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André Abrantes Amaral 30/04/2015
André Abrantes do Amaral

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Gerações

Estou a ler “Les souvenirs” de David Foenkinos, o autor de “La délicatesse”. 

Sendo Foenkinos da minha geração, há algo que me toca neste seu livro que nos descreve as recordações que o narrador tem dos seus avós.

Quando fica viúva, os filhos convencem a mãe a ir para um lar. É aqui que o neto, moído com sentimentos de culpa, a visita sempre que pode. E o que mais o fere emocionalmente é a avó, querendo protegê-lo, garantir-lhe que tudo vai bem quando ele sabe que não é verdade. 

Para quem não o conhece, Foenkinos consegue, com poucas palavras, descrever uma imagem como se fosse uma fotografia. Fá-lo quando nos conta como a avó, na II Guerra Mundial, deixou a escola que os pais não podiam mais pagar e os colegas ficaram junto ao portão, para se despedirem dela. Uma imagem que a velha senhora, então menina, guardou consigo como um retrato dos amigos, mas onde já não estava.

É numa das visitas ao lar, enquanto passeiam pelos seus corredores com vários quadros de gosto duvidoso pendurados nas paredes, que reparam num com uma vaca. Sendo o mais feio de todos, fá-los rir. E quando nada têm para dizer, quando ele sente que a ela lhe custa fazer a representação a que se habituou, é esse o quadro que vão ver. Olhando-o, falam e riem como se não estivessem naquele sítio, mas em casa. Tendo sido ela, conta-nos ele, que lhe transmitiu o sentido estético, foi perante a falta deste que encontraram a forma de viver o que não queriam.

Advogado. Escreve à quinta-feira 

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