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Tiago Mota Saraiva 11/05/2015
Tiago Mota Saraiva

opiniao@newsplex.pt

A farsa eleitoral

Uma amiga jornalista com residência no Reino Unido disse-me estar com enormes esperanças de que o seu partido, os Verdes, pudesse alcançar um excelente resultado nas eleições de sexta-feira. No dia das eleições perguntei-lhe como corriam as coisas e confessou-me ter votado nos trabalhistas porque, na sua zona, os ecologistas não tinham hipótese de eleger. Bem-vindos à doce deturpação da democracia a que chamam círculos uninominais: o voto no menos mau. 

Por cá, papagueia-se que aproximaria os eleitores dos eleitos mas, na verdade, circunscreve a disputa eleitoral a dois ou três candidatos com capacidade financeira e mediática para chegar ao eleitorado.

Apesar da aparente diversidade e abertura do sistema, que permite ter um enorme rol de listas e partidos a concorrer – no Reino Unido até havia uma lista “Vote Elmo” (a personagem da “Rua Sésamo”) –, são as sondagens e os media que decidem quem são, de facto, os elegíveis.

Agora que o circo mediático levanta arraiais, percebe-se que conservadores e trabalhistas estavam longe de ter a disputa renhida que todas as sondagens anunciavam e que terá condicionado o voto de tanta gente.

O sistema uninominal do Reino Unido deturpa de uma forma tão escandalosa que permite aos conservadores obter uma maioria absoluta confortável (331 eleitos) com apenas 36,9% dos votos e esconde os vergonhosos resultados alcançados pela perigosa direita nacionalista do UKIP ao conferir-lhe apenas 1 eleito, apesar dos quase quatro milhões de votos, que correspondem a 12,6%. Com um sistema que condicionou o voto da minha amiga e, provavelmente, de milhões de eleitores, as duas faces da austeridade – Conservadores e Trabalhistas –, com 67,3% dos votos, obtiveram 86,6% dos lugares em disputa.

Na verdade, estas radicais deturpações dos sistemas eleitorais, feitas de diferentes formas pela Europa fora, são um inteligente meio de transformar a decisão soberana do povo numa decisão condicionada pelo poder financeiro – sem ter de deixar de haver eleições, como outrora.

Escreve à segunda-feira

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