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A insatisfação com o Serviço Nacional de Saúde levou à emigração
Houve cinco vezes mais pedidos de certificados que em 2010

A insatisfação com o Serviço Nacional de Saúde levou à emigração

Houve cinco vezes mais pedidos de certificados que em 2010 Marta F. Reis 27/05/2015 12:00

Esta semana uma sessão juntou em Lisboa 100 interessados em rumar ao Reino Unido. 

Os médicos mais velhos na sala preferem não se identificar. “Só vai conseguir que os mais novos dêem a cara, o resto teria problemas nos serviços”, justificam. Maria é um desses casos e está decidida a emigrar, daí ter marcado lugar nas sessões de esclarecimento sobre oportunidades no Reino Unido promovidas na segunda-feira em Lisboa por uma consultora britânica. Está farta de se sentir sobrecarregada e do salário: 1300 euros limpos. Ao lado, Margarida ouve o desabafo e entra na conversa: “Está em que ano do internato?”, pergunta. A resposta surpreende mesmo pessoas como a jovem de 27 anos, no “ano comum” da formação médica. Maria é médica de família há 17 anos e ganha tanto como um interno.

É o final da tarde de esclarecimentos e os participantes trocam impressões. Maria explica: trabalha numa USF do tipo A, que há anos tenta passar ao modelo B. Estas unidades – no fundo formas diferentes de organizar o trabalho nos cuidados primários de saúde – começaram a substituir os centros de saúde tradicionais em 2006. O objectivo é que a certa altura médicos e enfermeiros apresentem projectos para melhorar a saúde da população local. Passam então ao modelo B, em que, cumprindo objectivos, recebem incentivos financeiros para complementar o salário mais baixo que antigamente.

Margarida estranha o vencimento da colega mais velha porque já passou por uma dessas unidades de saúde familiar do tipo B e conhece casos de médicos de família que ganham mais de 3 mil euros, mais do dobro de Maria.

Maria também os conhece e essa disparidade é outro dos motivos que a fazem querer sair do país. “Passar a modelo B hoje em dia só por cunha”, ironiza. Mas nem é preciso tanto para se sentir desmotivada: “Tenho um horário de 35 horas mas faço sempre mais horas, como quem está em exclusividade no SNS, contratos que hoje já não são possíveis mas fazem com que haja pessoas no mesmo sítio a ganhar o dobro.”

O slide com os valores pagos no serviço de saúde do Reino Unido (NHS) é dos mais chamativos na apresentação da consultora Verumed: um interno de especialidade recebe brutos por ano em Portugal no mínimo25 695  euros. No Reino Unido é o dobro:52 604 euros. Mas o salário está longe de ser o único motivo por detrás da emigração, que a Ordem dos Médicos acredita ter atingido o máximo histórico em 2014: houve cinco vezes mais pedidos de certificados que em 2010 e 387 médicos deixaram o país.

Pelo que foi possível perceber entre alguns dos mais de cem participantes nas sessões de esclarecimento sobre o Reino Unido, conseguir melhor formação, vidas pessoais mais equilibradas ou simplesmente ir atrás do amor são alguns dos motivos para equacionar a saída do país. E mesmo os jovens médicos que estão na especialidade de medicina geral e familiar, das áreas com mais lacunas no SNS, não acusam sentimentos de culpa.“Se o país tem falta, deve convencer-nos a ficar”, diz Márcia.

As muitas oportunidades para médicos de família no Reino Unido foram aliás o que levou a empresa, recém-formada, a fazer a apresentação em Lisboa: até 2020, com a reforma de 10 mil médicos de família, estimam-se 8 mil vagas. “Não queremos provocar um êxodo em massa, estamos a falar de oportunidades que podem ser de dois ou três anos ou para a vida inteira. Mas a maior parte das pessoas regressa”, disse na apresentação um dos médicos responsáveis pela Verumed, Graham Johnson. A filosofia da consultora é ajudar estudantes e médicos que tencionem emigrar a encontrar a melhor oportunidade sem cair em enganos, como aceitar ofertas de trabalho temporário em que as culpas por algum erro vão para o jovem estrangeiro, explica outra dinamizadora das sessões, Emilia Mituziene.

São muitas as dicas, como não enviar currículos genéricos e prepararem-se para os exames tendo em conta a organização britânica, em que ter o cuidado de ligar para a namorada porque vai chegar atrasado em vez de ficar para mais um turno sem avisar pode ser valorizado. Pelo aconselhamento, a consultora não cobra nada. Recebe como as agências de recrutamento: dos empregadores sempre que colocam alguém. Mal ouvem Francisco dizer que está no quarto e último ano do internato de medicina geral e familiar, o apelo é imediato: envie o CV que terá trabalho. O mais certo, avisam logo, é que não seja em Londres, onde a concorrência é muita. Se estiver disposto a ficar a uma ou mais horas de distância, a colocação é mais fácil mas os ingleses também ficam mais simpáticos, diz Mituziene. “Queremos que haja confiança nos médicos europeus e que quem quer sair não fique refém de más escolhas por falta de informação”, conclui.

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