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Para Cláudia Villax, as oliveiras têm honras de Marie Antoinette

Para Cláudia Villax, as oliveiras têm honras de Marie Antoinette

Marta Cerqueira 22/04/2015 18:49

As oliveiras nunca saem da serra do Marvão, mas podem ser de quem as quiser adoptar. Quem o garante é Cláudia Villax, que prefere não dar nomeà sua profissão e dividir-se entre o marketing, as receitas e a agricultura

Passa os dias entre o campo e a cidade, o Marvão e Lisboa, entre os momentos de pés na horta e os de mãos no computador. Cláudia Villax não consegue escolher uma só paixão e, sem se definir numa profissão, tornou--se uma perita em agricultura, sem deixar de lado todas as experiências profissionais que foi acumulando nos últimos anos. Foi jornalista de economia e escreveu em revistas de lazer, sempre fotografou, esteve por trás da criação de conceitos para livros de culinária e dedica-se ao food styling. “No fundo, a minha vida continua a ser como sempre foi, atarefada e atrás de sonhos que quero muito realizar.” Um deles acabou concretizado em 2003, quando decidiu que os três filhos mereciam o mesmo contacto com o campo que Cláudia teve nos Verões que passava na casa da avó, no Douro.

Da estrada que ligava o Norte a Lisboa fez uma extensão que chega agora ao Marvão, serra que passou a ser a segunda casa para a família. “O que nos moveu foi encontrar um local que mostrasse aos nossos filhos outra forma de vida”, conta ao B.I. Mas para ensinar também teve de aprender e por isso os primeiros tempos foram passados de bloco de notas na mão e olhos atentos a tudo o que via os vizinhos fazerem. Juntou a isso cursos sobre práticas agrícolas e a leitura de um sem-número de livros sobre o tema. “Quando começámos a ambientar-nos ao Marvão, e por estarmos inseridos num parque natural, o nosso primeiro instinto foi preservar e manter o património ambiental”, refere, antes mesmo de ter adoptado a produção de azeite como ideia de negócio. Com um olival composto por 500 árvores, começaram por produzir o azeite biológico Azeitona Verde para oferecer a amigos e familiares, até perceberem que tinham um produto pelo qual as pessoas se iam realmente interessando. A grande particularidade da produção que a família Villax adoptou está no respeito pelos tempos próprios da natureza. “Os olivais ancestrais estão em risco de desaparecer para dar lugar a olivais com maior rendimento, os chamados intensivos e superintensivos”, lembra. A família deixa as oliveiras crescerem ao seu ritmo, a apanha é feita manualmente e os pesticidas são substituídos por garrafas de água penduradas nos ramos, truque que ajuda a afastar as pestes. O resultado é uma produção que pode chegar aos mil litros por ano e que tem esgotado sempre, mesmo antes de ser posta à venda.

ADOPTAR UMA OLIVEIRA
Longe de olhar para o espaço apenas como fonte de rendimento, Cláudia quis dar a conhecer tudo aquilo que tinha aprendido sobre uma das árvores mais resistentes – a mais velha do país, em Santa Iria da Azóia, tem 2850 anos. Assim, abriu as portas da quinta a quem queira um pedaço de terra ou, mais concretamente, a quem queira ser dono de uma das oliveiras disponíveis. Por quatro euros por mês, qualquer pessoa pode adoptar uma oliveira e receber o seu fruto, traduzido em oito garrafas de azeite biológico num ano. Além disso, tem direito a “algumas surpresas simpáticas” que Cláudia prefere não revelar e, o mais importante de tudo, a um certificado de adopção, no qual ficam disponíveis todos os dados sobre a árvore. Para uma maior proximidade, o dono pode baptizar a oliveira e o espaço conta já com cem árvores baptizadas, compondo um terreno povoado por uma Filipa de Lencastre, um Camões, um Carlos Magno ou uma Marie Antoinette. “Queremos que as pessoas apreciem, desfrutem e descubram a importância de saber de onde vem, como é feito e quem faz, que fiquem a conhecer o trabalho intenso que está por trás da produção de alimentos sãos e isentos de pesticidas e herbicidas”, conta.

Com um bom azeite em mãos, dicas sobre a produção biológica e um gosto por cozinhar que já vem dos tempos em que tinha ao seu dispor apenas os pequenos vasos que armazenava na sua varanda em Lisboa, Cláudia lançou-se nos livros de receitas. A primeira parte do título do livro dá logo a ideia de biológico: “Da horta para a mesa”. Já a segunda parte – “Boa comida, boa vida” – dá a entender a intenção de mostrar as vantagens de comer o que é da época. A quem a questiona sobre se não seria mais fácil comprar os produtos embalados do que ter o trabalho de manter uma horta, Cláudia responde com a experiência e desafia: “Assim que a comida chega à mesa, cheia de sabor, com aquele gosto especial dos legumes sazonais e das ervas aromáticas que vêm da nossa terra, tudo fica respondido.”

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