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Carlos Vicente. “Como maçarocas transgénicas sem medo nenhum”
Manuel Vicente

Carlos Vicente. “Como maçarocas transgénicas sem medo nenhum”

Manuel Vicente Carlos Vicente Marta Cerqueira 22/04/2015 11:25

O director de sustentabilidade da Monsanto é um defensor acérrimo dos transgénicos e garante um consumo sem riscos para os seres humanos

Trabalha há 18 anos numa das empresas com pior imagem pública do mundo e por isso apoia-se em estudos e números concretos para saltar em defesa da Monsanto, a multinacional que detém o monopólio da produção transgénica. É um apaixonado da agricultura e continua fascinado com o facto de conseguir, através de trabalhos feitos junto dos agricultores, ajudar no desenvolvimento dos países. Carlos Vicente lembra que o cultivo modificado geneticamente ajudou a reduzir o consumo de água e a optimizar os solos.

 

A OMS considerou que o glifosato – herbicida da Monsanto mais usado em todo o mundo – pode causar cancro._A Monsanto já desmentiu. O seu uso é realmente seguro?

Completamente. O glifosato é um herbicida com mais de 40 anos de história e a sua utilização é regulada.

Se é seguro, como surgiu o alerta da OMS?

Este tipo de avaliações tem de ser feito pelas autoridades com competências para isso. No caso do glifosato, a análise é feita na Alemanha e o resultado é válido para toda a Europa. É com base nestas avaliações que é possível provar que não há perigo para a saúde no uso do glifosato e a própria OMS já voltou atrás.

Sentem que há falta de confiança na vossa empresa?

Quando falamos de avaliação de risco, temos de o abordar com base na ciência e não em opiniões. É por isso que existem autoridades regulatórias que seguem protocolos rígidos e dão provas da qualidade do nosso trabalho.

Acha que parte do vosso papel é mostrar constantemente as vantagens da empresa?

Os protocolos usados na avaliação de produtos da Monsanto são os mesmos que são usados por outras empresas. Eu sei que se carregar num travão o carro pára, isto porque acredito na avaliação de quem trabalha nessa área. Saber que há regulação dá segurança ao consumidor.

As pessoas sabem que o que são alimentos transgénicos?

Os alimentos transgénicos são o resultado do desenvolvimento tecnológico para melhorar a qualidade do cultivo, algo que o homem já faz há 10 mil anos. A diferença é que hoje  essa alteração pode ser feita de forma dirigida e controlada, enquanto dantes se fazia de forma aleatória.

E quais são as vantagens deste tipo de cultivo?

O cultivo modificado geneticamente já tem quase 20 anos e acontece em Portugal desde 2005. Permitiu reduzir o consumo de recursos naturais como a água, a energia e o solo, porque com cultivos tolerantes a fenómenos como a seca ou as pragas o nível de rendimento do cultivo aumenta. Ao mesmo tempo, a rentabilidade do agricultor aumenta, o que ajuda também ao desenvolvimento das zonas rurais. Apesar de termos uma comunidade cada vez mais urbana, é bom não esquecer que são as zonas rurais que nos dão alimentos.

O que é que o agricultor ganha ao escolher sementes geneticamente modificadas?

Mais de 18 milhões de agricultores em todo mundo escolheram sementes geneticamente modificadas o ano passado, por isso tem de haver vantagens. Controlar as pragas, as ervas daninhas e dar liberdade de produzir até em tempos de seca faz que alguns agricultores transformem um ciclo vicioso num ciclo virtuoso.

Quer dizer que os agricultores que se mantenham fiéis às sementes tradicionais vão perder lugar no mercado?

A tecnologia é essencial para a eficiência do cultivo, seja ela feita através de transgénicos ou não. Espera-se que em 2050 a população seja 33% em comparação com a de hoje. Vão ser precisos mais alimentos e isso está na mão de todos, mas principalmente na dos agricultores.

Os cultivos modificados geneticamente são a solução para o aumento populacional?

Não são a solução mas fazem parte dela, assim como o uso de maquinaria e a implementação de sistemas de rega.

Mas a FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e a Agricultura) diz que o problema não é a falta de alimentos mas a sua má distribuição e o baixo poder de compra.

Os estudos dizem que temos de produzir mais, não só pelo aumento de população mas também pela mudança nas dietas. Por exemplo, já não vemos os chineses a comer só taças de arroz. Os países em de-senvolvimento estão a aumentar o consumo de carne, leite e ovos, o que vai aumentar a esperança média de vida.

Que diferenças nota entre os países quanto à sua abertura aos produtos transgénicos?

Nos EUA os cultivos transgénicos estão centrados na ciência, na Europa o cultivo baseia-se em ideologias e políticas, não na ciência. O que na Europa esquecem é que a biotecnologia usada em plantas é semelhante à que usamos, por exemplo, na saúde. A insulina injectada pelos diabéticos é fruto da biotecnologia.

Como vê a decisão do Parlamento Europeu que dá aos países o poder de proibir o cultivo de produtos geneticamente modificados?

É um exemplo de como a Europa está a centrar a biotecnologia em questões políticas. Ao recusar a produção de transgénicos, a Europa está a virar as costas à ciência, à inovação, e está a lançar sinais negativos às indústrias que querem trazer desenvolvimento.

O último eurobarómetro sobre biotecnologia diz que apenas 27% dos europeus apoiam a produção de alimentos transgénicos. Consegue explicar esta desconfiança?

É um claro reflexo de que o que fazem na Europa é política e não ciência. No caso dos cultivos, a Europa não aborda o tema de forma científica.

Estes números são de 2010. Acha que se a avaliação fosse feita agora os dados seriam diferentes?

Tenho dúvidas. Se o cidadão não quer consumir um produto geneticamente modificado, basta olhar para o rótulo do produto. O agricultor também devia ter ter essa liberdade, mas a Europa está a limitar a liberdade.

A presença de elementos transgénicos num produto tem de ser superior a 0,9% para que apareça no rótulo. Qual é a probabilidade de ir a um supermercado português e comprar um alimento com um nível de transgénicos inferior a isso?

O zero absoluto não existe na natureza, por isso se decidiu por essa percentagem. Nos EUA só é preciso etiquetar quando há uma característica diferencial num produto, mas os organismos geneticamente modificados não provocam uma mudança organoléptica no produto e por isso não é obrigatório vir identificado como sendo um produto transgénico. 

Portugal é um país aberto aos produtos transgénicos?

Desde 2005 que se produzem culturas transgénicas em Portugal, mas também facultamos sementes convencionais, tanto de milho, como de tomate e melão. Grande parte do nosso negócio na Europa é feito com sementes convencionais, é o que acontece nos países centrados na política e não na ciência.

O que se cultiva de transgénico em Portugal?

Milho resistente à broca, uma praga que estraga a planta e diminui a produção.

Esse milho é para consumo humano?

Pode ser. Eu quando vou ao campo como directamente das maçarocas sem medo nenhum. Mas em geral usa-se para rações, assim como o milho convencional. Não temos cultura de usar milho para consumo, como acontece na América do Sul ou em África.

Nesse caso, se tiver de comer produtos geneticamente modificados fá-lo sem medo?

Claro que sim. E qualquer cidadão que se desloque aos EUA, ao Canadá ou à Argentina come seguramente produtos transgénicos.

Portugal importa produtos geneticamente modificados?

Sim, porque as condições climáticas não permitem a produção de grão necessário à alimentação animal. Portugal importa 2/3 do milho que consome e importa 100% da soja.

Qual é a presença da Monsanto em Portugal?

Temos três áreas de actividade: a protecção do cultivo com a venda de herbicidas, a venda de sementes convencionais e modificadas e a produção agrícola convencional. São 16 pessoas a trabalhar em Portugal e muitas outras – investigadores na sua maioria – que acabam por trabalhar para Portugal de forma indirecta. A agricultura é algo que não podemos ver com fronteiras administrativas, essas fronteiras foram criadas pelas pessoas.

Como reagem a estudos como o de 2012 feito com ratos e que avançava que o consumo a longo prazo de transgénicos provocava morte prematura e tumores?

Esse estudo foi avaliado pelas autoridades responsáveis e a EFSA (European Food Safety Authority) concluiu que não tinha solidez científica, não se podendo levar a sério as suas conclusões. Sou engenheiro agrónomo mas, se faço um estudo, ele só é valido quando avaliado por pares e por autoridades competentes. Neste caso, o tamanho da amostra não seguia os protocolos estabelecidos e nada dizia que não escolheram um tipo de ratinhos mais propensos a desenvolver tumores.

Apesar das falhas do estudo, os resultados não são preocupantes?

Devia ser preocupante para os cientistas que desenvolveram um estudo que, depois de avaliado, perdeu valor. Isso sim, é preocupante.

É fácil trabalhar na Monsanto?

Estou lá há 18 anos, por isso diria que sim. É apaixonante trabalhar em agricultura e perceber como podemos contribuir para o desenvolvimento dos países através de trabalhos agrícolas.

O que diria a quem duvida do vosso trabalho?

Diria que somos mais de 21 mil pessoas a trabalhar na Monsanto, com conhecimentos em diferentes áreas. Somos uma empresa superaberta, recebemos milhares de pessoas nas nossas instalações para que conheçam o nosso trabalho e usamos as redes sociais para explicar o que fazemos.

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