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Apupos em Cannes? Já vimos este filme
"Are you talking to me?"

Apupos em Cannes? Já vimos este filme

"Are you talking to me?" Maria Ramos Silva 23/05/2015 12:12

As vaias do público estão para o festival francês como o topless está para as praias da Riviera.

“The Sea of Trees”, com Matthew McConaughey e Naomi Watts, foi só mais um caso recente de uma longa tradição. Mas feitas as contas, os assobios podem ser mais produtivos do que uma salva de palmas. Na véspera do fim de mais uma edição, recordamos oito títulos que tropeçaram na crítica, levantaram-se e seguiram o caminho do culto.

L’Avventura (1960) de Michelangelo Antonioni

É mais ou menos indiscutível que falamos de uma das obras-primas de Michelangelo Antonioni, mas na 13.a edição do festival, em 1960, o realizador e a protagonista, Monica Vitti, tiveram mesmo de se raspar da sala onde o filme foi exibido, receosos de reacções mais inflamadas por parte do público, que desdenhou por completo da história: o desaparecimento de uma mulher durante um cruzeiro na Sicília e a relação entre o seu amante e a sua melhor amiga enquanto seguem as buscas.

Taxi Driver (1976) de Martin Scorcese

Foi uma sorte para Martin Scorcese e Robert De Niro. Quando o júri consagrou “Taxi Driver” com o troféu máximo do certame, a dupla encontrava-se em Nova Iorque a trabalhar no musical “New York, New York”. Do sul de França chegavam reacções nada entusiasmadas a este enredo, centrado, segundo os mais críticos, no excesso de violência, numa perspectiva niilista e ainda na figura de um herói pouco consensual. A América respondeu: quatro nomeações para os Óscares.

Wild at Heart (1990) de David Lynch

O grande busílis era a violência e as cenas de tortura do road movie. Nada que impedisse David Lynch de arrebatar a Palma d’Ouro no ano de 1990, não se livrando, no entanto, de uns quantos olhares de lado por “Wild at Heart”, ou “Um Coração Selvagem”, com Laura Dern e Nicolas Cage. Dois anos mais tarde apresentava no mesmo festival “Twin Peaks: Fire Walk With Me (1992)”, uma prequela da série de culto. O público torceu o nariz e os críticos em Cannes puseram os polegares para baixo.

Pulp Fiction (1994) de Quentin Tarantino

Conhecemos as músicas, decorámos a coreografia, celebramos as efemérides. Mas os anos 90 não estavam preparados para nada disto. Muito antes do culto, mais concretamente durante a entrega da Palma d’Ouro, Quentin Tarantino foi assobiado – neste caso, não tanto pela falta de qualidade do filme, mas porque muitos preferiam que o vencedor fosse “Vermelho”, de Krzysztof Kieslowski. Mais tarde, com “Sacanas sem Lei”, voltaria a assistir a um misto de sentimentos contraditórios entre a assistência. 

The Brown Bunny (2003) de Vincent Gallo

O realizador Vincent Gallo ficou tão deprimido com a reacção de Cannes que prometeu nunca mais rodar um filme. Não era para menos. O veterano crítico Roger Ebert disse que se aborreceu tanto durante o visionamento “do pior filme de sempre de Cannes” que chegou a trautear “Raindrops Keep Falling On My Head”. A verdade é que ninguém esquece a história do motoqueiro solitário, e muito menos a cena do felácio explícito protagonizada por
Chloë Sevigny.

Maria Antonieta (2006) de Sofia Coppola 

Sofia Coppola sabia que era difícil arrancar o mesmo nível de excitação proporcionado por “Lost in Translation”. E assim se confirmou com “Maria Antonieta”, uma revisão pop de um momento na história francesa que não terá caído no goto dos locais.  “Não sabia que se apupava no cinema em França”, comentou a realizadora em 2006, o mesmo ano de “O Código Da Vinci”, de Ron Howard. Arrasado no festival, foi um sucesso no circuito comercial (de tal forma que se apostou em sequela, “Anjos e Demónios”).

Anticristo (2009) de Lars Von Trier 

As vaias foram mais audíveis que os aplausos quando os 108 minutos de “Anticristo”, ou a brutal relação de um casal no rescaldo da morte de um filho, chegaram ao fim. Houve até direito a risos e a uma espécie de “Anti-Award” pelo conteúdo misógino. A verdade é que cada filme do agitador Lars Von Trier, ame-se ou odeie-se, é um acontecimento, mais que não seja pelas habituais declarações polémicas do dinamarquês - a última foi admitir que voltou a beber para conseguir trabalhar. 

A Árvore da Vida (2011) de Terrence Malick

Pode ter sido uma minoria na sala, mas foi uma minoria ruidosa q. b. O outro lado da barricada, o que se desfez em elogios, ouviu tudo, registou o desagrado e acreditou que os apupos não passaram de “contrapalmas”. O mesmo terá pensado o júri do festival nesse ano, que lhe concedeu o prémio máximo, inaugurando uma caminhada que chegaria até à cerimónia dos Óscares, quando a fita de Malick garantiu a estatueta dourada na categoria de Melhor Filme. 

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