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História do genocídio não começa com os judeus mas com o mais antigo povo cristão do mundo, os arménios

História do genocídio não começa com os judeus mas com o mais antigo povo cristão do mundo, os arménios

Diogo Vaz Pinto 14/04/2015 19:18

Há cem anos, o Império Otomano iniciou o massacre de 1,5 milhões de arménios e até hoje a Turquia não só não pede desculpa como manda prender quem disser que se tratou de um genocídio.

É possível empatar a consciência até que o passado se dissolva noutro capítulo negro, pesado, mas convenientemente adormecido nos manuais de História para não causar desconforto nem povoar de fantasmas a boa consciência de um povo. Os turcos não querem ouvir falar no que os seus antepassados fizeram em 1915 à comunidade arménia, que pagou o preço mais alto nos dias que viram o fim do Império Otomano. A primeira arma da hipocrisia passa frequentemente por abandonar os factos e levar o debate para questões de semântica. Assim, quando o Papa Francisco celebrou no domingo uma missa especial para assinalar o centenário do “primeiro genocídio do século xx”, o governo de Ancara sentiu-se obrigado a reagir, garantindo que as declaração do chefe da Igreja Católica tinham levantado “um problema de confiança”. Não só isso, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Mevlut Cavusoglu, achou-se no direito de dizer ao Papa que “as autoridades religiosas não servem para incitar ao ressentimento e ao ódio com alegações infundadas”.

Os dirigentes muçulmanos turcos não negam o massacre dos arménios, mas encaram-no apenas como outro episódio turbulento de uma guerra que, entre tantas outras consequências, determinou o desmembramento de um outrora poderoso império. O que é certo é que nas vésperas da Primeira Guerra Mundial, de acordo com dados recolhidos, por província e distrito, pelo Centro de Estudo para o Holocausto e o Genocídio da Universidade do Minnesota, mais de 2 milhões de arménios viviam ali em 1914, e essa comunidade viu-se reduzida a menos de 400 mil em 1922. O súbito declínio da comunidade não passa por nenhum mistério. Os historiadores comprovaram que cerca de 1,5 milhões de  pessoas da mais antiga comunidade cristã foram mortos pelos turcos otomanos, um crime contra a humanidade que nunca mereceu da Turquia nem pedido de desculpas nem muito menos algum tipo de reparação. Pelo contrário, o que este país não cessou foi de financiar uma enorme campanha de negação do genocídio, alegando que as marchas de morte não passaram de meras “deslocalizações” exigidas devido a necessidades militares e que os massacres foram obra de alguns “funcionários indisciplinados”. Entretanto, o que a versão oficial das autoridades turcas não apaga são os testemunhos do desvio do curso do rio Eufrates por causa da quantidade de cadáveres atirados às suas águas. O esforço para calar o assunto é de tal modo sério que ainda hoje na Turquia falar do que se passou em 1915 como genocídio dá direito a cadeia. É uma daquelas noções que por si só são entendidas como um crime, porque “insultam a identidade turca”, como previsto no artigo 301.o do Código Penal.

Em “A Peace to End All Peace”, num relato dos eventos da Grande Guerra amplamente reconhecido, David Fromkin conta que “as violações e os espancamento se tornaram comuns”. “Os que não foram executados foram conduzidos através de montanhas e desertos, sem comida, água ou abrigo. Centenas de milhares de arménios sucumbiram ou foram mortos.” O termo “genocídio” só foi inventado muitos anos depois, mas foram os relatos destes acontecimentos que levaram o homem que o cunhou, Raphael Lemkin – um advogado judeu de origem polaca –, a iniciar a sua investigação às tentativas de eliminar um povo inteiro. O Papa Francisco sublinhou a relação entre o “massacre inútil” dos arménios e “o nazismo e o estalinismo”, lembrando como no século passado a humanidade viveu “três tragédias sem precedentes”. Depois de ter insistido que “esconder ou negar o mal é como permitir que uma ferida continue a sangrar sem se tratar”, ontem o pontífice argentino aprofundou a questão e deu-lhe seguimento até à actualidade. Francisco referiu-se à “loucura bélica” em que se vive e como “ainda hoje, após o segundo fracasso de uma guerra mundial, se pode falar numa terceira guerra, travada de forma fragmentada, com crimes, massacres e destruição”.

Os avisos do Papa surgem num momento particularmente tenso na convivência entre o cristianismo e o islamismo, não apenas pelos atentados terroristas no Ocidente mas especialmente pelas pessoas “que, devido à sua fé em Cristo ou à sua origem étnica, são publicamente e impiedosamente condenadas à morte – decapitadas, crucificadas, queimadas vivas – ou forçadas a abandonar a sua terra natal”. 
Os dirigentes otomanos não recorreram a uma “indústria da morte”, não usaram câmaras de gás, mas não foi por isso que se saíram pior no esforço para se livrarem de uma comunidade que tinham como incómoda. Na sua maioria os homens foram massacrados, as mulheres, crianças e velhos foram levados nas marchas de morte pelas zonas mais inóspitas, desertos em regiões de que hoje se voltou a ouvir falar porque entretanto caíram nas mãos dos militantes do Estado Islâmico. E foi precisamente o colapso do último califado que esteve na base daquele genocídio.

O líder do Império Otomano era também o califa, ou seja, o chefe da comunidade islâmica. As minorias religiosas, como os arménios, cristãos, eram toleradas e tinham o direito a manter as suas estruturas religiosas, sociais e legais, um privilégio pelo qual pagavam por exemplo com impostos adicionais.

Concentrados em grande parte no Leste da Anatólia, muitos arménios viviam do comércio enquanto outros eram industriais e, uma vez mais, segundo os historiadores, foram o êxito e a relativa abastança que fizeram a sua má fama junto dos vizinhos turcos, na sua maioria camponeses ou funcionários governamentais e soldados mal pagos. Assim, o império que sucedeu ao Império Romano, na viragem para o século xx estava a ruir a partir das margens, com as revoltas dos súbditos cristãos no Norte, tendo perdido vastas áreas de território nas guerras dos Balcãs (1912-1913), e mesmo no seu seio aumentava a discórdia, com os movimentos de intelectuais árabes nacionalistas a porem em causa a união em Damasco e noutros pontos.

O que há cem anos se desmoronava é uma realidade a que os ultra-radicais sunitas que autoproclamaram um califado em amplas faixas dos territórios entre a Síria e o Iraque ambicionam reconstruir. E é esse vínculo com o passado que o presidente sírio, Bashar Al-Assad, tem denunciado, uma vez que a Turquia não só não ajudou a travar o avanço dos jihadistas como, segundo Damasco, tem financiado secretamente a sua implantação.

Em 1908, um movimento ambicioso, os Jovens Turcos, descontente com a lassidão das forças militares, tomou o poder com um desígnio essencial: modernizar e reforçar a identidade turca do império. Eram liderados por um triunvirato todo-poderoso, os homens que eram referidos como os três pashas. 
Em Março de 1914, os Jovens Turcos lideraram a entrada da Turquia na Primeira Guerra Mundial ao lado da Alemanha e lançaram-se numa campanha a leste, na esperança de capturar a cidade de Baku – o que teria representado um golpe desastroso para as forças russas no Cáucaso. Mas a batalha pela colina de Sarikemish foi uma derrota clamorosa para as forças turcas, um evento que se tornou uma espécie de trauma.

Os arménios da região foram acusados de se aliar aos russos e os Jovens Turcos lançaram uma campanha para os retratar como uma quinta coluna, uma ameaça ao Estado. Houve de facto nacionalistas arménios que colaboraram como guerrilheiros com os russos, tendo chegado a assumir por um curto período o controlo da cidade de Van, na Primavera de 1915. Tinham já acontecido massacres desta comunidade cristã em 1894, no ano seguinte e no que se seguiu a esse, voltou a haver em 1909, como alguns anos mais tarde estes se repetiriam entre 1920 e 1923. Mas a data que os arménios assinalam como início do genocídio é o dia 24 de Abril de 1915, quando as autoridades caçaram centenas de intelectuais arménios que inicialmente foram presos e depois executados. Apesar de se ter tratado de uma vingança e de uma perseguição que se prolongou, o período mais dramático terminou em 1917.

 

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