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Lula Pena. "É só uma voze uma viola, tem-se tendência a pensar que é uma coisa pobre, parca"

Lula Pena. "É só uma voze uma viola, tem-se tendência a pensar que é uma coisa pobre, parca"

24/05/2013 00:00
Depois de "Troubadour", de 2010, avisa-nos que tem novo repertório. Algumas cores surgirão em palco hoje, no CCB, em Lisboa, na companhia de Norberto Lobo

Arqueologia, arquitectura ou até futebol. Todas as hipóteses lhe passaram pela cabeça e nem punha a possibilidade de cantar - afinal, era uma coisa que fazia desde sempre. Acabou por seguir design porque o traço a interessava e a codificação também - mas os sons voltaram a intrometer-se e as mensagens passaram a vir envolvidas em canções; com a força do fado em "Phados", de 1998, e com a bossa nova, o flamenco e a chanson française mais presentes em "Troubadour", em 2010. No vazio entre os dois discos desiludiu-se com a indústria da música, repensou o caminho, mas voltou à carga e está a preparar um novo trabalho. Falámos com a cantora que sobe hoje ao palco do CCB. Da jardinagem que é novo ofício naquele refúgio nas Azenhas do Mar ao desenho, passando pelo som, que é importante - até na escolha de uma alcunha. Chamem-lhe Lula Pena.

Ouvi dizer que anda muito entusiasmada com a terra e a jardinagem.

Estava aqui a tentar tirar uns pulgões de uma roseira. Por isso é que me distraí um bocado com a hora. A natureza tem isto, o tempo passa a ser um pouco diferente.

É uma actividade que também ajuda na criação da música?

É tudo. Tudo é um todo e todas as partes influenciam. Acho que a jardinagem, a horta também. Na verdade basta ter uma planta em casa. O cuidar, o esperar, podar, o deixar florir acaba por nos situar num tempo que nos é mais natural.

E tem dado frutos?

Não muito, porque aqui o clima é muito agreste. É marítimo e nem tudo se dá, o sol queima bastante. Basta estar exposto a um vento de nortada e aquilo seca, mata. Têm de ser plantas de estirpe marítima.

Já está com o vocabulário muito profissional.

Não... é mais poético.

Hoje sobe ao palco ao lado do Norberto Lobo.

Já tocámos juntos no passado. E o facto de já termos tocado e sermos amigos, e querermos esse lado de falar tocando e tocar falando, ajuda sempre.

Gosta de partilhar o palco?

Partilho sempre o palco. A partir do momento em que toco sozinha, partilho com o público, os técnicos, toda a gente envolvida. Depois, esse diálogo mais musical que pode acontecer entre artistas, também gosto. Mas gosto de fazê-lo de uma forma mais espontânea e livre. Muitas vezes o palco não serve, pelo facto de ser um palco. É sempre bom e enriquecedor podermos dialogar com outro músico, conhecer a sua expressão, a respiração, a sua técnica. E que isso nos confronte com o nosso próprio trabalho e nos indique novos caminhos.

Algum dos dois discos estará aqui mais presente?

Já estou a trabalhar num novo repertório e estou muito empenhada nele. Oxalá pudesse ter mais tempo sem concertos para mergulhar nele completamente. E também não o quero revelar já porque ainda está a ganhar formas e pode mudar a cada dia - como a horta, pode vir uma tempestade e dar cabo de tudo. Acho que os concertos me são favoráveis porque é um pensamento em tempo real. Desde que toco o último disco, o "Troubadour", a tendência é sempre para tocar de forma distinta. Há sempre novas coisas que vão surgindo, novos personagens, novas intenções, sentidos, simbolismos. É uma construção constante.

E com que podemos contar hoje?

O que vai acontecer no concerto há-de ser sempre um resumo de tudo o que já fiz para trás, toda a memória exposta e o esquecimento. Claro que há um reforço maior do último trabalho, mas também referências ao fado do primeiro álbum, e vai haver uma nova abordagem, talvez cromática, ao novo trabalho. A ideia é conseguir respirar isso tudo num só golpe.

Entre a sua estreia em "Phados" e o seguinte "Troubadour" esperámos 12 anos. Quer dizer que o espaço de tempo se vai encurtar desta vez?

(risos) Sim, quer dizer, o que fez com que tardasse 12 anos não foi uma questão do meu trabalho mas da indústria, os contornos que sempre pede, exige. Foi um constante reconhecimento de como a indústria funcionava e eu fui tentando limar aquilo que me interessava, artística e poeticamente falando. Tardou esse tempo não porque eu tenha querido. Continuei a trabalhar, a cantar, a dar concertos - mais privados do que públicos -, mas ponderei a possibilidade de não o continuar a fazer.

Porquê?

Fui-me confrontando com várias decepções com a perversidade da indústria, o poder económico de determinados produtores e editores para manipular o acesso. A minha música do "Troubadour", por exemplo, suponho que não passe na rádio. Porquê, não sei. Talvez porque tem tempo excessivo e assim não há como divulgá-la. E depois é só uma voz e uma viola, as pessoas têm tendência a pensar que é uma coisa pobre, parca. Era uma decepção constante, mas depois não me desmotivou completamente, sempre o fiz. Hoje em dia, talvez haja mais opções para ir contornando este poder instalado. Não me parece que vá durar 12 anos; por mim, até o fazia já hoje. Sem contingências do está fechado ou não está.

Porque nunca está realmente fechado?

O que me dou conta é que as minhas composições são colagens de memórias, tanto individuais como colectivas, e tenho essa questão de como se pode criar uma terceira memória. Sempre a tentar dar--lhe vida. Porque mesmo baseando-se na tradição de um fado, tango, música popular, ela só pode existir se nós, vivos, contemporâneos, pudermos transformá-la, filtrá-la, codificá-la e dar a traduzir a um público. Isso faz com que o trabalho esteja sempre em aberto. Não consigo ver as coisas separadas. Sei que é uma loucura e podia facilitar-me o trabalho e ser mais funcional, mas não respiro a vida assim. Quero que a minha música seja sempre uma porta para algo. Uma espécie de matrioska, um ponto de partida para algo mais abrangente, mais livre. O mundo não é redondo por acaso.

Misturar as melodias tradicionais é um impulso ou algo pensado?

É uma coisa mais intuitiva. Da memória que tenho de vida: há coisas que vêm por si só, basta ter experienciado algo para que isso fique registado em mim, seja na memória do corpo ou mental. E depois é o jogo dos dois, mesmo na guitarra há uma memória física, os dedos esquecem--se, mas também se lembram por eles sozinhos. É um diálogo constante. A escolha não é muito racional. Às vezes, as memórias surgem quando menos esperamos. É assim que trabalho: crio um corpo estranho. A ideia é familiarizarmo-nos com essa estranheza. E seguir fazendo essa benesse entre o real e a arte.

Trabalha então na falta de método?

Talvez seja um método em si. É um ritual que se instala. Que a música tem essa vantagem, que é quase um ritual presencial. Estamos todos dispostos, tanto na escuta como na execução, a invocar algo sagrado. E eu sei que, muitas vezes, as pessoas estão disponíveis a fazer parte desse ritual. Acho que me interessa mais essa forma que ganha expressão, mais do que um formato, saber que é aquilo. E, nos tempos que correm, defender formas é o que está nas nossas mãos.

Como sente que as pessoas estão envolvidas, a entrar no processo?

É mais uma espécie de emanação, algo emana. São várias pessoas juntas, há uma atenção, um foco. Mas também depende de outras coisas: se não está muito frio, muito quente, se o som se ouve bem. Todos os detalhes são muito importantes nos concertos. A partir do momento em que aparentemente está tudo bem, sente-se essa emanação. Quando toco e canto, sinto que estamos a ouvir. Estou eu e está o público. Mas não são momentos que se tem sempre. Trabalho muito com o silêncio que têm os dois lados: da fragilidade e da força. Pode-se impor, ser partilhado ou, ao contrário, incomodar. Basta qualquer coisa num silêncio total para o lado mágico poder desaparecer.

Já deu concertos com mais músicos e só. Há diferença?

Essa escala humana de um para um, de eu sozinha no palco, interessa-me muito explorar. Acontecem coisas distintas e ambas as situações são enriquecedoras. A minha escrita é muito pessoal, solitária. A voz e a guitarra são dois animais com os quais tenho de conviver e adaptá-los ao meu contexto de quotidiano. E isso, por si só, é um circo de feras - ou de animais domesticados. Sinto que é possível existir mais verdade nessa escala de um para um.

Porquê?

É mais uma vez um desafio entre frágil e a força. Porque não há nada que nos possa amparar uma queda, um esquecimento. Tudo o que acontecer será visível, porque só há uma pessoa no palco. Acho que isso faz com que nos possamos aproximar mais uns dos outros. É como a televisão antigamente: podíamos assistir a entrevistas durante uma hora sem interrupções, tínhamos tempo - na altura em que tinham os napperons de croché. É essa escala que se vai perdendo e é uma escala que me interessa preservar enquanto ser vivo, essa coisa mais humana, nua, crua e simples.

Para o público, Lula Pena é música. Mas a verdade é que se formou em design.

Gostava dessa comunicação visual e ainda gosto. E o design gráfico interessou--me bastante: era a capacidade de sintetizar, com elementos gráficos, mensagens visíveis e outras invisíveis. Mas o grafismo evoluiu muito e ficou muito mais informatizado e, bom? não foi uma escolha racional. Os caminhos, entretanto, levaram-me para a música.

O lado do design continua a fazer parte de si?

Claro que sim. Vivemos num momento em que a produção visual é quase absurda, produzimos mais imagens neste último século do que em toda a história visual. Tenho muita vontade, até gostaria de o ter feito mais, e espero poder recuperar. Voltar a descobrir coisas com as mãos. O trabalho manual também é de uma grande importância e algo de que andamos um pouco afastados. Mas esse já é um assunto que não é ligeiro.

Houve um momento em que tivesse decidido tomar o caminho da música?

Não. Não queria. Sempre toquei, cantei e fazia experiências, sou autodidacta também. Queria ser outras coisas. Como cantava desde criança, não me ocorria ser uma coisa que já era. Desde a arqueologia, arquitectura, passando pelo futebol, quis muitas coisas. Mas a partir do momento em que vou percebendo que está tudo relacionado, não quero ser nada em particular porque posso ser muito mais do que isso. Não sei nada sobre assuntos específicos, mas sei um pouco de tudo. E isso interessa-me, pôr tudo em relação.

Tocou em vários locais antes de a coisa se formalizar. Como aconteceu?

O oficial acontece em Bruxelas. Eu já cantava, cheguei a cantar em Lisboa num sítio que se chamava Café Geronte. Era muito engraçado nos anos 90, tinha livros que podiam ser consultados e comprados, havia sempre música. Era um ambiente muito engraçado e cheguei a tocar lá. Criou-se uma movida de gente que vinha ouvir-me tocar às segundas-feiras e, na altura, cantava de tudo um pouco. Nas viagens continuei a fazê-lo, a título de prazer pessoal, também para estar com amigos. Mas depois deram-me a possibilidade de fazer um show case num clube de jazz mítico e eu fiz, e foi-me proposto gravar nessa noite. Não foi pensado, não foi reflectido, não estava à procura, mas aceitei. O que mudou em mim? Muita coisa. Toda a gente tinha uma responsabilidade e a minha era dedicar-me com outra atenção à música.

Foi assustador?

Foi mais exigente. A partir daí haveria datas, já não era cantar quando apetece. E há toda a indústria que se instala a partir daí. Um músico existe se for beneficiado pela indústria e pela imprensa; se não for, ele não existe, ou pelo menos isso era mais óbvio na altura. E tudo isso me tirou algum gozo e algum prazer. Por isso é que acabei por parar um pouco para reflectir.

Hoje já lida melhor com as exigências?

Lidar melhor é quase dizer que se aceita. Há exigências que não fazem muito sentido e há outras, nossas, que são ignoradas. Mas isso não passa só pelo músico. A mim, o que me interessa na música é, provavelmente, o que interessa ao padeiro no forno ou na farinha. Cada um de nós, ao estar disposto a sacrificar o prazer nesse desconhecido constante que é o dia de amanhã, seja em que actividade for? acho que isso é o que poderia mudar o mundo.

Lula Pena é pseudónimo?

Pena é o meu nome de família e Lula é um diminutivo. É de Maria de Lurdes. Mas está muito longe, não acho que tenha muito interesse. [Lula Pena] Parece um nome de uma banda, não é? Na altura, lembro-me de que suscitou alguma confusão.

Era com esse nome que se sentia mais confortável?

O Lula surge numa viagem de comboio em que eu era a única pessoa que tocava guitarra e cantava. E, de repente, várias pessoas se reuniram em conselho para procurar outro nome, porque Lurdes não era muito fácil. Foi muito divertido, havia sugestões de tudo e mais alguma coisa. E Lula? identifiquei-me, não pensei no animal, só pensei no nome. E até então, eu, que era Lurdes Pena, passei a ser Lula Pena. Para a malta estrangeira, também soa mais uniformemente. O nome passa a ser uma referência sonora.

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