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Fall. Nesta queda para dança todos os passos contam

Fall. Nesta queda para dança todos os passos contam

Ana Tomás 29/04/2015 08:00

No Dia Mundial da Dança espreitamos o antes e o depois da coreografia de Victor Hugo Pontes

Discutem-se as posições dos bailarinos no palco, reajustam-se os movimentos às dimensões do espaço e apura-se a conjugação dos jogos de luzes, dos elementos cénicos que entram na dança e da música, que em muitos casos dá a deixa para os diferentes momentos da coreografia. São os últimos pormenores antes da apresentação de “Fall”, uma das duas criações que Victor Hugo Pontes trouxe ao Teatro Maria Matos, em Lisboa, no âmbito do Dia Mundial da Dança (em cena até amanhã).

“A luz é o último elemento a incluir e às vezes o som, a nível de volume, porque vimos de salas com aparelhos diferentes. Os últimos dias são muito técnicos”, explica o coreógrafo, que neste palco teve de voltar a dar um incentivo a um dos bailarinos para ultrapassar a barreira do cenário, imposta pelos limites da mais recente casa de “Fall”. Mas para trás há todo um trabalho de meses, que passa por várias etapas. “Gosto de trabalhar com pessoas de quem gosto, mas aprendo a gostar delas durante o processo. Em todos os projectos gosto de fazer audições para integrar elementos novos, mesmo para destabilizar, com inputs e energias diferentes. Mas a primeira semana de ensaios é para construir um grupo e fazê-lo acreditar que todos nós temos, como grupo, de construir uma peça.” 

Primeiro com aulas técnicas e depois começando a explorar o lado criativo. A partir daí é trabalhar para o processo ir avançando até que os bailarinos estejam seguros do que estão a fazer, gerindo o trabalho físico, porque “eles não são máquinas, é impossível estarem a dar o máximo durante sete horas por dia, cinco dias por semana”. Sempre que contrata uma equipa, o ritmo de trabalho desenvolve-se no expediente normal – 40 horas semanais –, mas nesse rigor de tempo laboral muito acontece, conta: “Nos ensaios há sempre muita coisa para fazer, gosto de experimentar muito, de ir testando, de fazer ensaios abertos durante o processo, por isso é que depois de estrear o projecto raramente o altero”, explica Victor Hugo Pontes.

As duas criações que o coreógrafo trouxe ao Teatro Maria Matos, “Fall” e “Cair”, fugiram à regra e sofreram alterações depois da estreia. “Senti que o ‘Fall’ estava demasiado longo e cortei cinco minutos, o que para mim tornava o espectáculo mais económico e permitia atingir mais facilmente os objectivos.” Ainda assim, foram precisos três meses de distância em relação ao projecto para que o criador percebesse quais as partes do espectáculo que estavam a mais. 

Já em “Cair”, dirigido ao público infantil, houve elementos adaptados e retrabalhados para a apresentação no Maria Matos, a partir das reacções das crianças à peça, durante a sua estreia. “No ‘Cair’ teve a ver com coisas que resultaram de forma fantástica e que eu não estava nada à espera que tivessem impacto. Ajustei o espectáculo a isso”, revela.  Princípio No processo criativo das peças, a palavra “queda” dá o mote, por isso muitas são propositadas e alternam entre o seu significado físico e metafórico. O mesmo se passa com a gestão do trabalho e da equipa até ao dia em que o pano sobe pela primeira vez. Além da parte física, há que lidar com as frustrações, os humores, os entusiasmos e os egos. “Chama-se a isso direcção, e dirigir não tem a ver só com o lado técnico de criar e passar coreografias, é sempre um processo colaborativo.”

A tarefa não é fácil, por se tratar de uma actividade que joga com o corpo mas também com as emoções. Para Victor Hugo Pontes, é importante que os bailarinos saibam claramente o que estão a fazer, por isso tem várias conversas com os grupos com que trabalha sobre o que cada peça é: “Eu de fora consigo ter várias imagens, mas às vezes nem partilho com os bailarinos a imagem que está a ser transmitida porque inevitavelmente eles vão acentuá-la e o público só vai ver essa imagem. Gosto sempre que as coisas fiquem mais em aberto e com múltiplos sentidos.”

O bailarino Vasco Fernandes, que participa nas duas peças, está na mesma sintonia. Explica-nos que, no caso do coreógrafo, não há uma postura obsessiva em relação aos movimentos: “Acho que é mais a nível de posicionamento, porque ele vai buscar coisas que nós também damos, que nos são mais naturais e às quais chegamos sem pensar muito. Não há um forçar das coisas.”

Victor Hugo Ponte acrescenta que muitas vezes o desafio não é tanto a perfeição técnica e de execução do bailarino como a articulação dos corpos, o que pressupõe dar tempo a que os bailarinos, muitas vezes com estaturas diferentes, estabeleçam essa relação, que demora sempre algum tempo a alcançar. “Isso é mais difícil de conseguir, mais que o lado virtuoso dos próprios movimentos”, confessa. 

Uniformidade livre A coesão é importante em qualquer coreografia, mesmo quando parece sugerir algum caos. Há uma ordem que é seguida, seja nas marcações precisas das posições dos bailarinos em movimentos aparentemente distintos, seja nos “uníssonos, quando eles têm de fazer certas coisas ao mesmo tempo. Normalmente, para mim, esses são os momentos mais difíceis”, diz Victor HugoPontes. Para que funcione é preciso desenvolver um processo de escuta, em que os bailarinos sabem quando parar ao mesmo tempo e voltar a mexer-se também ao mesmo tempo, o que implica muito trabalho e exercícios. “Assim como os actores aprendem a memorizar texto, os bailarinos aprendem a memorizar o movimento. É um treino”, acrescenta.

Apesar da memória física e corporal, por vezes acontecem erros durante os espectáculos, mesmo que muitos não sejam percebidos pelo público. Em “Fuga sem Fim”, uma outra criação do coreógrafo, o grupo todo caiu. Quando isso acontece continua-se, improvisando, até se agarrar a coreografia outra vez. Sempre que há um imprevisto, a dificuldade, diz Victor Hugo Pontes, está em “perceber onde o outro está, em que parte já está, até voltar a estar tudo sintonizado”. No caso de “Fuga sem Fim”, a queda acabou por passar também despercebida dos bailarinos da Escola Superior de Dança, que ao verem o registo vídeo do espectáculo tomaram o erro como elemento coreográfico: “Quando fui ver a recriação eles faziam a queda como se fizesse parte. Há momentos em que acontecem coisas que não estavam previstas e às vezes até resultam melhor e acabam por ser assimiladas. São imprevistos que, por vezes, nos levam por outros caminhos.”

Passos em falso Tal como acontecem imprevistos mesmo quando se treinam e memorizam os movimentos, também acabam por surgir lesões que, consoante a gravidade, condicionam, mais ou menos, a performance do bailarino. Em “Fall” houve algumas situações, mas dentro do que é normal acontecer e que foram controladas. A maior parte das lesões acontece no início dos projectos, em períodos de teste e de experimentação, nos quais se tende a ir mais além e se puxa mais pelo físico. “São ensaios mais intensivos, repetem-se várias vezes e o corpo já não reage da mesma forma.” Victor Hugo Pontes nunca teve de ver um bailarino abandonar uma criação sua por lesão, mas confessa que já houve pessoas que fizeram espectáculos e não estariam em condições de o fazer, como aconteceu numa estreia em que um bailarino dançou com uma entorse.

Por vezes os bailarinos escondem a real dimensão do problema para não deitar a perder todo o esforço despendido. “Num processo anterior, por acaso aconteceu--me, e não resultou bem, porque a pessoa tinha um problema, dizia que já estava melhor mas depois não conseguia chegar ao nível que eu esperaria que alcançasse, que já tinha alcançado. Acabou por confessar que continuava com imensas dores e não podia dar mais.” Quando o coreógrafo se apercebe de que o bailarino não está na sua forma habitual e este se confronta com essa limitação, instala-se muitas vezes a frustração e é necessário recorrer a muita psicologia para que o bailarino acredite no que está a fazer e não se desmotive. “Às vezes é duro para eles perceberem que não estão ao nível desejado”, sublinha Victor Hugo Pontes. 

Valter Fernandes dançou lesionado nas últimas apresentações. Seria difícil percebê-lo apenas pelo espectáculo de segunda-feira à tarde, numa sessão especial para escolas secundárias, sem a comparação com o ensaio anterior a que assistimos. Neste o bailarino foi poupado a alguns movimentos, que acabou inevitavelmente por fazer na apresentação ao público, sem grande esforço aparente. Um processo que pressupõe um conhecimento das limitações não só por parte do coreógrafo, mas também do próprio bailarino. Valter Fernandes não é de forçar, “se não dá, não dá”, mas isso não quer dizer que não insista em chegar ao que lhe é pedido. Pelo contrário – e aqui conta saber gerir o próprio corpo. “Não costumo desistir muito, posso não fazer, se calhar, no limite que as outras pessoas fazem, mas acho que consigo fazer a maior parte das coisas à minha maneira, tentando adaptá-las ao meu corpo. Os corpos são diferentes, claro que há limitações, mas conseguimos chegar às vezes a algo parecido, pelo menos, ou que contenha a mesma intenção”, defende o bailarino.

Atletas de alta competição Valter Fernandes tem 26 anos e começou na dança aos 14, na vertente de dança de rua. Aos 21 foi estudar ballet teatro, adquirindo outros conhecimentos e aprendendo outros estilos, como a dança contemporânea. Da mesma forma que um atleta tem de saber gerir o cansaço a cada prova e apostar na concentração antes de entrar em prova. A comparação é do próprio Victor Hugo Pontes, que já coreografou Cristiano Ronaldo para um anúncio à sua marca de calçado. “Os meus bailarinos também são atletas de alta competição e por isso é que fazem o que fazem”, diz, convicto, o coreógrafo.

No caso de Valter Fernandes não há disciplinas rígida, mas costuma seguir  alguns preceitos antes de subir ao palco. É sobretudo “uma passagem mental por todo o espectáculo. O corpo acabamos por trabalhar e depois é bom termos capacidade para nos concentrarmos e focarmos para entrar no espectáculo”, explica.

Victor Hugo Pontes encontra algumas semelhanças com o futebol quando se trata de formar os seus grupos. “Tem de se jogar em equipa”, assegura. E na dele, assume sem timidez que tem alguns dos melhores craques. “São muito bons e tenho muita sorte por trabalhar com estas pessoas.”

“Cair”, para crianças e jovens, hoje às 10h.

“Fall”, hoje e amanhã, às 21h30, 6 a 12 euros.

Teatro Maria Matos, Lisboa

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