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Teolinda Gersão. "Há experiência humana que só está na literatura"

Teolinda Gersão. "Há experiência humana que só está na literatura"

07/04/2014 00:00

Uma família com as suas zonas de sombra, uma escada de gerações às voltas com a memória, um dos lugares da literatura. São “Passagens” do tempo, dos afectos, numa coreografia de notas em tudo semelhante a uma partitura. Maria Ramos Silva conversou com a compositora desta narrativa 

Conto, diário ficcionado ou romance. O género responde sempre à região do inconsciente e a um sistema como a família, célula-mãe deste mundo em constante mutação. Em 1995, Teolinda Gersão, 73 anos, que foi docente na Faculdade de Letras de Lisboa e professora catedrática da Universidade Nova de Lisboa, passou a dedicar-se à escrita em exclusivo. Recebe-nos no luminoso escritório no Chiado, algumas décadas depois de começar a escrever numa mesa de campismo em casa.

 

Contava-nos como há muitas memórias familiares neste escritório.

Trouxe para aqui alguns móveis da casa da minha mãe. Os netos gostam muito. Dizem para não mexer. O espaço começou por ser a minha biblioteca. Mudámos para uma casa muito mais pequena, onde não tínhamos espaço para os livros. Começaram a expulsar-nos. Assim também é bom poder isolar-me, não tenho net neste computador, trago o telemóvel mas desligo-me de tudo.

Consegue escrever desligada desse mundo?

Qualquer dúvida vejo na internet em casa. As enciclopédias da internet não têm muitos erros, informam quando as fontes não são verificadas. São praticamente como os outros dicionários, é preciso é saber usá-las. Hoje o essencial é ensinar os miúdos a digerir a informação e a orientarem-se num mar como este. Mas aqui a internet distrai-me muito, e a ideia é trabalhar.

Continua a recorrer ao livro físico, até pelo enquadramento histórico de algumas obras?

Os meus livros nunca são históricos mas em “A Cidade de Ulisses” obviamente que investiguei coisas sobre a história de Lisboa e da cultura portuguesa, e claro que tenho obras que não dispenso. Mas a internet é muito boa. Já não sabemos funcionar sem ela.

Usa muito o Facebook.

Uso, é um bom espaço de partilha, de reencontro, de pessoas que andaram comigo na escola, de amigos de outros países, do feedback dos leitores. É uma maneira de saltar certas barreiras. Há jovens escritores que não encontram editora, fazem um blogue e encontram leitores. As redes sociais podem ser muito positivas.

Foi fácil começar a editar?

Comecei a escrever muito cedo, escrevo desde a escola primária.

E tem um livro lançado aos 14 anos.

É, mas isso foi um fait divers, de edição de autor, para os amigos. Tive depois a consciência de que tinha sido errado publicar um livro tão cedo. Não tinha valor literário. Ainda tinha que ler muito, escrever muito, aprender muito, para encontrar a minha própria voz. Foi isso que fiz. Escrevendo sempre, mas sem publicar, apenas esporadicamente. Escrevia para a gaveta. Quando saiu o “Silêncio” já tinha um doutoramento, filhos pequenos, já tinha vivido no estrangeiro. Já tinha uma grande bagagem. Fui uma privilegiada. Berlim era um centro cultural fantástico.

Cursou Germanística.

Fui para Germanísticas e sempre tive também uma grande ligação à cultura francesa. O meu pai tinha uma grande biblioteca de livros franceses, havia uma certa tradição. Li a “Madame Bovary” dez vezes, com 13 ou 14 anos. Lembro-
-me de ficar deslumbrada. Era um livro meio escandaloso.

Era permitido ler em casa?

Sim, davam-me liberdade total de escolha. Li o Eça, “O Primo Basílio”, o Machado de Assis. Nunca me fez confusão, mesmo quando não percebia alguma palavra. Também aprendi com a literatura brasileira, riquíssima. A língua portuguesa tem uma grande flexibilidade, por isso não acredito em uniformizações do que não é uniformizável, e acho o acordo um absurdo. Seria uma gota de água num oceano de diferenças.

Sem essas viagens para lá de Coimbra o seu campo de visão seria outro?

Sim, não chegava. Foi muito importante ter ido estudar para a Alemanha. A partir da Alemanha tive uma visão diferente de Portugal. Antes de sair, e estávamos debaixo de uma ditadura, achava que lá fora é que era. Só tínhamos defeitos. Depois percebi que não era assim. Vi as nossas qualidades. Foi muito enriquecedor. Berlim era uma cidade dividida ao meio por um muro. Íamos ao outro lado ver como era o comunismo. Foi elucidativo de uma maneira negativa. Não era nada daquilo que queria para o meu país, embora rejeitasse totalmente a ditadura.

Nessa altura estava longe de pensar na escrita como única actividade?

Não, sempre pensei que era isso que queria fazer mas como queria ter total liberdade para escrever não queria viver disso. Sempre senti que era preciso ter uma profissão, até porque o mundo do trabalho nos ensina muito. Gostei muito de ter sido professora universitária. Tive alunos fantásticos, como a Alice Vieira, o Gustavo Rubim, a Adília Martins de Carvalho, o Joaquim Manuel Magalhães, o Abel Barros Baptista, a Helena Barbas, o Jorge Leandro, o Armando Nascimento Rosa. Sempre quis conseguir só escrever a uma altura da vida, e daí deixar o ensino cedo, em 95, para ter tempo.

Como se organizava antes?

Havia sempre interrupções ou estava tão stressada que preferia pôr os livros, sobretudo os romances, na gaveta e escrevia só no Verão. Demorei muito tempo também a conseguir o meu espaço para me isolar. Vivemos muitos anos numa casa pequena e escrevi muitas vezes na mesa da cozinha, numa mesa de campismo que punha no quarto entre a cama e a janela, e na Biblioteca Nacional. Os meus primeiros livros foram escritos em condições péssimas.

Com as filhas em redor?

As crianças tinham de estar na escola, senão era impossível. Depois também há aquela coisa muito feminina do sentimento de culpa. Aquela coisa de estar mergulhada no trabalho, as crianças traduzem que não gostamos delas. Só comecei a publicar quando já eram crescidas. Mas nas bibliotecas era complicado porque as pessoas falam muito. Estorva mais que num café. Faltava-me privacidade. No café havia barulho mas concentrava-me melhor. Estava no meu mundo.

Quando se sentava o esboço já vinha consigo?

Normalmente as coisas andam muito tempo na minha cabeça. Se é um conto escreve-se em pouco tempo. Um romance por vezes leva anos e torna-se uma obsessão que levamos para todo o lado. Mas durante muitos anos foi difícil conciliar o trabalho com a vida de família e a escrita, ou a música.

Aprendeu piano.

Sim, como hobbie, e acho que todos deviam aprender alguma actividade. Alarga-se os horizontes.

Reflecte-se na escrita, além de “Os Teclados”?

Sim, a música é uma construção, uma arquitectura. Gosto de ver como os compositores escreveram as partituras, gosto de as ter e de as estudar, ver aquela forma de linguagem. É parecido com a literatura.

Ainda toca?

Tenho uma clavinova, e só toco com auscultadores e cavilhas, para não incomodar ninguém. E todo pelo prazer de “descodificar” as partituras, e perceber como estão construídas. Sobretudo músicos como Bach ou Beethoven. 

Um processo que se nota no exercício que os seus livros nos pedem, entre zonas opacas e o propósito de iluminar um certo conhecimento?

A música tem a ver com o tempo, tal como a narrativa. Procuro que os textos tenham um ritmo e uma fluidez tão natural como acontece na música.

Parece apelar a um tempo sempre anterior, não só cronológico mas como referência a uma certa bagagem de memória, como neste “Passagens”.

Sim, porque a literatura também é um lugar da memória, onde tentamos fixar aquilo que passa, que é o tempo. Está sempre em movimento e há experiência humana que só está na literatura e não está em mais lado nenhum, como a filosofia, ou a história das ideias. A nossa memória está sempre em transformação. Um acontecimento lembrado é sempre uma chave para o que veio antes e vem depois. É a passagem do tempo e o movimento de nós próprios que me interessa, muito presente neste livro, que é a história de uma família, com zonas de sombra.

Trata muitas destas zonas.

Acho que pertenço à família dos escritores do inconsciente. Essa mistura daquilo que sabemos e não sabemos ou só fragmentariamente, ou que sabemos e era falso, o que ouvimos dizer. Toda essa dinâmica é sempre algo sistémico. Uma família é um sistema composto por várias gerações. E os nossos actos repercutem-se nas gerações seguintes. É bom ter consciência disso. Se calhar estamos mais atentos. As coisas que nos aconteceram nunca estão definitivamente fechadas. Podemos sempre voltar às boas, por exemplo. Uma grande história de amor nunca acaba. O que nos acrescentou passa a fazer parte de nós. A memória pode ser uma fonte de força e de vida. Compete-nos saber o que podemos fazer na nossa medida pequena para deixar um mundo melhor.

Pelos livros também?

A literatura não é uma varinha mágica, mas como cidadãos podemos ter força e acho que conseguiremos mudar a mentalidade, e com ela a sociedade. Esta crise fez-nos acordar para esta ideia de que fomos nós que pagámos os grandes crimes económicos. Temos alguma força como opinião pública.

Sobre as mudanças, há muitos anos em entrevista dizia que não gostava dessa coisa de “escrita de mulheres”. Ainda a associam a isto?

Nunca tive nada contra o facto de se estudar como e sobre o que escrevem as mulheres, agora, no início, senti que havia uma certa discriminação. As mulheres têm sempre muito mais dificuldade em se afirmar no mundo do trabalho, social, político. Independentemente disso, sempre foram consideradas seres inferiores. Mas começámos a falar, a fazer, e escrever. Há um certo preconceito dos editores também. Confiam mais nos homens. No início senti que essa discriminação era uma nova estratégia para dizerem que o que escrevíamos era de segunda categoria. Ah, elas falam da casa, dos filhos…

Com se fossem assuntos menores?

Provou-se que o mundo da casa e das crianças é o grande mundo, de onde os homens escaparam por comodismo. Até aí estavam muito felizes por entregar todo esse mundo às mulheres. O mundo dos afectos, familiar, com todas suas definições, é essencial. Sem ele adoecemos. Sempre achei que os homens sabem fazer o mesmo que as mulheres. Quando são pagos e têm projecção social, são chefes, alfaiates, pediatras [risos]. Um livro é bom ou é mau. Homens e mulheres complementam-se.

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