27/09/2022
 
 
Levámos Portugal ao psicólogo e o diagnóstico é de depressão
O lado mau é que temos pouca esperança no futuro; o bom é que não ficamos quietos e procuramos soluções

Levámos Portugal ao psicólogo e o diagnóstico é de depressão

O lado mau é que temos pouca esperança no futuro; o bom é que não ficamos quietos e procuramos soluções Getty Images Marta Cerqueira 29/05/2015 22:37

É certo que estamos mais deprimidos, mas não é só isso que nos molda. A juntar aos traços negativos há algo de bom.

Somos mais de 10 milhões, temos mais idosos que jovens, mais mulheres que homens, estamos mais concentrados nas cidades e a maioria é católica. Assim seria Portugal se um país se fizesse só de percentagens e estatísticas. Ir mais longe é desvendar segredos, conhecer a intimidade e fazer diagnósticos.

Por querermos saber mais sobre Portugal e os portugueses é que decidimos levar o país ao psicólogo. Ao fim de algumas sessões descobrimos que no sexo somos conservadores e preconceituosos e no amor damos pouco espaço à individualidade. As nossas famílias estão mais unidas e dão mais importância aos afectos, mas temos também pais cada vez mais protectores, que educam filhos inseguros e imaturos.

Ao juntar as análises feitas pelos profissionais das diferentes áreas numa lista só, a conclusão podia dar azo a um diagnóstico de bipolaridade. Mas não é essa a opinião do bastonário da Ordem dos Psicólogos, que acumula a experiência de psicólogo clínico e de psicoterapeuta. “Se Portugal fosse ao psicólogo, seria por uma geral falta de esperança no futuro.”

Telmo Mourinho Baptista resume o Portugal de hoje em duas palavras: deprimido e stressado: “Não se pode pedir a uma pessoa sem trabalho ou então frustrada no trabalho que chegue a casa e tenha uma vida familiar saudável. Isso é impossível.” Apesar de o prognóstico estar longe do ideal, o bastonário acrescenta um traço optimista que é consequência dos novos tempos: a mudança de mentalidades que faz com que a procura de ajuda profissional já não seja um estigma: “As pessoas vão mais ao psicólogo e além disso falam sobre o assunto, já não é algo que tenham de esconder.”

Embora sem dados estatísticos que o sustentem, Telmo Baptista pensa que os psicólogos continuam a ser mais procurados por mulheres, apoiando-se na ideia de que tradicionalmente elas têm mais cuidado com a sua saúde. “São uma espécie de ministério da saúde da família, são as que governam a sua e a de todos”, ironiza.

Se a vergonha de ir ao psicólogo se perdeu pelo caminho, ganharam-se, por outro lado, alguns entraves, “essencialmente económicos”, conta o bastonário. “Para os governos e para as pessoas, a saúde mental sempre foi vista como o parente pobre da medicina”, lamenta, lembrando que muito mais se podia fazer na prevenção para evitar os custos com tratamentos.

Telmo Baptista aproveitou para defender que os problemas de saúde psicológica no trabalho, por exemplo, custam às empresas portuguesas mais de 300 milhões de euros anuais.

A história que nos molda Co-nhecer os problemas é importante, mas voltemos ao essencial. Ao longo das páginas seguintes, deitamos Portugal em vários divãs dos psicólogos. De uma forma esquemática, este é o resultado: o bastonário está convencido de que o país está deprimido; a sexóloga Vânia Beliz defende que os portugueses são pouco exigentes e preconceituosos na cama; a terapeuta familiar Cláudia Morais julga que estamos mais afectuosos e com famílias mais unidas; Tiago Lopes Lino acrescenta que nas relações amorosas damos pouco espaço à individualidade.

Continuando a terapia pelas escolas, o psicólogo clínico conclui que as crianças têm dificuldade em cumprir regras e em lidar com o abstracto, mas no trabalho são adultos responsáveis e competentes. Perante a justiça, o psicólogo forense Rui Abrunhosa Gonçalves vê os portugueses como um povo pacato e lembra que as taxas de criminalidade são mais baixas que a média europeia.

Feito o diagnóstico, pedimos a quem conhece e estuda a história que explique os porquês de sermos como somos. Irene Pimentel acredita existirem factos históricos que moldaram os portugueses, dando-lhes características que sobreviveram até hoje. “Quarenta e um anos de ditadura deixaram-nos apáticos e com medo”, diz a historiadora. O medo, esse, já não da PIDE. É, por exemplo, de perder o emprego. E a apatia vê-se no individualismo que nos impede de agir em grupo.
Mas é um erro continuar a justificar o que somos com uma ditadura, sobretudo quando a democracia já a igualou no tempo: “Saímos à rua em duas grandes manifestações mas depois deixamo-nos ficar por ali”, lembra, lamentando a “atitude crédula e pouco crítica” dos portugueses, que os levaram a acreditar ser possível viver acima das possibilidades. “A propaganda do governo funciona bem connosco”, conclui.

Como nem tudo pode ser negativo, a historiadora prefere pensar que a tendência portuguesa de “usar a emigração como arma”, revela um “espírito aventureiro”, mais do que representar “uma fuga ao problema”.É exactamente à emigração, “que nos está intrinsecamente associada”, que o sociólogo Manuel Villaverde Cabral recorre para contrariar as vozes que associam Portugal ao conservadorismo: “Ninguém é mais aventureiro que o emigrante. Sempre procurámos o desconhecido e soluções para os nossos problemas, mesmo que isso signifique sair do país.”

 

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