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Lauren Beukes. “Na cultura pop glorificam-se os serial killers”

Lauren Beukes. “Na cultura pop glorificam-se os serial killers”

José Fernandes Ana Tomás 15/05/2015 08:00

A escritora sul-africana participa no ciclo de conferências “Próximo Futuro”, na Gulbenkian. Pretexto para saber para onde caminha a sua escrita.

Amanhã, Lauren Beukes debate com outros escritores, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, o tema “Outras Literaturas”, onde se encaixam os seus livros, thrillers noir que misturam ficção e alguma fantasia. “As Raparigas Cintilantes” são o ponto de partida da sua intervenção e também de uma conversa onde se desmistificam os serial killers e se valorizam as vítimas, onde a ficção surge como o território perfeito para criar a empatia que a realidade, muitas vezes, quebra, ainda que sobre o instinto jornalístico para procurar a melhor história para se contar.

Este livro centra-se na história de um serial killer que viaja no tempo e na das suas vítimas, em particular naquela que lhe sobrevive. Como surgiu a ideia de juntar crimes e viagens no tempo?
Achei que era uma boa ideia e uma boa forma de jogar com as convenções deste género literário, porque, genericamente, não gosto da narrativa dos homicídios em série. Na cultura pop glorificam-se os serial killers. Se olharmos para séries de televisão como o “Hannibal”, eles são génios intrigantes e diabólicos, como se fossem supra-humanos, monstros. E não são. É interessante que está a decorrer aqui [na Gulbenkian], a conferência “Vítimas de Crime na Europa”. E o que é a violência na Europa? Acabamos por chegar à violência doméstica. E esse é o real perigo que existe no mundo, a violência doméstica, não são os serial killers. Estes são apenas um aspecto do problema.

Como são então?
São homens desprezíveis que fazem coisas horríveis, porque é a única linguagem que sabem usar para se expressar. Há qualquer coisa neles que está quebrada e danificada mas eles não são interessantes. E quando se vêem entrevistas reais percebe-se que eles não têm razões plausíveis. Os seus parentes não foram comidos por canibais numa floresta russa, como na história de Hannibal Lecter. Por isso quis falar mais das vítimas do que do assassino. E a viagem no tempo permitiu-me perverter a realidade e ao mesmo tempo conseguir aproximar-me dela. 

Em que sentido?
Porque já não quero ver notícias sobre o assunto e é mais fácil vê-las através do entretenimento. Pondo uma ideia louca como viajar no tempo, ou animais mágicos, como fiz noutro livro, este tipo de moldura possibilita olharmos para a realidade de que estamos fartos de falar de uma forma refrescante. A viagem no tempo também me permite olhar para o século XX e a forma como o mundo mudou, mudou muito. E o século XX é em grande medida o século dos Estados Unidos. Podia ter situado a história na África do Sul, mas aí seria o apartheid a dominar a narrativa. Ao localizá-la na América permitiu-me olhar para os direitos das mulheres, para o comunismo e a caça às bruxas e os seus ecos na história. O macartismo e o anticomunismo têm ecos na guerra contra o terrorismo actual, usam-se as mesmas tácticas. Não aprendemos. Continuamos a ter debates sobre a despenalização do aborto. Joguei com todos esse elementos para olhar para a história social e para falar das vítimas.

Disse que não quis tornar este serial killer numa personagem com glamour. Foi por isso que lhe atribuiu uma certa fraqueza física?
Foi uma personagem horrível de se escrever e lidei com isso lixando-o sempre que podia, uma espécie de pequena vingança. Era tão horrível estar dentro da sua cabeça que sempre que tinha oportunidade de o magoar fazia-o. Portanto, não se tratou de reflectir o que estava danificado na sua personalidade, mas mostrar um homem violento. Por outro lado, a maioria dos serial killers tem como motivação um sentimento de impotência, normalmente de natureza sexual, mas também face ao mundo. E é claro, na sociedade actual, que os homens se sentem, de facto, ameaçados pelas conquistas das mulheres. E se se levar isso a um nível maior e mais tóxico, encontram-se homens como a personagem do Harper. 

E a sua ficção tenta servir tudo isso.
Penso que a ficção é incrivelmente poderosa, porque implica uma empatia, porque nos colocamos na pele das personagens e foi o que procurei fazer com “As Raparigas Cintilantes”: tentar que o leitor sentisse estas mulheres, as vítimas, sentisse a perda delas. Originalmente tinha mais três personagens, mas já não conseguia “matar” mais ninguém. Pus tanto nessas mulheres e depois tive de as matar no fim, que chegou um momento em que não o consegui fazer mais. 

Como se pôs na mente do serial killer?
Basicamente extrai-se uma parte de nós. Para o Harper tirei o meu cinismo e fi-lo crescer o mais possível, como se fosse um tumor que tivesse atingido grandes proporções. Mas é muito difícil pensar sobre isso, especialmente porque o homicídio em série é, normalmente, associado a um prazer sexual e senti-me muito desconfortável por ter de incluir isso, mas quis reflectir a realidade. Por isso quis escrever a violência da perspectiva das vítimas, reflectir os crimes como eles são e mostrar o quão horríveis são, porque é profundamente chocante. A imagem da violência não se pode tornar banal tem de ser chocante e fazer-nos sentir mal, porque é assim que ela é. 

É por isso que também nos revela pormenores da vida dessas mulheres, da sua evolução ao longo dos anos?
Sim, sem dúvida. É a forma de sentirmos quem elas são. Frequentemente, nos policiais as vítimas são desconhecidas e são desconhecidas sensuais, o que ainda é pior. Tornam-se objectos e pretendo torná-las sujeitos, pessoas reais, como que dizendo “não é apenas um puzzle ensanguentado ou um cadáver sensual”. Na África do Sul, o livro saiu pouco depois de o Oscar Pistorius ter sido acusado de matar a sua namorada, Reeva Steenkamp, e nas primeiras 24 horas ninguém mencionou o seu nome. A sua única identidade era a de namorada de Oscar Pistorius e escreviam-se artigos reduzindo-a modelo de biquínis. Perdemos de vista a mulher. E fazemos frequentemente isso. O horror não é o acto violento, o horror é termos perdido uma pessoa. 

Foi jornalista durante vários anos. É por isso que inclui jornalistas nas suas histórias?
Sim, não sei como fugir disso [risos]. Talvez porque o jornalista é o mais próximo que há do detective. 

A parte do crime e dos homicídios foi a que a levou a interessar-se pelo jornalismo?
Trabalhava para revistas, não para jornais, mas as histórias que envolvem investigação eram as minhas preferidas. E as que trabalhei deram-me uma perspectiva tão grande sobre a África do Sul e um acesso aos bastidores do mundo. Hoje sou escritora muito por causa disso. É incrível poder viver as coisas na realidade, conhecer pessoas interessantes e falar directamente com elas. O meu próximo livro tem como pano de fundo o Haiti.

Escreve sempre sobre sítios onde já esteve?
Gosto de ir aos sítios e fazer lá a minha pesquisa. Fui a Chicago, a Detroit, ao Haiti. Há situações em que não posso ir. Parte do meu novo livro passa-se na Síria antiga e eu não tenho uma máquina do tempo para ir lá, mas também não posso ir lá neste momento porque não é seguro. Mas acho que ir faz uma grande diferença. É muito importante ter a sensação real dos sítios, evitar-se os clichés. Quero que as pessoas desses lugares, ao lerem o livro, reconheçam o que lá está. É um instinto jornalístico ir à procura de histórias surpreendentes. 

Os direitos de “As Raparigas Cintilantes” foram adquiridos pela produtora do Leonardo DiCaprio. Chegaram a falar um com o outro?
Não, não tivemos contacto nenhum. Tenho tratado das coisas com os seus produtores. Acho que vão fazer um filme a partir do livro. E o livro “Broken Monsters” também vai ser adaptado por outra produtora, por isso os direitos de três dos meus quatros livros foram adquiridos, o que é óptimo. 

Trabalhou na escrita para séries de animação, incluindo uma produção da Disney. É bem diferente dos policiais.
Adoro escrever para crianças, é muito divertido. Gosto de explorar esses dois lados da minha personalidade, essa parte de super-fofa e infantil e, depois, ser super obscura. Porém, se me apontassem uma arma à cabeça e me obrigassem a optar por um só registo, eu diria romances, porque são a forma mais directa de ir à ficção. 

E quando é se deu o seu primeiro encontro com a ficção?
Tinha cinco anos e vi um anúncio que dizia que se pagava para escrever histórias e fiquei surpreendida com o facto de escrever livros ser uma profissão. E pensei: “É isso que eu vou fazer, vou ser paga para inventar histórias.”

Também escreve banda desenhada.
Sim, adoro a colaboração que existe na BD, porque retira boa parte da pressão. Trabalha-se com outro escritor ou desenhador e toda a gente traz ideias para o projecto.

E quando escreve os seus romances, isola-se?
Alugo um espaço com os meus cinco ilustradores e designers, pomos os phones e trabalhamos nas nossas coisas, mas quando fazemos uma pausa podemos ir beber um café e conversar com alguém. Ou se alguém está a rir de um vídeo que viu no YouTube vamos todos ver.

Quase como a redacção de um jornal?
Exactamente, preciso de ter pessoas à minha volta. Isso ajuda a minha escrita.

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