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Duarte Marques. “Dias Loureiro não é exemplo para ninguém”
Os adversários políticos acusam-no de ser um beto marialva

Duarte Marques. “Dias Loureiro não é exemplo para ninguém”

Os adversários políticos acusam-no de ser um beto marialva Rodrigo Cabrita Luís Claro 01/06/2015 10:00

Diz ser “um combatente” contra a corrupção e admite que as pessoas envolvidas no BPN são “uma vergonha e um embaraço” para o partido.

É ribatejano e não se importa que os adversários políticos lhe chamem marialva. O que o ofende é quando o tratam como um “boy” do PDS e, para provar que não o é, conta que começou a trabalhar com 16 anos, foi bom aluno e acumulou os estudos com biscates. Ficou conhecido por ter sido líder da JSD, é deputado e começou a carreira política como assessor do ministro Morais Sarmento no governo de Durão Barroso.
 
Estive a fazer uma pesquisa sobre si e uma das coisas que dizem é que é um beto marialva. Ofende-se com isso? 
Não me soa mal chamarem-me marialva. Há uma coisa que eu sou: eu sou livre. E não tive uma vida fácil, não sou um protegido de ninguém. Cresci com a ajuda dos meus amigos e das pessoas que gostam de mim, mas não tenho padrinhos nem nasci em berço de ouro.

Aprendi muito com o meu pai, que perdi muito jovem, e tudo aquilo que represento, muitas vezes, é o carácter do meu pai e isso é uma liberdade total. Por isso é que eu sou um combatente contra a corrupção e, sobretudo, tento trazer à política aquilo que tenho de mais autêntico.

Não tenho a mínima dúvida de que o ex-procurador-geral da República protegeu José Sócrates

Mas é acusado de ser o contrário por algumas pessoas. Acusam-no de ser um “boy” do PSD que arranjou emprego à custa da sua ligação à JSD.

Eu pensei em sair da política várias vezes, mas também pensei que não devia sair, porque a única forma que havia de reformar a política era mudar por dentro. Eu estudei para fazer política e fiz o meu percurso todo a fazer política.

É por isso que dizem que é um “boy” do PSD...

Eu não tenho revelado publicamente as actividades que tive além da política. Comecei a trabalhar com 16 anos. Sempre trabalhei quando andava a estudar. Desde ajudar um veterinário a vacinar cabras até trabalhar em casamentos e baptizados a arrumar carros.

Isso em Mação?

Em Mação, em Lisboa. Eu fui viver sozinho com 16 anos. Fui estudar para Castelo Branco e fui trabalhando ao longo da vida.

Teve dificuldades económicas?

Não. A minha mãe é professora, mas sempre tive de trabalhar para ter os meus luxos. Para fazer política gasta-se dinheiro. E sempre trabalhei para poder ter alguns luxos na vida, como fazer viagens à neve, por exemplo. Sempre fiz biscates, como muitos jovens da minha idade, e tive a sorte de ter sido convidado pelo Nuno Morais Sarmento para ir trabalhar com ele.

As pessoas não vão esquecer que José Sócrates está rpeso quando forem votar

Com 20 anos começou logo a trabalhar para o governo?

Com 21 anos. Ele conheceu-me a arrumar carros num casamento, tinha-me visto num congresso da jota a discursar e achou curioso...

Arrumar carros era um dos biscates que fazia?

Sim, e ele achou graça um tipo da jota ter este tipo de vida.

Se não fosse da JSD, não tinha ido para o governo.

Se calhar, não. A jota é uma estrutura de aprendizagem.

Não é um centro de emprego?

Não. Se alguém vai para a jota à procura de emprego, está lixado.

Mas não é essa a imagem que as pessoas têm das juventudes partidárias, pelo contrário.

É um combate diário mudar essa percepção. Eu, para muitas pessoas, sou um “boy” que nunca estudou na vida, que foi mau aluno e que nunca trabalhou.

Foi bom aluno?

Tive 19,5 no exame nacional de Português. Sempre fui um excelente aluno. Há é gente que acha que eu tenho ainda uma postura demasiado jota para as coisas que faço, mas gosto de ser autêntico.

Festejou nas redes sociais o facto de José Sócrates ter sido preso. Nessa noite escreveu: “Aleluia! A malta de Mação não perdoa.” Mandaram-no calar ou, pelo menos, pediram-lhe para ter outra postura?

Ninguém me pediu isso. Foi uma espécie de grito de libertação de alguém que tinha ido várias vezes fazer denúncias na Procuradoria-Geral da República sobre coisas que se passavam (em 2011 reuniu--se com Pinto Monteiro para pedir uma investigação ao governo de José Sócrates). E quando vi aquela notícia cometi um erro, mas fui genuíno, fui autêntico. Se calhar interpretei o sentimento de muitos portugueses e só apaguei aquilo porque senti que estava a prejudicar pessoas que não tinham nada a ver com isso.

Sempre trabalhei quando estudava. Desde ajudar um veterinário a vacinar cabras até arrumar carros

Apagou...

Apaguei, mas ninguém me pediu. Não faço fretes e não tenho medo de ficar sozinho. Dou a cara quando tenho de dar, mas naquele caso cometi um erro.

Em 2011 foi pedir a Pinto Monteiro para investigar José Sócrates. Acha que Pinto Monteiro protegeu o ex-primeiro-ministro?

Acha que há dúvidas sobre isso? Não tenho a mínima dúvida sobre isso. As evidências são claras. Eu só espero que a justiça tenha liberdade para trabalhar e, neste momento, há liberdade. Todos são investigados. O maior desejo que eu tenho é que se consiga descobrir todos aqueles que prevaricam. A justiça tem de funcionar a sério, contra todos, sejam de que partido forem. É a única forma que nós temos de as pessoas olharem para nós, políticos, e acharem que não somos todos iguais, porque os que são maus estão lá dentro, os outros estão cá fora.

Mas voltando ao que escreveu no dia em que Sócrates foi detido. A ideia que dá é que ficou feliz. Ficou?

A minha reacção foi evidente, mas vale mais 100 criminosos à solta do que um inocente preso. É preciso deixar a justiça funcionar.

O PSD não deve falar do caso de José Sócrates na campanha?

Acho que o PSD, na campanha, não deve tirar proveito dessa situação. As pessoas tirarão as suas ilações. Não é preciso o PSD dizer nada. O PSD tem como princípio não falar de casos em investigação. Eu cometi um erro do qual me arrependo, mas foi o que senti no momento.

Acha que os eleitores, quando forem votar, devem ter em conta que o PS tem um ex-primeiro-ministro preso?

As pessoas não vão esquecer isso. Mas o que mais me preocupa é que os portugueses tenham em conta que a estratégia do PS é quase igual àquilo que foram as políticas de José Sócrates. Aquilo que o PS propõe é semelhante ao que fez Sócrates. Mesmo aqui há dias, Ferro Rodrigues dizia que tem muito orgulho do estado em que o PS deixou o país.

As pessoas não viviam melhor há quatro anos?

Viviam a crédito e pagaram nestes quatro anos as políticas erradas. Acho que as pessoas, entre o risco e a certeza, vão optar pela certeza. As pessoas sabem que o país não entrou em megalomanias e conseguiu voltar a crescer, o desemprego voltou a baixar...

Mas é altíssimo.

Mas aí podemos comparar com outros países, como a Grécia ou a Espanha, que tiveram fenómenos como o Podemos e o Syriza. Portugal não tem esses fenómenos porque a esquerda em Portugal tem mais egos do que causas e, em Portugal, o Estado social funcionou.

Mas se olhar para o desemprego há muitos desempregados jovens e de longa duração. Há pessoas com mais de 40 ou 45 anos que correm o risco de nunca mais conseguir entrar no mercado de trabalho.

A factura é demasiado pesada para todos ficarmos livre dela. O Estado está a criar condições para que o país volte a crescer de forma sustentável. Eu não apoiei Passos Coelho dentro do partido, mas hoje em dia olho para ele como o grande líder da revolução tranquila que este país está a fazer. Passos Coelho é a antítese de José Sócrates.

O PSD também tem o caso BPN e nem sempre lida bem com isso.

Não, não, não. Nenhum dos envolvidos tinha na altura responsabilidades no PSD. Era gente que tinha tido funções no PSD. É diferente. São pessoas que saíram e foram fazer a sua vida. São uma vergonha para o PSD e um embaraço.

O primeiro-ministro elogiou Dias Loureiro. Não me pareceu embaraçado. Dar Dias Loureiro como um exemplo não é um mau sinal?

O dr. Dias Loureiro não é exemplo para ninguém. Não pode ser, não pode ser...

Para o primeiro-ministro, parece que é.

Não. Foi uma declaração num contexto local, que ninguém que não estivesse lá pode compreender, e que foi um caso infeliz.

Não tenho padrinhos nem nasci em berço de ouro. Não tive uma vida fácil nem sou protegido de ninguém

O que é que falhou para termos tantas figuras com poder com problemas com a justiça? O BPN, o BES, um ex-primeiro-ministro preso, os vistos gold...

As elites falharam. O caso BES é um exemplo concreto de que as elites do país não são melhores que o resto das pessoas. Houve demasiada gente com responsabilidade a falhar. Houve juízes que falharam, houve banqueiros que falharam, houve ministros... E deram um mau exemplo. O que é verdade é que as elites do país não eram tão boas como nós pensávamos. Vimos uma elite financeira e empresarial a desfilar pela comissão de inquérito (ao caso BES) e ficámos surpreendidos com a incapacidade que tiveram de assumir responsabilidades e com a falta de vergonha de algumas pessoas. O país tinha elites podres e com pés de barro que não cumpriram com as suas responsabilidades. Ricardo Salgado achava que Passos Coelho o ia proteger porque toda a gente o protegeu sempre. Era um deus. E nunca imaginou que Passos Coelho fosse o primeiro a dizer-lhe que não. Isso surpreendeu muita gente, ele próprio se surpreendeu.

Houve muito pouca gente a antecipar isso?

É verdade, e tenho muita honra que seja no mandato deste governo que isto esteja a ser descoberto e combatido. Hoje em dia, em Portugal, ninguém é privilegiado e a justiça em Portugal hoje funciona. Não há interferência do poder político.

Mesmo com tanta coisa a mudar, os partidos políticos pouco mudaram. Há interesses que o impedem?

Não, há uma inércia. A sociedade evoluiu muito depressa e houve outras prioridades. Mas isso vai ter de acontecer. É, por exemplo, fundamental que os partidos tenham uma obrigação de investir parte do dinheiro que recebem do Estado em formação política. Nos próximos anos, o país deve ter três ou quatro prioridades. Uma é a reforma do sistema político e outra é combater o despovoamento do interior. Ou nós conseguimos evitar que as aldeias fechem de vez ou o país vai ter uma mancha negra muito grande. O Estado tem de criar vantagens para as pessoas irem para o interior. Os vistos gold, por exemplo, deviam ir todos para o interior.

A reforma do sistema político também continua por fazer. Os deputados não mudam isso porque têm medo de perder o lugar?

Há uma nova geração que não está tão agarrada a isso. É fundamental fazer essas reformas. O PSD tem de se reformar por dentro. O que menos tem mudado na sociedade são os partidos. Até a Igreja Católica se renovou mais depressa.

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