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Exorcismos. Casos de possesão demoníaca estão a aumentar
O Juízo Final, tríptico de Hans Memling (1467-1471)

Exorcismos. Casos de possesão demoníaca estão a aumentar

O Juízo Final, tríptico de Hans Memling (1467-1471) Rosa Ramos 16/05/2015 19:00

O diabo foi banido da pregação da Igreja nas últimas décadas, mas o assunto voltou em força.

A culpa é do crescente paganismo e do aumento das práticas ligadas à magia e ao esoterismo. “Há cada vez mais casos de possessão demoníaca”, avisa o padre Duarte Sousa Lara, exorcista da diocese de Lamego. O alerta não é novo. Se, nas últimas décadas, o diabo foi banido das pregações da Igreja, o assunto volta, agora, em força. 

Há menos de um ano, o cardeal Rouco Varela, arcebispo de Madrid e presidente da Conferência Episcopal Espanhola, nomeou, de uma assentada só, oito exorcistas para a diocese de Madrid – numa decisão sem precedentes na história da Igreja em Espanha. As nomeações, explicou, foram motivadas pela “enorme avalancha de pedidos de ajuda relacionados com influências malignas”. Por cá, existem apenas três exorcistas, nas dioceses de Santarém, Lamego e Viseu.

O Papa Francisco também ajudou a recuperar o tema. Só nas primeiras 48h de pontificado, desafiou o inimigo número um da Igreja Católica por duas vezes.  A 14 de Março de 2013, na Capela Sistina, citou o escritor francês Léon Bloy: “Quem não reza ao senhor, reza ao Diabo.” E acrescentou: “Quando não se confessa Jesus, confessa-se o mundanismo do Diabo.” No dia seguinte, voltou à carga e deixou um aviso aos cardeais: “Não cedamos ao pessimismo e à amargura que o Diabo oferece.”A batalha não ficou por aí. Poucos dias depois, Francisco voltou a lembrar o Demónio, num discurso aos jovens. “E nestes momentos vem o inimigo, vem o Diabo, muitas vezes disfarçado de anjo e insidiosamente nos diz a sua palavra. Não o escuteis”.  

Mesmo assim, o Papa que mais vezes falou do demónio foi João Paulo II, embora a expressão mais célebre na história da relação entre o Vaticano e o Diabo pertença a Paulo VI que, em Junho 1972, chocou a imprensa internacional. “Tenho a sensação de que o fumo de Satanás entrou no templo de Deus através de alguma fenda”, disse, referindo-se à crise da Igreja, saída do Concílio Vaticano II, e à perda de influência no mundo moderno. A tirada irritou a ala progressista da Igreja, que o acusou de voltar à Idade Média.

A verdade é que, apesar de o catecismo da Igreja Católica continuar a defender que o inferno e o demónio existem e que o rito do exorcismo é eficaz, muitos padres, especialmente os mais jovens, não acreditam. A partir da década de 1960, os seminários do mundo inteiro foram banindo as cadeiras de Demonologia. O fenómeno é explicado pela força que as correntes de Teologia mais racionalistas foram ganhando a partir da primeira metade do século XX. 

E se, até essa altura, a Igreja exorcizava demais – até porque a Medicina não estava tão avançada no campo da Neurologia e da Psiquiatria –, agora exorciza de menos. “Passou-se do oito ao 80”, critica Sousa Lara. A braços com a falta de exorcistas e com a falta de fé dos próprios padres, a Igreja tem agora de enfrentar uma sociedade pagã e de resgatar cada vez mais católicos não praticantes com sinais de influência diabólica. “As pessoas recorrem em massa a videntes, bruxos, tarô, terreiros, astrologia, reiki e ioga e, sem o saberem, estão a abrir portas do mundo espiritual para a entrada do demónio”, avisa o exorcista de Lamego. Sousa Lara garante que a prova de que para o demónio se afastar basta viver “na graça de Deus” é o facto de, entre os mais de 200 casos graves que atendeu nos últimos anos, nenhum envolver católicos praticantes. “São pessoas que deixaram de praticar e de viver de acordo com o que Deus quer”.

Neste especial, o i explica o essencial sobre o rito mais controverso da Igreja Católica e conta a história de Aldina, uma mulher de sucesso que precisou de seis exorcismos. Falamos também do padre Sousa Lara, o maior exorcista português, que acompanhou Gabriele Amorth, o exorcista do Vaticano, durante 10 anos.  

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