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Salvaterra de Magos. Uma mancha de sangue por limpar

Salvaterra de Magos. Uma mancha de sangue por limpar

Artur Borges Augusto Freitas de Sousa 21/05/2015 11:45

O sótão continua por limpar. A mancha de sangue marca um dia que os habitantes de Salvaterra não esperavam.

No sótão do último andar do lote 1 da Rua António Paulo Cordeiro, em Salvaterra de Magos, não se consegue andar erguido. As telhas em fibrocimento fazem o formato do telhado tradicional. Os quatro pequenos compartimentos já viram melhores dias. Bicicletas enferrujadas, cadeiras partidas, caixotes de madeira que mal se seguravam em pé, ferro velho e, à entrada, uma farta poça de sangue. Já seco.

Ninguém na vila quer pensar que Filipe Costa, de 14 anos, foi encontrado morto naquele sótão, bem perto do centro, a metros da avenida que ainda mantém as tronqueiras da Feira de Magos. Na segunda-feira, dia do funeral, a vila estava na rua. Da igreja ao cemitério. Os pais de Filipe Alexandre da Costa Diogo, amparados por bombeiros, um de cada lado, eram a imagem da desolação. A família, os muitos colegas da escola secundária, os habitantes solidários e os curiosos, quase pararam a vila. A mãe, Rita Costa, desmaiou. O pai, emigrante nas plataformas de petróleo na Nigéria, foi encaminhado para uma ambulância dos bombeiros. O povo, ainda incrédulo, comentava o caso e avançava algumas teorias conspirativas.

A mais forte das explicações foi avançada por uma prima de Filipe. Referia que o suposto assassino, Daniel Neves, de 17 anos, se relacionava com vários miúdos que estariam de alguma forma ligados ao pequeno tráfico de droga. A familiar garante que viu Daniel no dia em que o seu primo desapareceu a usar as roupas de Filipe. Perguntou-lhe pelo paradeiro do primo, mas a resposta foi negativa.

Daniel José Pereira Neves, o seu irmão e uma meia-irmã chegaram a morar no prédio onde Filipe foi encontrado sem vida. Há cerca de três anos, a mãe, viúva, alugou o 4.o direito, mas acabaria por se mudar para junto do terminal rodoviário na mesma vila. Maria José, vizinha do 1.o andar lembra-se do Daniel, mas o que mais lhe vem à memória “é o olhar triste de quem pede colinho”. Não ouviu nada que pudesse contar, nem lhe passou pela cabeça que Daniel, há mais de dois anos fora daquele prédio, mantivesse a chave do apartamento. Mesmo ao lado, Salomé, dona de um cabeleireiro, recorda que a família era discreta, e a mãe “seca, distante, como se estivesse noutro lugar”. Ana Margarida, conhecida por Tatá, acena com a cabeça a concordar. A dona do estabelecimento de costura vai mais longe e sinaliza o largo, com ar de abandono, mesmo atrás do prédio. Todos os moradores percebem que um grupo de jovens se encontra regularmente naquele largo para fumar drogas leves: “De longe a longe vem a GNR e os miúdos desaparecem por uns dias.”

Na vila não se adiantam muitas explicações, mas uma dúvida paira nos cafés onde o assunto se discute entre os jornais do dia e a televisão: como podia um rapaz de 17 anos, franzino, arrastar um peso morto do 4.o andar para o sótão? Fonte judicial referiu que o assunto já foi abordado na investigação, mas ainda não haverá conclusões. A Unidade Nacional Contra-Terrorismo (UNCT) da Polícia Judiciária tomou conta do caso porque as primeiras suspeitas eram de rapto. Depois acabou por continuar com o processo.

 

Café comum Junto à casa onde Filipe morava com a avó – a mãe mora perto de Salvaterra –, João_Cigano, o dono do café do rés-do-chão, West Side, aponta para um terreno em frente e pergunta se “há algum menino a jogar futebol”. Não havia. João referia-se a Filipe, que todos os dias ali brincava com mais amigos.

Mais à frente, o Café Jardim é um local onde as duas famílias se cruzaram. A mãe de Filipe chegou a tomar conta do estabelecimento, que agora pertence à mãe de Daniel. Os vizinhos garantem que é coincidência. Três amigas, ainda muito jovens, garantem que Filipe “se dava bem com toda a gente”. As meninas lembram-se das tardes de karaoke passadas no Café Jardim em que Filipe também esteve. “Era giro, fashion e simpático”, repetiram quase em coro a Ana, a Juliana e a Catarina.

Na vila a conversa não tem sido outra. Ali não há memória de assassínios. Distraidamente, à porta de uma sapataria nas imediações do local do crime, os comerciantes discutem o caso. Para os dois, o crime está fora da normalidade da vila e das localidades vizinhas, embora garantam que fora de Salvaterra há rixas frequentes entre pessoas que se dedicam ao tráfico de droga.

Em Salvaterra ainda não há normalidade. Nos cafés, apesar de os locais se continuarem a encontrar-se à volta do canal Toros, os semblantes carregam-se quando entra um estranho. A ideia que fica é o desejo do regresso aos dias mais tranquilos. Sem sobressaltos.

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