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INEM. “Já há quem marque o 112 e peça para falar com um psicólogo”

INEM. “Já há quem marque o 112 e peça para falar com um psicólogo”

José Fernandes Marta Cerqueira 30/05/2015 19:30

Os pedidos de ajuda feitos aos psicólogos do INEM batem recordes todos os anos.

A avaliação começa no segundo em que Joana atende o telefone. “Se do outro lado da linha há uma pessoa com intenções suicidas que diz ‘estou muito aflito, só penso em fazer mal a mim próprio’, sei que estou a falar com alguém que aceita ser ajudado”, conta a especialista do centro de apoio psicológico e intervenção em crise do INEM.

Nestes casos basta que o psicólogo envie uma ambulância ao local. “Mas se tenho uma pessoa na varanda que me diz ‘estou decidida, vou atirar-me e não volto atrás’, sei que não chega enviar uma ambulância. O técnico tem de ir ao local para negociar a aceitação da ajuda.” Nas duas situações, a intervenção só termina no hospital, com o doente numa consulta de psiquiatria. Até ao momento, todas as intervenções no terreno têm sido bem-sucedidas e, apesar de em alguns casos não se conseguir evitar a tentativa de suicídio, não houve nenhuma que acabasse em morte.

Cerca de 30% das acções dos psicólogos do Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM) no terreno são precisamente para travar tentativas de suicídio, revelam as estatísticas de 2014. Na maioria dos casos, basta um aconselhamento telefónico para evitar o pior, sem necessidade de deslocação ao local. “Já há quem marque o 112 e peça para falar com um psicólogo”, diz Joana Anjos, uma das 13 profissionais do centro de apoio psicológico e intervenção em crise do INEM, que guiou o i numa visita ao espaço.

Subimos de elevador até ao primeiro andar do número 36 da Rua Almirante Barroso, em Lisboa. Já dentro da sede do INEM, seguem-se quatro portas, quatro corredores, e é preciso introduzir um código que dá acesso ao Centro de Orientação de Doentes Urgentes (CODU), o local por onde passam todas as activações do INEM.

O espaço está dividido entre os profissionais que fazem o primeiro atendimento de chamadas e aqueles que tratam do accionamento dos meios necessários para o local. Num canto da sala quadrada está a mesa que hoje é de Joana, mas que serve de escritório aos cinco psicólogos que trabalham em Lisboa. E se o nosso olhar se desvia para a praia paradisíaca que, em forma de poster, ocupa a totalidade de uma parede do gabinete, o dos técnicos mantém-se focado no computador, cujo ecrã está ocupado com a base de dados electrónica que têm de preencher com os dados de quem liga a pedir ajuda.

O serviço de apoio psicológico faz parte do trabalho do INEM desde 2004, ano em que arrancou apenas com quatro profissionais. Se antes disso o acompanhamento de pessoas com problemas do foro psicológico era pontual e encaminhado para profissionais a trabalhar em hospitais, o INEM conta agora com uma integração sistemática de psicólogos como se vê em poucos países. Joana, uma das fundadoras do projecto, explica que foi preciso estudar muito do que se passava lá fora, mas que os processos internos também foram desafiadores. “Os técnicos do INEM precisaram de ver para perceberem que o que fazíamos podia fazer a diferença. Só aí começaram a pedir a nossa ajuda”, conta, lembrando que o trabalho da equipa se centra numa intervenção em crise e não numa intervenção terapêutica clássica.

Além das bases da licenciatura tradicional, os psicólogos do INEM têm uma formação específica em intervenção em situações de crise, em que aprendem a lidar com casos extremos como tentativas de suicídio, surtos psicóticos, violações ou maus-tratos. A lista é longa, mas a psicóloga enumera alguns dos procedimentos mais comuns. “Chegando ao local, o primeiro passo é perceber quem morreu, quem está ferido, quem precisa de ajuda prioritária e quantos psicólogos serão necessários”, explica. O segundo passo é restabelecer a sensação de segurança, levando a pessoa para um local em que não esteja exposta a estímulos traumáticos, longe de mortos, feridos e pessoas em descontrolo emocional. Numa terceira intervenção, mais individual e profunda, o psicólogo “conecta” a pessoa com familiares e amigos que lhe possam dar algum apoio.

Na maioria das saídas para o terreno, a equipa do INEM conta com a presença da comunicação social. “Temos tendência para pensar nas grandes tragédias, mas a verdade é que um suicídio, um assalto ou um afogamento acabam por também ser notícia”, refere a psicóloga. 

Nestes casos, a intervenção só difere na preocupação de proteger a família da exposição, ajudando a reflectir sobre se será benéfico dar depoimento, mas também no aconselhamento de que se mantenham afastados das reportagens televisivas sobre o caso. “Ver repetidamente as mesmas imagens só vai prolongar o sofrimento”, justifica.

Cada vez mais requisitados Apesar de crescerem numa proporção que não chega a um por ano – em 2004 eram quatro, actualmente são 13 –, os psicólogos do INEM são requisitados com uma frequência que supera as expectativas. Prova disso são os números mais recentes do instituto, que mostram que em 2014 foram 9123 as chamadas do CODU encaminhadas para o serviço. Se recuarmos a 2006, o primeiro ano com registos, a intervenção ficava-se pelas 319 chamadas.

Já nas intervenções no local, feitas com recurso à UMIPE – Unidade Móvel de Intervenção Psicológica de Emergência, os números são ainda mais reveladores da presença dos psicólogos nas equipas de intervenção: se em 2013 apoiaram 315 vítimas, o ano passado esse número subiu para 494. Joana Anjos explica este aumento com o maior reconhecimento dado pelos colegas, que consideram o seu trabalho útil, mas também na proactividade dos próprios psicólogos. “Se estamos perante um afogamento em que o corpo não aparece depois de meia hora, ou se temos um técnico a fazer reanimação de uma criança há uma hora, sabemos que a probabilidade de haver um desfecho negativo é elevada.” Nesses casos, os psicólogos dirigem--se de imediato ao local para ajudar a lidar com a morte inesperada, situação que continua no topo das intervenções das equipas.

o psicólogo no psicólogo Um dos pontos previstos na intervenção em crise passa pelo apoio entre colegas, para melhor lidarem com as situações especialmente. Um apoio que está disponível sempre que solicitado.

Joana Anjos associa estas situações marcantes aos casos mais mediáticos – os afogamentos no Meco, a queda da ponte em Entre-os-Rios ou de um muro junto à Universidade do Minho –, que exigiram um longo período de intervenção que acarretou bastante desgaste para os psicólogos. Mas há mais: “As situações com as quais nos identificamos são as mais difíceis, seja um velho com o mesmo problema de saúde de que morreu o meu avô seja uma criança com a mesma idade do meu filho”, exemplifica a psicóloga. Mas sem entrar em pormenores: “Não gostamos de desarrumar aquilo que está bem arrumado na nossa cabeça.”

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