4/7/20
 
 
CSIO. O mundo equestre está no centro da cidade
Luís Sabino aposta em Osíris para repetir a vitória de 2014

CSIO. O mundo equestre está no centro da cidade

Jorge Garcia 29/05/2015 12:39

O Hipódromo do Campo Grande está por estes dias a fervilhar. É a 95.ª edição do Concurso de Saltos Internacional.

Longe vão os tempos em que Portugal fazia parte da alta-roda do hipismo. António Borges d’Almeida, Hélder de Souza Martins, Luís Cardoso Meneses e José Mouzinho d’Albuquerque foram os primeiros a trazer uma medalha olímpica para Portugal, e logo na equitação, nos Jogos de 1924, no tradicional Prémio das Nações. Eram todos oficiais de cavalaria e praticavam um desporto muito apoiado pelo Exército, como comprovam as bancadas do hipódromo, com os nomes de alguns grandes precursores da modalidade no país. São 105 anos de história, de uma história muito rica, espalhada por todo o hipódromo, que já viveu dias melhores.

Ainda antes do começo deste 95.o CSIO (Concurso de Saltos Internacional), o hipódromo já estava ao rubro, num evento com uma logística impressionante, em que participam 16 países, 84 cavaleiros e 157 cavalos. As carrinhas de transporte dos cavalos eram muitas, bem como os carros da organização, o que obrigava a uma grande coordenação entre todos os envolvidos, especialmente na gestão do espaço no parque.

A quarta-feira, véspera do início da prova, estava reservada para as inspecções veterinárias. Os Estados Unidos e a sua meticulosa organização foram logo os primeiros. Aqui surge a primeira curiosidade, relativa à edição do ano passado, em que a equipa norte-americana tinha nas suas fileiras a cavaleira Jessica Springsteen, filha do cantor Bruce Springsteen, que esteve presente em todos os dias do evento. E não só. Aproveitou também para dar um salto ao Rock in Rio, tendo actuado ao lado dos Rolling Stones. Jessica acabaria por vencer a prova Vista Alegre, a primeira do CSIO, e a organização foi unânime em relembrar a sua apetência pela modalidade.

Os primeiros problemas podem surgir logo nesta fase da inspecção, com os cavalos a ficarem de fora caso apresentem alguma lesão, estejam dopados, ou até mesmo se houver alguma irregularidade com o passaporte. Aqui até os remoinhos e as marcas interessam. Alguns parecem mais magros depois de tosquiados. “Devemos ver as costelas dos cavalos, mas não conseguir contá-las”, explicou-nos Luís Sabino. Não fizemos as contas, já que não era nossa ideia criar um incidente internacional. Nesta parte é também importante associar os cavalos aos cavaleiros, no caso de acontecer algum problema, para que se possa encontrar o responsável pelo animal. Mas esta parte é tudo trabalho de bastidores, onde o evento terá outra pessoa importante. Guilherme Jorge, chefe de pista brasileiro e responsável pelos percursos de saltos de obstáculos dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, a serem realizados em 2016, tem a mesma função no CSIO português.

Nas boxes, onde Luís Sabino nos mostrou os seus cavalos, falou-se sobre a realidade do hipismo português, onde é muito difícil um cavaleiro viver dos prémios das provas. Miguel Costa Dias, um dos directores da prova, disse só conhecer uma forma de se fazer uma pequena fortuna na modalidade: já tendo uma grande. Por essa razão, cavaleiros como João Sabino apostam noutras áreas, como a compra e venda de cavalos, os estágios, ou mesmo a comercialização de material desportivo, como as selas. Aqui a ideia não passa pelo comércio tradicional de cavalos, como se observa na Golegã. “Nos nossos cavalos as pessoas procuram as mais-valias incorporada pelos cavaleiros.”

Segundo o livro de recordes do Guinness, em 2006 um cavalo foi comprado por quase 15 milhões de euros. No final de 2013, um comprador do Qatar ofereceu perto de 8 milhões por um cavalo com menos de dois anos de idade. Em Portugal não se fazem negócios destes, até porque, como alerta Miguel Costa Dias, “95% dos cavalos que vão aos Jogos Olímpicos são da Alemanha, da Holanda, da Bélgica e de França”. Mesmo comprando um cavalo maduro, não é certo que este se adapte ao novo cavaleiro. “Há cavalos que gostam de andar mais soltos e reagem mal a uma montada mais firme, por exemplo”, explicou Luís Sabino.

Ainda assim, é possível rentabilizar muito o investimento inicial, comprando um cavalo por 20 ou 30 mil euros, a partir dos sete anos, e vendendo-o depois, já maduro, com 13 ou 14, por mais de 100 mil. Mas nem tudo é lucro. Para que isto aconteça é preciso, antes de mais, que o cavalo vença provas, para as quais precisa de estar bem tratado com, em média, cinco quilos de comida por dia. E também os tradicionais cubos de açúcar, com que Osíris foi presenteado por Luís Sabino enquanto visitámos as boxes. E não basta um grande cavalo – são precisos três bons, como alerta Luís Sabino.
Existem também muitos parceiros com participações nos negócios dos cavaleiros, apoiando-os em troca. É o caso do Haras Império Egípcio, uma coudelaria brasileira que apoia Luís Sabino. Por essa razão, o seu cavalo que venceu o Grande Prémio Audi do CSIO de 2014, tinha o nome de Império Egípcio Milton. Acabou por ser vendido para o Qatar, com 14 anos, depois de ter vencido muitas provas com Luís Sabino, naquilo que foi descrito pelo próprio como um bom negócio. O mesmo já aconteceu no passado, com cavalos em topo de forma, que acabaram por ser campeões nas mãos de outros cavaleiros. Foi o caso de Espoir de la Haye, um cavalo que Luís Sabino comprou com nove anos e vendeu mais tarde para Espanha, onde acabou por ser campeão nas mãos de outro cavaleiro. Uns anos depois, com o cavalo já com 16 anos, voltou a adquiri-lo, ainda a tempo de se tornar bicampeão nacional com ele.

Em plena época de mais um CSIO português, talvez seja a altura ideal para vencer umas provas e, quem sabe, fazer bons negócios.

Ler Mais

Iniciar Sessão
Esqueceu-se da sua password?

×
×

Subscreva a Newsletter do i

×

Pesquise no i

×