por doentes que façam anticoagulantes, pois aumentam o risco de hemorragia.

Só se toma um medicamento de cada vez?

Há três abordagens: o unicismo, em que se usa apenas um medicamento de cada vez; o pluralismo, alternando-se mais do que um medicamento, mas não os tomando em conjunto; e o complexismo, em que se misturam vários medicamentos. A abordagem ideal e a mais difícil na prática, pois é necessário que o médico possua excelentes conhecimentos de matéria médica homeopática, é a do unicismo, em que há um tratamento homeopático individualizado, além de um rácio custo-eficácia muito reduzido, pois o tratamento de uma situação clínica como, por exemplo, um eczema alérgico pode custar apenas cerca de 5 euros. Em qualquer das situações, só existe um resultado clínico bom se estiver presente um medicamento que seja o semelhante, como mostram os estudos.

Quais são os custos habituais?

Os preços variam entre os três euros e cerca de 45 euros por embalagem. Os produtos não são comparticipados nem pelo SNS nem por nenhum subsistema, embora no passado já tenham sido reembolsados pela ADSE. Existem actualmente vários planos de seguros de saúde em Portugal que cobrem as despesas com a homeopatia e outras terapêuticas não convencionais. 

Como funciona lá fora?

Em França, os medicamentos homeopáticos são reembolsados até 30% pela Segurança Social, havendo um tecto de comparticipação de 50 euros/ano. Na Alemanha, os seguros de saúde obrigatórios também têm um plafond anual para produtos das medicinas complementares. Na Suíça, esta alternativa foi incluída no seguro obrigatório de saúde que abrange todos os cidadãos, a par da fitoterapia ou medicina chinesa, e está em estudos até 2017.

É preciso ter registo profissional para ser homeopata?

Até aqui, não. Espera-se desde 2013 a regulamentação das terapêuticas não convencionais, um pacote de terapias que inclui a homeopatia. Segundo a legislação, os profissionais vão ter de ter estudos superiores equivalentes a licenciatura para terem cédula profissional. Passarão também a estar obrigados a manter registos clínicos. 

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