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Silence 4. Depois do fim sem aviso há uma nova última vez

Silence 4. Depois do fim sem aviso há uma nova última vez

13/03/2014 00:00
A reunião do grupo está marcada apenas para quatro palcos (o primeiro amanhã), com motivos especiais. Para assinalar o momento há uma nova colectânea à venda

Duas vozes, uma guitarra acústica, um baixo, uma bateria e dois discos de originais. Assim se escrevia no final dos anos 90 a curta história de uma das bandas portuguesas mais bem-sucedidas de todos os tempos, os Silence 4. Treze anos depois do fim do grupo, David Fonseca, Sofia Lisboa, Tozé Pedrosa e Rui Costa voltam a encontrar-se para reviver o passado musical a quatro, novamente com prazo apertado e com a fórmula numérica de sempre: quatro. Neste caso, para a quantidade de concertos marcados.

A justificação para a forma quadrada do regresso está no facto de ser um encontro único para celebrar a vitória de Sofia Lisboa sobre a leucemia (do valor de cada bilhete vendido reverterá um euro para a Liga Portuguesa contra o Cancro). "A ideia da Sofia era que nós pudéssemos fazer uma comemoração e conseguíssemos ir a todos os sítios que, simbolicamente, podiam ter pessoas que gostassem de ouvir um último concerto dos Silence 4. Daí as ilhas [São Miguel e Funchal] terem sido uma opção clara, além do norte [Guimarães] e sul [Lisboa]", explica ao i, David Fonseca.

Ainda que curto, o reencontro enfrentou algumas dificuldades como a conciliação dos concertos com as agendas de todos os elementos nas suas vidas pós-Silence 4, até porque, diz Sofia Lisboa, nesta altura a reunião "não seria a prioridade na vida de cada um. Teve de haver concessões porque o motivo era mais forte". Por isso, começou tudo a ser planeado com algum tempo de antecedência. "A ideia já tem dois anos. Quando a Sofia ficou doente, ela disse que gostava, se conseguisse ultrapassar tudo aquilo, de reunir a banda para agradecer a todas as pessoas que acompanharam o seu percurso e chamar a atenção para outras pessoas com o mesmo problema. O ano passado ela liga-me e diz: "Olha, tenho carta-branca porque parece que consegui efectivamente ultrapassar isto." Foi a melhor notícia de todas e começámos a preparar os concertos muito lentamente... Eu estava no meio de uma tour, nessa altura, e disse "eu consigo fazer isto, mas tem de ser para o ano", o Rui também tinha que ver a agenda, o Tozé dá aulas numa faculdade, também teve de perceber como é que iria fazer isso, mas lá nos conseguimos todos cruzar para fazer estes concertos", conta David Fonseca.

Canções Além dos concertos o regresso dos Silence 4 faz-se também através do lançamento de uma caixa com três CDs e um DVD, que incluem os dois discos de originais "Silence Becomes It" (1998) e o "Only Pain Is Real" (2000), remisturas, versões ao vivo e outras raridades. Mas fica-se por aqui. Os inéditos que não foram gravados em estúdio na altura - e que são muitos, afiança David Fonseca - também não o serão agora. A razão é simples, houve canções que o grupo tocou que "não conseguiram chegar a lado nenhum" porque não houve tempo para isso e agora "não faria sentido entrar em estúdio para gravar, o que na prática seriam músicas novas, uma vez que esta reunião não pretende relançar os Silence 4", garante a dupla vocal da banda, desfazendo qualquer ilusão de um possível retorno ao activo do quarteto.

Nem mesmo o fim não anunciado do grupo há 13 anos seria suficiente para que o revivalismo se transformasse em saudosismo ou trouxesse a necessidade de encerrar oficialmente um ciclo dado como terminado. "Essa coisa de anunciar o fim das bandas parece-me sempre tão tola. Não percebo qual é a necessidade de dizer "afinal esta banda já não existe", como se houvesse um motivo. Não havia motivo nenhum. Simplesmente não estávamos juntos a fazer música", confessa David Fonseca. Até porque, acrescenta Sofia Lisboa, " o fim acabou por se instalar", depois de a banda ter feito uma pausa. "Na altura parámos, porque precisávamos de férias e estávamos saturados. E tínhamos vontade de fazer outras coisas." E é isso que voltará a acontecer quando passarem estes quatro concertos de reunião. "No futuro de cada um não se inclui o regresso da banda, porque desde o início a intenção foi juntar a banda para fazer este "revival", festejar este momento e continuarmos com a nossa vida. E alguns de nós já escolheram outros ramos. O David tem a carreira dele a solo, o Rui é músico e tem imensos projectos, o Tozé mais na área do ensino e eu vou começar agora toda uma nova aventura", refere Sofia Lisboa.

o reencontro A naturalidade que ditou fim do grupo é a mesma com que decorreram os ensaios, onde, e ao contrário do que chegaram a recear, as músicas voltaram a fluir espontaneamente sem serem necessários meses a fio para afinar uma máquina que afinal será sempre simples, sem arranjos adicionais. "A nossa banda é tão acústica que não temos nenhum elemento lá que tenha passado de moda. E a ideia sempre foi simples: se nós vamos tocar o nosso "cancioneiro" então mais vale tocá-lo como ele é e como as pessoas ainda o recordam", diz David Fonseca. O que, não inviabilizando algumas surpresas, ajuda na dura tarefa de selecção dos temas. "É sempre um momento difícil. No nosso caso ainda era mais porque é um encontro único. Há que escolher bem aquelas que mais representaram o que foi o sucesso na altura", refere Sofia Lisboa. A voz masculina do grupo completa e levanta um pouco o véu. "É provável que toquemos muitas canções do primeiro disco, porque foi esse que marcou essa geração e foi um dos discos mais vendidos de sempre da música portuguesa. Desse disco nós podemos cantar qualquer canção. As pessoas conhecem as canções todas."

O primeiro momento ao vivo deste reencontro foi um showcase no IPO, que funcionou acima de tudo como um "encontro emocional", mais do que um concerto. Ainda assim serviu de teste para os espectáculos que se seguem e para tomar pulso à receptividade dos fãs, como explica Sofia Lisboa: "Vi que há coisas que não mudaram. Os Silence 4 foram uma banda que uniu gerações. E verificou-se já isso no IPO também. Havia pessoas mais novas e outras mais velhas, mas sabiam todas as músicas, a história... E há catorze anos era assim." Num registo diferente, os próximos concertos, muito mais alargados em termos de público, geram, desde o seu anúncio, expectativas entre banda e fãs. "Não faltará, certamente, emoção nos próximos concertos", diz David Fonseca, que os antecipa como "uma grande festa": "Nunca nenhum de nós esteve nesta posição, em que vamos tocar uma coisa que está na memória das pessoas e em que vamos reacendê-la um bocadinho. As condições estão todas reunidas."

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