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Sergio Canavero. Chamam-lhe Dr. Frankenstein e ele gosta

Sergio Canavero. Chamam-lhe Dr. Frankenstein e ele gosta

Marta F. Reis 22/04/2015 04:51

Médico italiano quer fazer o primeiro transplante de cabeça no Natal de 2017. Sim, leu bem.

Só o tempo dirá se Sergio Canavero é um génio ou um homem completamente louco. “O meu maior feito? Seria o maior feito da humanidade!”, diz numa conversa através do Skype quase implorada devido às suas muitas solicitações.

O médico italiano de 50 anos está convencido de que não há motivos para continuar a adiar o primeiro transplante de cabeça num ser humano, técnica que permitirá dar uma segunda oportunidade a doentes neurológicos, com distrofias musculares graves ou mesmo tetraplégicos, muitos deles presos a uma cama para o resto da vida.

Tenciona realizar a operação no Natal de 2017 e já escolheu o primeiro caso: um informático russo de 30 anos com uma doença genética rara que desde criança lhe atrofiou os músculos. “Tenho recebido pedidos de muitos doentes mas prometi a Valery Spiridinov que seria ele”, diz Canavero, explicando que o critério foi Spiridinov estar no estado de evolução da doença indicado para o transplante e ser um jovem muito talentoso. E não tem receio de que lhe morra nas mãos? “Acha que Iuri Gagarin ou Neil Armstrong não tiveram medo?”, contrapõe.

Canavero, que se apresenta como médico ao serviço do think tank Grupo de Neuromodulação Avançada de Turim, começou a revelar os seus planos há dois anos e entusiasmo, pelo menos, não lhe falta. Em Junho de 2013 publicou um artigo na revista “Surgical Neurological International” no qual descreve o que tenciona fazer. Já este ano acrescentou numa nova publicação alguns pormenores técnicos aos seus projectos, com os nomes de código Heaven e Gemini. Além das publicações e referências sobre o projecto, não existem contudo muito mais informações sobre ele na internet. Canavero é sucinto: diz que se formou em 1989 pela Universidade de Turim e tem experiência de cirurgia nos EUA, onde tenciona regressar para realizar o transplante uma vez que em Itália, solta uma gargalha, as comissões de ética nunca aprovariam a intervenção.

Em Junho vai apresentar os planos da sua cirurgia na conferência anual da Academia Americana de Cirurgiões Neurológicos e Ortopédicos em Annapolis, Maryland. A organização já afirmou que ainda não apoia a ideia, mas disponibilizou-se para o receber. Caso a medicina norte-americana não lhe abra as portas, o plano B é a China, revela Canavero. Seja como for, neste momento está ainda na fase de planear o que antevê como uma megaoperação que implicaria instalações feitas de raiz e 150 profissionais, divididos por duas equipas de cirurgia ao longo de 36 horas. Uma factura de 15 milhões de euros, diz o médico, adiantando que o orçamento já esteve em 10 milhões mas “entretanto a moeda desvalorizou”. Para se financiar procura mecenas, de preferência figuras credíveis, como Bill Gates.

Se tudo parece muito estranho – e ainda não fomos ao transplante de cabeça propriamente dito -, Canavero garante que as suas intenções são sérias. O discurso tem sido sempre o mesmo: em 1970, o cirurgião norte-americano Robert White fez o primeiro transplante de cabeça num macaco. Funcionou... mas o animal só viveu oito dias. Segundo Canavero, hoje em dia já existe uma forma de resolver o problema que White não conseguiu solucionar: fazer a ligação da espinal medula, a auto-estrada de fibras do sistema nervoso que parte do cérebro para o resto do corpo e é responsável pelos nossos movimentos.

O segredo está no corte, explicou numa palestra associada à organização TEDex. Numa lesão da espinal-medula, por exemplo num acidente, o corpo experiencia uma força de 26 mil Newton (N). Já no corte, que tencionam fazer com uma lâmina de diamante, será de 10 N. A diferença entre uma banana ser completamente esmagada e ser cortada ao meio de forma tão precisa que é possível ressuscitá-la, exemplifica no vídeo disponível no YouTube. Serão depois usadas micropartículas selantes para promover a fusão. O dador teria de ser um doente em morte cerebral, sensivelmente com o mesmo peso e histocompatível, e Canavero adianta que encontrá-lo não será mais difícil do que acontece em qualquer transplante de órgãos.

Bastaria que fosse alguém saudável e sem doenças neurológicas. Após a intervenção, o doente permaneceria anestesiado durante três dias mas ao acordar teria a mesma voz e conseguiria andar no espaço de um ano.

Os artigos que Canavero tem publicado incluem mais pormenores, incompreensíveis para leigos. No entanto, os especialistas que o leram duvidam que vá longe, levantando dúvidas sobre a ligação da espinal-medula e alertando para a elevada probabilidade de o corpo rejeitar a cabeça. E depois há as dúvidas éticas. Um homem do qual restasse apenas a cabeça no corpo de outro seria a mesma pessoa? Onde está a natureza humana? Canavero acredita que a sociedade está preparada para esta quimera que poderá aliviar o sofrimento de muitas pessoas e diz que, se tiver êxito, tenciona reformar-se e dar lugar a outros. Na megaoperação só gostava de ter uma função: fazer a junção das duas pontas de medula. Chamam-lhe Dr. Frankenstein, referência que aliás usa sem pruridos nas suas explicações. Até gosta, confessa, porque antes dele foi o nome que deram a outros visionários da medicina regenerativa, como Robert White. “Só costumo dizer que sou o Frankenstein júnior, meço 1,70 m.”

 

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