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Antraz. O “acidente” que o Pentágono não evitou mas que garante não representar riscos
Departamento de Defesa transporta bactéria inactiva para testes e análises

Antraz. O “acidente” que o Pentágono não evitou mas que garante não representar riscos

Departamento de Defesa transporta bactéria inactiva para testes e análises Tami Chappell/Reuters Joana Azevedo Viana (Texto) Carlos Monteiro (Infografia) 29/05/2015 12:07

Centro de Controlo de Doenças norte-americano está a investigar como o exército permitiu que isto acontecesse.

São quatro os funcionários de um laboratório químico militar do estado de Maryland e até 22 trabalhadores de um laboratório na Coreia do Sul que estão a receber tratamento médico por exposição a antraz activo, um “acidente” que o Pentágono assumiu ontem, ao anunciar aos jornalistas que foram enviadas por engano amostras do agente da bactéria “por inactivar” para uma base americana em Seul.

Ao longo do dia de ontem, a história oficial foi variando à medida que a imprensa e as televisões tentavam perceber o que aconteceu e que riscos correm os possíveis contagiados, com a CNN a avançar inclusivamente que os funcionários em questão dentro dos EUA não trabalham apenas no laboratório de Maryland, já que pelo menos nove laboratórios de diferentes estados terão recebido contentores do exército que continham a bactéria activa.

Ao início da manhã, o coronel Steve Warren, porta-voz do Pentágono, falou sobre o “acidente”, dizendo que as amostras de antraz foram enviadas de um laboratório do Utah para um de Maryland e outro nos arredores da capital sul-coreana. Nenhum dos funcionários da base militar americana em território aliado que entraram em contacto com a bactéria activa durante um “treino” mostraram, até agora, sinais de contágio, garantiu; mesmo assim, todos estão a “receber tratamentos médicos de precaução apropriados, incluindo exames, antibióticos e, em alguns casos, vacinas”.

Ao Departamento de Defesa houve cientistas a garantir que o erro não representa riscos para o público em geral pelo facto de as amostras, apesar de a bactéria estar activa, estarem dentro de contentores apropriados, outra informação que Warren avançou, garantindo ainda que as amostras que foram parar à base aérea de Osan, na Coreia do Sul, “foram destruídas de acordo com os protocolos apropriados”. Essa base enviou um comunicado aos media norte-americanos dizendo que “até 22 pessoas” que estiveram em contacto com o antraz estão a ser tratadas – cinco membros da Força Aérea no activo, dez soldados do Exército também no activo, três funcionários civis da base e quatro civis subcontratados.

Apesar de todas as garantias, os receios de que este acidente possa vir a ter repercussões mais graves paira sobre todos, dos jornalistas aos especialistas. Contactados pela CNN, membros da base de Maryland que recebeu a encomenda disseram que, apesar de os contentores serem apropriados, o antraz foi enviado em condições menos rigorosas porque se julgava que não estava activo – razão pela qual o Centro de Controlo de Doenças (CDC) já lançou uma investigação e todas as chefias das bases envolvidas estão a rever procedimentos.

“Por uma abundância de cautela, [o Departamento de Defesa] suspendeu o envio deste material a partir dos seus laboratórios enquanto a investigação não estiver concluída”, disse o coronel Warren após o CDC anunciar a abertura do inquérito, sob duras críticas de especialistas em biossegurança que estão chocados com o caso.

“As amostras serão transferidas com segurança para o CDC e laboratórios afiliados para mais testes”, disse a porta-voz do organismo federal, Kathy Harden, e funcionários do centro estão já a caminho das bases para “conduzir investigações nos locais”. Todos os laboratórios militares, governamentais e comerciais que possam ter recebido amostras vão ser escrutinados.

A Associated Press lembrava ontem que esta é a segunda vez no espaço de dois anos que algo desta natureza acontece nos EUA – um país para quem o antraz não é desconhecido. Depois do caso de Bruce Edwards Ivins – microbiólogo do Exército que se suicidou em 2008 e que foi um dos principais suspeitos de enviar cartas com o “pó branco” para vários departamentos oficiais do país após o 11 de Setembro de 2001 –, no ano passado foi o próprio CDC que errou nos procedimentos de envio de antraz de uns laboratórios para outros, sem ter inactivado a bactéria por radiação.

Oantraz é uma bactéria que, quando em contacto com seres vivos, provoca lesões escuras na pele e uma doença chamada carbúnculo que, na sua forma mais virulenta, é altamente letal. Quase 95%dos casos de infecção registados até hoje, desde que a Bacillus anthracis foi identificada pelo bacteriologista Robert Koch em 1877, dão-se por contacto epidérmico. Os restantes casos de contágio dão-se por consumo de carne ou leite contaminados e por inalação de esporos.

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