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Esquerda, direita, volver a Herberto Helder
Uma das últimas imagens de Herberto, fotografado em Fevereiro

Esquerda, direita, volver a Herberto Helder

Uma das últimas imagens de Herberto, fotografado em Fevereiro Alfredo Cunha/Lusa Maria Ramos Silva 15/05/2015 10:00

“Poemas Canhotos”, o último livro de inéditos de Herberto Helder, é editado esta sexta.

A edição é da Porto Editora e tem tiragem única.

“Rosa esquerda,/plantei eu num antigo poema virgem”, regava o poeta em “Servidões” (2013), manual de cargas e trabalhos, vínculo à obra de um lado esquerdo que tanto escutava o coração na sua linha de montagem como teimava em ser operário às direitas, rigoroso na vigilância das letras, único no mais modesto e ilustre dos ofícios. E, com justiça, a crítica rendia-se ao livro publicado aos 82 anos pelo “poeta obscuro”, novo prodígio de forma e conteúdo.

Em Junho de 2014, chegava “A Morte sem Mestre”, do mesmo Herberto Helder, e pela primeira vez um dos seus livros incluía um CD com cinco poemas ditos pelo próprio. Nem todos terão vislumbrado nas linha do mestre (a morte, essa, podia esperar mais um tempo, devia até ter esperado para sempre) a mesma máquina de assombro. Escreveram sobre essa rosa, que mantendo então, e sempre, o viço, refreara a intensidade do perfume. Vai daí o poeta sentiu o espinho. E é verdade que um espinho dói – um dedo que o diga, uma mão inteira que escreve, esquerda ou direita, que trate da ferida.

Terá o poeta visto dor crónica no cotovelo de alguns. No cotovelo desse “jovem ávido cheio de cotovelos/no meio da multidão”. Talvez tenha julgado que os escribas queriam colher mais que esse mesmo poeta, plantar mais e melhor e em menos tempo, mesmo que ninguém quisesse desfolhar-lhe as loas ou armar-se em jardineiro instantâneo, saído da casca e do pacote. E o poeta, no eterno ofício de cantar, responde torto, por direito próprio, a quem não viu “a multidão de palavras/todas elas esquerdas como se escreve”, esquecendo que também é justo não ver o que nem sempre se acha que está lá.

“esfolo-te vivo, vadio, se me trazes outra vez versos/destes/ assim tão às ordens de um modelo civil:/ adorar a ginástica dos exemplos, ser diligente, montar o seu negócio de tendências” Uma zaragata esgota (-topas?/ tu que não topas nunca nada)”, tal como essa edição de “A Morte sem Mestre” [ver estante]. Entretanto, assistiu-se a outros lançamento e reedições: “Poemas Completos”, “Os Passos em Volta”, “O Bebedor Nocturno” e “Photomaton & Vox”. Chega hoje ao mercado, também pela Porto Editora, “Poemas Canhotos”, o último livro de poemas inéditos de Herberto Helder, terminados, segundo a chancela, pouco antes de morrer, a 23 de Março deste ano, e com direito a uma tiragem única, segundo a vontade do autor. Na sua nota destinada à imprensa, a editora partilha a derradeira página do manuscrito entregue por Herberto Helder. “Última página do texto. Fim”, sentencia a caligrafia à chegada à 33.

A edição, de 56 páginas, inclui uma bibliografia completa dos livros publicados por Herberto, preparada por Luís Manuel Gaspar, que recua às primeiras intervenções, “O Amor em Visita” (Contraponto, 1958), “Prefácio para Um Dicionário de Rimas” [excerto], plaquete-serigrafia com Lourdes Castro (Paris, 1958), ou “A Colher na Boca” (Edições Ática, 1961), até estes versos mais recentes, desejosos de morrer por uma rosa, esse “segredo do mundo”.

“em boa verdade houve tempo em que tive uma/ ou duas artes poéticas/ agora não tenho nada:/sento-me, abro um caderno, pego numa esferográfica e traço meia dúzia de linhas”

 Paciência. Não vale a pena. É escusado. Isto dura tanto como um cacto lançado ao mar. Sabemos nós, sabemos todos, e sabe o poeta melhor que ninguém, que “escrever poemas não é boa maneira de atordoar os/tempos do verbo”; e que o zelo diário é uma morte como todas as outras, apenas mais pequena que a restante – “que interessa fazer a barba se é tudo para cremar/ desde as unhas dos pés aos espelhos soberanos”. E a restante, aquela que não quis esperar para sempre, chegou depois destes poemas, depois do seu mestre posar para a foto, depois daquela rosa que desafia o olfacto. Sosseguem. (“há quantos anos fiquei bêbedo desse talhão de roseiras!”)

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