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Vai Tu. O grupo excursionista pode ir-se embora de vez
Além das cartas, o Grupo, com quase 67 anos, também é bom para ver a bola

Vai Tu. O grupo excursionista pode ir-se embora de vez

Clara Silva 01/05/2015 10:00

O prédio da colectividade com quase 67 anos na Bica foi vendido a uma empresa para apartamentos turísticos.

A partir de Setembro não tem casa.

Vai Tu. Não estamos a falar de um diálogo duvidoso entre Joaquim de Almeida e Maria de Medeiros no filme “Adão e Eva”. Desta vez estamos a falar de uma das associações mais carismáticas da Bica, em Lisboa. Se já desceu (ou subiu) a rua em questão, de certeza terá reparado no nome à porta: “Grupo Excursionista VAI TU.” Não era o álcool a mandá-lo a lado algum. A casa chama-se mesmo assim e está prestes a cumprir 67 anos de vida – precisamente no mês em que pode ficar sem tecto.

É para lá que vamos, obviamente, e era para lá que íamos mais vezes quando ainda havia noites de karaoke. “Tínhamos sempre uma noite por mês, à sexta ou ao sábado, mas isso acabou com estes novos horários da Bica e do Cais do Sodré”, explica Águeda Polónio, a actual presidente do Vai Tu. “A polícia não nos deixa ter as portas abertas além das dez da noite e a essa hora não há karaoke possível.” É verdade, sobretudo quando são precisos vários copos até se entoarem as primeiras “batatas da terra” da canção “Morango do Nordeste”.

“No entendimento deles”, o grupo não se enquadra “nem nos bares nem nas associações similares”, o que complica ainda mais as coisas. “Dá-me ideia que quando criaram esse tipo de restrições de horários se esqueceram de colectividades como a nossa”, continua Águeda.

Estamos em frente ao Vai Tu e ainda se vêem restos das fitas dos santos populares do ano passado no primeiro andar do prédio. “Este ano já pedimos licença de ruído para os dois dias de arraial de Santo António”, diz a presidente do grupo. E ainda bem, porque vai ser de arromba e desta vez não há problema se o prédio vier abaixo.

Se já aqui passou em anos anteriores sabe do que falo. Pessoas a dançar na varanda, o inconfundível Zé, figura do bairro, na grelha a assar sardinhas e tanta gente de um lado para o outro que é difícil perceber quem está a empurrar para tentar passar e quem está só a tentar dançar ao som de Quim Barreiros e afins.

Em Setembro, justamente quando o grupo cumpre 67 anos (no dia 3), o almoço comemorativo para sócios e simpatizantes terá de acontecer noutro lado. Provavelmente num restaurante ou num piquenique algures numa estrada do país (como nalgumas das fotos antigas espalhadas pelo clube). O prédio onde fica o Vai Tu foi posto à venda em hasta pública pela câmara e já tem um novo proprietário, “uma empresa que vai fazer disto um apartamento turístico”. E que grande apartamento.

“Eles tinham a faca e o queijo na mão e até nos pagaram uma indemnização acima da média [a renda que o clube paga actualmente é de perto de 50 euros]”, explica Águeda. “Assinámos um contrato amigável, até porque não havia grande escolha e podemos ficar aqui até Setembro, mas o nosso problema é fechar uma colectividade com 67 anos.”

Se tudo correr bem não vai ser preciso acabar com a colectividade. Desta vez o grupo excursionista tem de ir numa excursão forçada para outro lado e vai começar “as reuniões na junta” para conseguir um novo espaço. E só faz sentido que seja na Bica. “As pessoas aqui do bairro já se habituaram a frequentar o Vai Tu, para jogar às cartas, para beber um copo, nas festas e nas acções de beneficência, e só faz sentido que aqui fiquemos.”

Futuro O grupo já teve uma proposta de um sócio com um espaço também na Bica, mas para isso é preciso que “a câmara dê alvará” para ali ficarem. E depois há o problema da renda. “Se ainda conseguíamos suportar uma renda de 52 euros, vai ser impossível pagar, por exemplo 750. Mais ainda tendo em conta que nos suspenderam o horário alargado e as actividades que ainda nos davam algum lucro, como o karaoke.” Para ter uma ideia, aqui um copo de vinho pequeno custa 30 cêntimos. Se estamos a falar de imperial é a um euro para não sócios, 80 cêntimos para sócios.

“É um espaço diferente na Bica, com uma frequência diferente, onde vão mesmo as pessoas que lá vivem”, diz Marco Vaza, que nos últimos anos começou a frequentar o grupo. Aliás, pode dizer--se que há duas gerações de sócios. “Os que já vinham há muitos anos e já frequentavam as excursões do grupo e os que passaram a vir com o karaoke”, sublinha Águeda. “De crianças pequenas a velhotes, é um espaço da comunidade e toda a gente aceita bem quem vem de fora, como eu”, continua Marco. “À terceira ou quarta vez já me tratavam pelo nome.”

Por falar em nome, continuamos na dúvida com o Vai Tu. Afinal onde vamos? “Ainda hoje ligam para aqui agências de viagens porque isto começou como um grupo de excursões”, explica Águeda. “Começou quando um grupo de amigos que gostava de percorrer o país e organizar excursões decidiu fundar uma associação.”

Alguns deles ainda se encontram por lá, como o sócio número 7, João Vicente Dias. “Cheguei a ir à Póvoa da Galega, convencer a Isidoro Duarte a dar--nos um autocarro porque queríamos ir numa excursão de dois dias e estava tudo esgotado nessa altura. Foi um dia inteiro para falar com o administrador.” Conseguiram. E pode ser que se safem desta também.

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