Poucos conheciam Giuseppe Galderisi quando chegou em Janeiro para substituir Paulo Alves como treinador do Olhanense. O italiano de 51 anos nunca orientou um clube da Série A, mas a sua carreira de jogador faria inveja a muitos. Esteve na fantástica squadra do Verona campeã em 84/85, levou o Padova à primeira divisão 32 anos depois, jogou no México-86, no histórico Milan da década de 80 e estreou-se na Juventus com 15 anos. Uma vida que o levou agora ao Algarve, que lhe faz lembrar a sua terra natal, Salerno. Como dizia a música de Toto Cucugno, Galderisi é um "italiano vero", expressivo, com todo aquele falatório de mãos que nos ajuda a compreender o que quer dizer. E a sua estória vale bem a pena. Enquanto luta para não descer, amanhã o Olhanense arrisca-se a estar na festa do título do Benfica. O treinador italiano diz que já viu tudo no futebol e por isso acredita num pequeno milagre.
Sonhou jogar futebol desde pequeno?
Sim, tive a sorte de iniciar a carreira muito jovem e no clube do meu coração, a Juventus. Quanto tinha 10, 11 anos, brincava com os cromos de jogadores que aos 14, 15 anos já eram meus colegas. Aos 15 estreei-me na Taça de Itália, aos 16 na Série A. Foi um momento muito importante como jogador, mas sobretudo como homem. E tinha colegas como Zoff, Cabrini, Tardelli, Rossi, Platini, Boniek, o melhor do futebol italiano, como pessoas, homens e profissionais.
Foi para Turim com 13 anos. Foi muito difícil deixar a sua família?
Foi uma fase muito delicada. No meu coração, na cabeça, tinha a ambição de ser um grande jogador. Mas era muito pequeno. Quando penso hoje, como pai, em ter um filho de 13 anos a mil quilómetros de distância, dá-me vontade de chorar. E eu chorei, porque sofri com a falta da minha família, dos amigos.
O seu pai encorajou-o a ir, a sua mãe chorava...
O meu pai ia assinar o contrato com a Juventus, a minha mãe fazia assim [gesto de puxar o braço do marido], e dizia--me "não vás". Eu chorava e dizia "mãe, eu quero ir". O meu pai infelizmente já não está entre nós, mas a minha mãe ainda hoje me vê como o miúdo pequeno que não volta a casa e passa o ano inteiro a perguntar: "quando vens?"
Como era o seu dia-a-dia em Turim?
Estava num colégio a 60 quilómetros de Turim. Era o quartel-general para os jovens da Juventus. Eu sou de Salerno, a 50 quilómetros de Nápoles, o meu companheiro de quarto era da Sardenha. Comíamos todos juntos, 40 rapazes, de toda a Itália, com cultura, educação, mentalidade, ambição e qualidade diversas. A minha família sustentava-me, a minha nova família, da Juventus, fazia-me crescer. Até o Trapattoni me dizer que eu tinha de ir trabalhar com a equipa principal. Tinha 15 anos. Então ia à escola, depois fazia uma hora de autocarro sozinho para treinar com a equipa principal, mais uma hora de autocarro para regressar. Para dizer a verdade a escola era dia sim, dia não, já regressava cansado. Acabei por ir viver para Turim, porque andava sempre para a frente e para trás. E comecei uma fase muito importante na minha vida porque estava numa grande cidade, muito jovem, e já era um pouco famoso porque jogava na Juventus.
O que aprendeu com Trapattoni?
Trapattoni foi para mim um pai. Dava-me uma bofetada quando não me portava bem e carinho quando precisava de carinho. Treinava com a equipa e depois trabalhava comigo para melhorar o pé direito, o esquerdo, os movimentos. Ensinou-me muito, foi importantíssimo. Na minha vida de jogador tive muita sorte, trabalhei com os melhores de Itália: Trapatonni, Bagnoli, Sacchi, Cappelo, Bearzot. Quando entro num balneário e falo com os meus jogadores, posso tentar dizer qualquer coisa de valor, mas a primeira coisa que quero que percebam de mim é que sou uma pessoa correcta, leal. Não há jogadores mais importantes que outros. Com Bearzot (ex-seleccionador italiano), por exemplo, se às duas da noite não estivesses a dormir não te gritava "o que fazes? tens de dormir". Não. Ia ter contigo, fumava um cigarro e falava. Creio que a cumplicidade entre jogador e treinador é a melhor forma de ganhar respeito. Eu não te devo trair, tu não me deves trair. Ou seja, os jogadores podem errar, os homens não. Um grande homem torna-se um grande jogador. Um pequeno homem pode ser também um grande jogador mas faz um ou dois anos e acaba. Os jogadores com quem cresci duraram 15 anos na Juventus e venceram sete scudetti. Venceram sempre. Porquê? Porque eram homens.
Recorda-se da estreia na Série A?
Sim, Perugia 1980. Eu e o Gabriel Pin éramos os mais importantes dos juniores e como havia alguns jogadores de fora Trap levou-nos. Estávamos no mesmo quarto e passei o tempo a sonhar com a chamada de Trapattoni: "Nanu, aquece." Em Itália chamam-me Nanu porque sou pequeno, mas também significa esperto, rápido, astuto. Esperamos, esperamos, o jogo em Perugia estava 0-0 e o Trapattoni diz-me "aquece". Estive muito bem, fiz 20 minutos, joguei como sempre, com muita serenidade. Um dos elogios que os treinadores me faziam era que eu fazia sempre alguma coisa. Não sofria o jogo, vivia-o. É isso que digo aos meus jogadores, não é importante contra quem jogam, se é o Benfica ou o Real Madrid, o importante é serem protagonistas. É quererem fazer.
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Sou uma pessoa correcta. Em Portugal não me conhecem como em Itália, e agora leio coisas que me fazem mal. Eu entendo que sou italiano mas não sei se hei- -de rir ou chorar com o que vi [artigos a dizer que Galderisi "vai cansar o Benfica" antes da Juventus]. É uma ofensa. Ligaram-me do "Tuttosport", um dos jornais mais importantes de Itália, e de uma rádio. Mas, se me ligarem vocês que estão em Portugal e me perguntarem como é a Juventus, eu respondo. O Benfica é um dos melhores da Europa, eu disse que a Juve teve azar porque foi a pior equipa que lhe podia calhar. Perguntaram-me se eu ia cansá-los e eu na brincadeira disse que sim. Parece que foi a única coisa que disse. Sei que não é bonito para um adepto do Benfica que leia isso. Se puder esclarecer isso, eu agradeço. Porque é preciso conhecer o Galderisi.
Com 19 anos fez um hat-trick ao Milan...
Foi a 14 de Fevereiro de 1982, lembro- -me porque era o Dia dos Namorados.
O presidente Boniperti disse "Galderisi faz golos como Zoff defende". Como foi ouvir este elogio?
Sabes o que o Boniperti me disse a sós? Vai já cortar o cabelo, não quero tatuagens nem brincos. Dizia-me sempre a verdade e o que fazer para não errar. No dia anterior estava num torneio importante em Viareggio. Trapattoni disse-me "vai jogar na sexta e depois logo se vê". Fui com a equipa de juniores, voltei, o Trapattoni chamou-me e de repente estou a titular com o Milan. Fui a Viareggio, voltei e fiz três golos. Trapattoni diz sempre que graças à loucura daquele jovem tivera a sorte para ganhar o scudetto. É uma das mais belas histórias da minha vida. Na Juve estava no banco, via Cabrini, Scirea, Bettega, Rossi, e pensava "nunca vou jogar". Mas no futebol, quando se acredita, surgem as oportunidades.
E depois é campeão em Verona, um feito incrível.
É como aqui o Olhanense ser campeão. O Verona é um clube importante mas não é a Roma, o Milan, a Juve... Fui ter com o Boniperti e disse-lhe "Rossi, Bettega, eu aqui não vou jogar, deixe-me sair". Mandou-me para Verona. Foi a minha sorte. Joguei sempre em três anos e cheguei à selecção. Na pré-temporada falámos em evitar a despromoção. Os estrangeiros que chegaram eram o Briegel (alemão) e o Elkjaer (dinamarquês), era uma boa equipa mas... ninguém pensava que podíamos ganhar. Ganhámos na primeira jornada e estivemos sempre em 1.o até ao fim do campeonato. Foi um milagre. E porquê? A Juventus tinha Platini e Boniek, o Nápoles Maradona e Bertoni, a Roma Falcão e Cerezo, a Fiorentina Sócrates e Passarella, todos tinham dois jogadores importantes. Éramos 17 jogadores, não 30. Elkjaer esteve fora três meses. Vencemos o campeonato com 17 jogadores! No Padova, juntamente com os meus companheiros, levámos o clube à Série A 32 anos depois. Por isso cada etapa da minha carreira, com os ensinamentos da família Juventus, me permitiu ser melhor e um ponto de referência para os jovens.
É verdade que recusou um convite de Trapattoni para jogar no Inter?
Quando Trapattoni me ligou para ir para o Inter, porque faltava um avançado, disse imediatamente que ia. E depois pensei "sou um jogador mais importante aqui [Padova] e tenho algo a cumprir". Liguei-lhe e disse: "Chora-me o coração mas como posso sair daqui?" Todos me diziam: "És um estúpido, ficas na Série B e não vais para o Inter?" Talvez por isso os padovanos me têm no coração. Não pensei no dinheiro nem em nada. Cheguei à Série A e depois saí. O futebol é assim. As coisas podem mudar mas aquilo que deste a um grupo, a uma cidade, não se pode apagar nunca.
Depois acaba por chegar à selecção de Itália e jogar no México-86.
Era o sonho da minha vida. No primeiro jogo do Mundial eu estava em campo. Galderisi jogava, Rossi não. Era o melhor marcador de 1982, isso diz tudo. Tínhamos uma equipa forte, muitos jovens e alguns campeões do mundo. Mas quando tens um sentimento negativo no balneário qualquer problema pequeno se torna maior. Estávamos a ganhar 1-0 à Bulgária e sofremos o 1-1 pelo Sirakov, de cabeça, aos 85 minutos. Ficou a imagem de uma equipa azarada. O caso ensinou-me uma coisa: a sorte sabe por onde deve andar. Às vezes diz-se "equipa com sorte", "equipa azarada". Não, a equipa com sorte tem uma mentalidade positiva e quando a bola bate no ferro entra. Na outra, a bola bate no ferro e sai. Isto é a vida do futebol.
Diz-se que a sorte dá muito trabalho.
Se trabalhas bem e estás perto do teu colega, e têm força como grupo... o futebol não é só ter cabeça para ouvir Madonna ou Prince antes do jogo. É preciso falar, estar juntos, viver. Porque em campo só vi um vencer sozinho: Maradona. Os outros precisam de todos, de ser um corpo único, uma só força.
Jogar o Mundial foi o ponto alto da sua carreira?
Para mim não é importante o ponto alto ou o ponto baixo, é importante aquilo que obtive: em Padova, da Série B para a A, era impensável; em Verona, o scudetto, uma coisa nunca vista; em Turim três scudetti e uma Taça de Itália. Enfim, tantas pequenas coisas que valem um Mundial... Falando a um nível profissional, jogar um Mundial é o top, não há nada acima. Mas não fiz um golo. Altobelli quatro golos, Galderisi zero. Eu corria, ele marcava. Ele dizia-me "bravo, percebeste tudo, continua a correr". Era como o Platini e o Bonini. O Platini dizia--lhe "corre, corre, corre, quando tiveres a bola vê onde estou, dá-ma e está feito".
Verona e Pádua, sente que é uma pessoa amada nestas cidades?
Sim. Repara, em Maio de 2013 o Verona festejou 110 anos. O clube tinha ganho a Série B no domingo, na segunda fez uma festa com todos os jogadores. A Arena de Verona, maravilhosa, estava cheia. Quando chegaram os jogadores que tinham vencido no dia anterior ouviram--se aplausos. Quando chegámos nós, que tínhamos ganho há 30 anos, a arena veio abaixo. Tu ficas a pensar o que podes ter deixado a essas pessoas. Em Pádua o mesmo. Um ano depois do Mundial estava na segunda divisão. Louco, só um deficiente faria isso. Só fiz um golo, mas quanto corria... ainda hoje os adeptos da Lazio me aplaudem. Isto para mim é uma satisfação. Do futebol podem-te restar recordações, dinheiro, mas o que fica verdadeiramente é aquilo que criaste e vais colher.
E ainda jogou no histórico Milan da década de 80...
A primeira vez que Berlusconi se apresentou apareceu de helicóptero. É uma grande pessoa, um vencedor. Uma vez estava eu e o Donadoni em Barcelona, a passear, e ele disse-nos "eu vou fazer com que esta seja a equipa que ganhe mais no mundo". Em 20 anos venceu tudo. Tinha jogadores como Maldini, Baresi, Hateley e Wilkins. Depois chegaram Rijkaard, Van Basten, havia Ancelotti, Massaro, Donadoni, Galli, jogadores importantes. Mas eu fui parar à Lazio. As voltas que a vida dá. Quando o Milan começou a ganhar eu estava na Série B. A Lazio tinha uma grande equipa mas Sacchi ganhou tudo no Milan.
Falemos do presente. Como está a ser a experiência no Olhanense?
Eu digo sempre o que penso mas nunca o escrevem. Quando Campedelli me ligou para vir para cá, eu olhei para a classificação (penúltimo lugar). Não conhecia o futebol português, conhecia o Benfica, Sporting, Porto, Estoril. Não conhecia a mentalidade mas disse logo que sim. Quando cheguei aqui, foi na ponta dos pés. Sem dizer que venho do calcio. Venho para aprender o vosso "calcio". Estou a crescer, só me faltam três ou quatro pontos neste momento, que merecíamos nalguns jogos. E falta-me ver a gente de Olhão feliz, não só pelo trabalho que fazemos, mas também por manter o sonho da Liga. O futebol é feito de resultados. Se ganhássemos mais estávamos melhor. Em cada jogo podemos falhar mas há algo que nunca falta: o empenho e o respeito pela camisola.
Ouvi dizer que as pessoas do Algarve lhe recordam Salerno.
Sinto-me verdadeiramente em casa. Sento-me no centro de Olhão, falo com os anciãos que me contam a história do Olhanense, bebo café com eles, gosto de falar, de viver em Olhão. É uma cidade de pescadores, como o sítio onde nasci. É gente verdadeira, educada. Até ao último minuto do campeonato vamos dar tudo para ficar na Liga. Se correr bem, serei o homem mais feliz do mundo pela gente de Olhão. Se as coisas correrem mal, encará-los-ei nos olhos.
Faltam três jogos, vai defrontar Benfica e Porto. Acredita na manutenção?
Se não acreditasse ficava em casa. Já vi coisas impossíveis no futebol. Jogar na Luz é muito, muito difícil. Uma das melhores equipas da Europa, mas vi scudetti perdidos na última jornada em casa, a Juventus, a Roma... deves estar pronto para sofrer, cerrar os punhos, porque no futebol tudo pode acontecer. É isso que devemos fazer. Ter força, conseguir os pontos merecidos que não conseguimos contra outras equipas. Porque não poderei vencer o Porto em casa, ou o Setúbal fora? Falhámos noutros jogos, mas a equipa acredita. Vamos dar tudo na Luz, em Olhão e em Setúbal. Temos muito respeito pelos adeptos.
Que pode fazer o Olhanense na Luz?
Travar o Benfica é muito difícil. Tem um grande treinador e muita qualidade em campo. Tem uma ideia de jogo muito forte, é uma equipa que te pode fazer mal sempre. Nós estamos entre o Porto e a Juventus, mas o dia mais importante é o nosso. Vamos preparar-nos ao máximo e fazer o que conseguirmos para vencer, e logo vemos o que sucede. Escrito não está nada. Mas não podemos entrar com medo de perder. Devemos entrar com a ideia de que se tivermos uma possibilidade vamos tentar vencer.
E a seguir vem aí um Benfica-Juventus na Liga Europa.
Esperava que fosse a final em Turim, pois são as duas melhores equipas, é um pecado ser na meia-final. Que espectáculo! A Juventus tem uma grande equipa e joga como o Benfica. Grande mentalidade, capacidade de jogar entre as linhas e no exterior, tanta capacidade técnica, Tévez, Rodrigo, Osvaldo, Cardozo, tudo jogadores que podem mudar o jogo com um golpe. Se queres jogar no Benfica tens de querer vencer sempre, na Juve é igual. Será um espectáculo incrível, seguramente. Que ganhe o melhor, mas a Juventus é o meu clube.
Se o Olhanense descer, gostava de ficar?
Se aqui percebem quem é o Giuseppe Galderisi, eu estou pronto para ficar na II Liga. Venci na Juventus, sei que é preciso trabalhar e sofrer para ganhar. Se quiserem fazer isto, eu fico. Se o clube acreditar em mim, continuarei tranquilamente o meu trabalho. Mas do início da época, não a meio, isso é muito importante.

