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Kalaf. “Tenho saudade do que não está feito ainda, como o jazz angolano”
Na banda que acompanha Kalaf vão estar o músico de Luanda Toty Sa’Med e o contrabaixista argentino “da escola do jazz” Demian Cabaud. A formação fica completa com Ndu na bateria

Kalaf. “Tenho saudade do que não está feito ainda, como o jazz angolano”

Na banda que acompanha Kalaf vão estar o músico de Luanda Toty Sa’Med e o contrabaixista argentino “da escola do jazz” Demian Cabaud. A formação fica completa com Ndu na bateria José Fernandes Ana Tomás 29/05/2015 08:00

O artista apresenta-se esta sexta-feira no Grande Auditório do CCB. 

Respondeu ao chamamento para criar um espectáculo para a Carta-Branca lançada pelo CCB. Desenhou-o sob o mote “Os Sembas, Kizombas e Estórias de hoje do Angolano que comprou Lisboa (por metade do preço)”, a partir do seu segundo livro de crónicas, e olha para o passado, lançando um olhar para o futuro e o que poderia ser o jazz angolano. Homem entre cidades, Kalaf fala-nos do seu lugar.

“Os Sembas, Kizombas e Estórias de hoje do Angolano que comprou Lisboa (por metade do preço)” são o mote deste espectáculo. Pode explicar em que é que ele vai consistir?
Em 2003, 2004, eu tinha uma carreira sólida no mundo da spoken word, dois discos editados, várias colaborações – o título de poeta-cantor surgiu nessa fase –, projectos com o Spill (André Fernandes), o Bullet (Armando Teixeira), os Spaceboys, projecto alternativo dos Cool Hipnoise. Depois de editar os discos e de mais ou menos me resolver enquanto poeta, decidi dar um espaço a esse registo e começar a explorar outras coisas, entre elas Buraka Som Sistema. Quando surgiu este convite do CCB, pensei que a ideia não devia ser visitar aquelas canções nem aquele tempo. Ia tentar apanhar o que estivesse a fazer na altura – o convite surgiu mais ou menos no ano passado – e na época estava prestes a editar o livro “O Angolano que comprou Lisboa”. E então decidi sacar alguns poemas ou pegar naquelas histórias e transformá-las em poemas, e chamar a minha banda. 

Segundo um artigo que o citava, vai trazer uma espécie de jazz angolano para esta Carta-Branca. 
Sim, sim. Acho que esse é o registo. São canções que nos dizem muito a nós, angolanos. São os nossos clássicos reinterpretados ou rearranjados de forma a acolherem as histórias que eu conto do angolano que comprou Lisboa.

Portanto, a letra que agora estará nos clássicos é diferente.
Exacto. É a mesma coisa que ter um “Summertime”, um standard do jazz, e tocá-lo de maneira diferente, de forma a acolher outra ideia. Mas o standard está lá, as melodias são identificáveis. É o que estou a fazer, estou a visitar os clássicos, porque acho que não é muito comum a minha geração abraçar o semba, porque o semba é tido como música de cota. E num lugar como o CCB, que é um lugar que impõe respeito, imponente. Pelo seu palco passaram tantos artistas e meus heróis, alguns deles. Decidi também fazer um espectáculo que, embora seja para a minha geração, não deixa de dialogar com os músicos do passado e, claro, tentando olhar para o futuro, lançando a pergunta: se existisse jazz angolano, como é que ele soaria?

Com os textos que foi buscar ao livro constrói aqui também uma narrativa?
Fazem parte de um todo. Aliás, o livro todo aborda muito essa questão da identidade, um angolano em Lisboa, um bengalense em Lisboa. Fala de cidades, sem dúvida. Eu gosto muito da forma como cada um de nós encontra a sua cidade. Às vezes, nem todas as cidades são para toda a gente. Há pessoas que se sentem completamente deslocadas em Nova Iorque ou em Los Angeles, mas há pessoas que se sentem como peixes dentro de água, totalmente à vontade, que lhes conhecem os cantos. Eu gosto dessa possibilidade que as cidades me oferecem de lhes conhecer as ruas, os cantos, saber segredos que até os locais desconhecem, e Lisboa é uma dessas cidades. Ela é a cidade onde passei mais tempo na minha curta vida [risos] e então ela está muito presente no meu trabalho, tanto musicalmente como também, agora, com a minha aventura literária. 

“Nenhum artista se dá por completo, há sempre algumas coisas que protegemos, que são nossas” 

De que forma é que essas duas dimensões, Lisboa e Angola, se conjugam neste espectáculo?
Eu sou um só, não é? As cidades e os lugares ajudam-me a conhecer-me a mim mesmo. O facto de estar em Lisboa é porque tenho essa proximidade com essa cultura. Eu passo também muito tempo em Berlim e é engraçado que lá aprendi a perceber um pouquinho melhor o que é a vida em Lisboa e porque é que eu gosto de viver em Lisboa.

Em que sentido?
Acho que para a percepção é necessário um certo distanciamento e foi em Berlim que comecei a identificar isso. Para já, o facto de não existir o mesmo número de africanos que aqui. Segundo, africanos que falem a minha língua. Terceiro, essa melancolia que Lisboa tem, essa tristeza… são muito próximas daquela que eu identifico ouvindo os sembas, ouvindo músicas daquela época. Observamos o espaço que a kizomba tem aqui em Lisboa mas, na minha lógica, a kizomba tem uma alegria triste. Aquilo é para celebrar, exterioriza emoções, mas ao mesmo tempo serve-nos como bálsamo, mas bálsamo para acalmar uma certa tristeza. E eu identifico isso também no fado. Só que o fado chora, mas naquele chorar elevado até um segundo plano para tentar compreender melhor a própria dor. Eu gosto de observar, não tenho facilmente respostas. Tenho mais perguntas que respostas. 

Dizia antes que há pessoas que sentem como peixe na água em determinadas cidades. Qual foi o momento em que se sentiu como peixe na água em Lisboa?
Quase desde o primeiro minuto. A coisa maravilhosa que uma cidade nos pode dar é aguçar o nosso sentido de curiosidade. Acho que se uma cidade nos desperta curiosidade, mais rapidamente conseguimos entrar na sua própria engrenagem. Vamos escavar, vamos atrás, vamos procurar. Lisboa despertou-me curiosidade logo desde o primeiro minuto. 

Voltando ao texto e ao espectáculo, disse numa entrevista que nunca se tinha exposto tanto como neste livro, porquê?
É o meu segundo [risos], mas somando esse livro ao trabalho que tenho feito com música: os dois discos anteriores, o trabalho com os Buraka, as minhas crónicas nos jornais e agora essa colecção de crónicas publicadas nesses dois volumes. Aqui é uma conversa com os espaços que eu vou visitando e, como qualquer conversa, é uma troca. Dou para receber e estou ali exposto. Visito e vou a lugares a que nunca tinha ido; a minha primeira visita ao Huambo, que é a terra do meu avô e onde tenho muitos familiares, mas nunca tinha visitado. E quando cheguei lá, a primeira coisa que fiz foi começar a assumir o meu segundo nome como nome composto, ou seja, o Epalanga ganhou mais sentido assim que pisei o Huambo. E exponho isso, falo sobre coisas que me são muito íntimas, a relação com alguns membros da minha família, etc.

Essa intimidade fica mais resguardada quando os textos são transpostos para o palco e, de certa forma, dramatizados?
Eu sou performer. O meu intuito é entreter as pessoas. Vou sempre encontrar o meu termo. Acho que nenhum artista se dá por completo, há sempre algumas coisas que protegemos, que são nossas. Mas escolhi esses temas específicos porque sinto que eles tocam as pessoas e algumas delas se irão rever neles. Todo o espectáculo tem de conciliar isso, não estou ali só a espalhar o meu ego. 

Mas no momento em que escreve também já imagina esse diálogo?
Escrevo com o intuito de que o livro seja lido por alguém. Senão, não escrevo a história. Se ponho no papel é porque alguém um dia irá ler. Nem que sejam os meus pais ou os meus irmãos. Alguém vai ler. Ou seja, o artista é egoísta no sentido em que irá dizer o que pensa, mas esse dizer o que pensa só faz sentido se for partilhado. É engraçado esse lugar onde se parte do “eu” mas esse “eu” só se completa quando agrega o “nós”. 

Como é “estar” entre Angola e Lisboa?O que é que ainda causa saudade e o que é que continua a causar estranheza, num lado e no outro?
Não tenho muita saudade, pelo menos do passado. Tenho saudade do que não está feito ainda, como agora, por exemplo, o jazz angolano. Tenho saudades disso. É a história da minha vida, estou sempre à procura do que está a seguir. E acho que ainda há muito por revelar, tanto em Lisboa como em Luanda ou Benguela. É disso que tenho saudades, do que está ainda por explorar. 

E o que é que a estas duas capitais lhes falta explorar?
Sou estrangeiro nas duas cidades, não sou nem de Luanda nem de Lisboa. No entanto, a Lisboa falta pessoas, falta massa crítica, pessoas a usarem a cidade, os espaços que ela proporciona. Acho chocante o facto de um jovem da Linha de Sintra contar pelos dedos de uma mão as vezes que visitou a Baixa lisboeta. E quando visita não conhece, passa ali como um turista, sabe mal o nome das ruas. Até porque a cidade é tão pequena, tão fácil de se explorar. Em relação a Luanda, é uma cidade dura. Tem pessoas, mas é dura, não é uma cidade que acolhe os seus habitantes de uma forma generosa. Precisas de lutar para teres o teu espaço. Nessas duas formas de estar, há pessoas, há histórias a circular, e o meu trabalho é identificar essas histórias e pô-las cá para fora.

Que momentos estão previstos além das canções?
Vamos cantar, vamos assobiar. Vamos fazer tudo, tudo aquilo de que um espectáculo precisa, toda essa entrega que esperamos dos músicos que estão em palco. Tudo isso irá acontecer. Consegui realmente reunir um grupo de músicos muito dotados. Onde eu não conseguir ir, sei que tenho ao meu lado quem consiga.

Li que não sabia dançar. Vai dançar aqui?
Eu danço muito mal, danço de forma espontânea e sem regra. Se apetecer, se o músico puxar para aí, eu danço, mas não sou um dançarino.

A acontecer será espontaneamente, portanto.
Tudo será espontâneo. Absolutamente.

 

Concerto

Centro Cultural de Belém, Lisboa

Preço 5€ a 20€ 
Quando Hoje, 21h00 
Convidadas Ana Moura e Sara Tavares

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