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Economistas de esquerda e de direita com reservas sobre a “década para Portugal”
ANDRÉ KOSTERS/LUSA

Economistas de esquerda e de direita com reservas sobre a “década para Portugal”

ANDRÉ KOSTERS/LUSA Margarida Bon de Sousa 22/04/2015 17:43

Baixa da taxa social única, sustentabilidade da Segurança Social e atracção do investimento privado. Economistas ouvidos pelo i.

Orelatório “Uma década para Portugal” do PS suscita muitas dúvidas entre os economistas: à esquerda, porque duvidam que a Comissão Europeia deixe passar as medidas propostas e sobre a descida da taxa social única (TSU); à direita, porque o cenário macroeconómico é demasiado optimista e volta a apostar no consumo interno, que levou à intervenção da troika em 2011. 

Ferreira do Amaral Oeconomista diz que o documento tem uma estratégia alternativa, mas duvida que a Europa permita este tipo de políticas. “É duvidoso que não haja oposição de Bruxelas”, diz, acrescentando que “do ponto de vista das medidas, em geral, fazem-me sentido.” “Uma em que tenho mais dúvidas é a redução das contribuições por parte dos trabalhadores para a Segurança Social. Já as empresas, acho bem que as que têm mais precariedade sejam penalizadas”, disse.

Ferreira do Amaral manifesta ter muito pouca esperança numa mudança de políticas na Europa, continuando a defender a saída do euro. “No cenário macroeconómico avançado, a questão é saber se haverá crescimento europeu que permita o de Portugal. Mas é claramente uma estratégia diferente da do governo, o que é bom porque permite ao eleitorado ter duas alternativas substancialmente diferentes.”

Nuno Teles O investigador da Universidade de Coimbra acha inacreditável a existência de uma contradição entre a proposta de sustentabilidade da segurança social e a redução da taxa social única das empresas e dos trabalhadores em 8 pontos percentuais. “A questão da legislação laboral, depois de todas as reformas que foram feitas no tempo do memorando”, acrescenta, “cai agora por terra e o PS propõe um contrato que facilita o despedimento individual. Finalmente, uma terceira crítica ligada às privatizações:“O PS critica as privatizações deste governo, mas apresenta uma proposta para mais agências que regulem as vendas de empresas aos privados – ou seja, assume que vai continuar a privatizar, o que me parece uma contradição nos termos, mas sem concretizar o quê.” Pelo lado positivo está a reintrodução do imposto sucessório para grandes fortunas. Nuno Teles critica ainda o imposto negativo de complemento salarial. “Os que não conseguem ganhar 411 euros passam a ser subsidiados, ou seja, estamos a financiar salários baixos, na linha das propostas iniciais de Milton Friedman, mas que, na prática, acabam por ser subsídios às empresas para trancarem os baixos salários”, diz. 

João Duque Oex-presidente do ISEG defende que o modelo apresentado é coerente. “Pode é depois afastar-se da economia real. OVítor Gaspar também tinha um modelo coerente e que se foi afastando da economia e não se comportou como estava previsto”, diz. Oproblema, para Duque, está no ajustamento dos modelos à realidade. “Uma coisa que acho gravíssima é a falta de investimento privado em Portugal ligado aos bens transaccionáveis. Quanto às propostas de investimento público, devemos avaliá-las com muito detalhe porque, se não servirem para fertilizar o investimento privado, é o mesmo que dívida contraída sem sustentabilidade para o seu pagamento”, refere.

Pedro Braz Teixeira O economista, que foi adjunto de Manuela Ferreira Leite quando esta foi ministra das Finanças, considera que o cenário macroeconómico do PS é em tudo mais favorável que o da Comissão Europeia, do qual partem. “E ofacto de ser tudo mais favorável faz com que seja o mesmo que escolhermos entre ser rico e com saúde e pobre e doente, porque a maneira como o fazem é em tudo melhor do que a alternativa, o que é, em si mesmo, uma coisa suspeita”, diz. “Conseguem ter um crescimento maior do que o previsto e uma inflação menor, o que é muito estranho. É um cenário cor-de-rosa que não me parece razoável e, em particular, estimula a procura, como aconteceu nos 15 anos anteriores à troika sem resultados nenhuns”. 

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