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Chapéus há muitos, mas não destes

Chapéus há muitos, mas não destes

01/06/2014 00:00
E também turbantes, fitas ou toucados. A designer Joana Marrecas faz tudo isto à mão e as suas criações já chegaram à Royal Ascot

Do lado de fora, há galinhas, pavões que num poleiro alto se envaidecem com as suas penas azuis e verdes e ervas aromáticas num canteiro. Os sinais são equívocos, visto estarmos num jardim de uma casa em pleno centro urbano. Mas, uma vez dentro do atelier da designer Joana Marrecas, no Monte Estoril, automaticamente percebemos que a viagem pode ser muito maior no interior do que no jardim que o protege.

Primeiro, tudo brilha. Na ampla sala envidraçada, as boas vindas são dadas por uns quantos bustos de veludo negro que, muito quietos e em pose elegante, encabeçam uma variedade de chapéus de todas as cores e feitios, fazendo crer ao forasteiro que acaba de transpor uma espécie de portal mágico. Rendas e flores acetinadas, sedas, tules, brilhos, lantejoulas, pedrarias, pérolas, palhas, laçarotes, fitas, feltros, penas, plumas. Enfim, pomos termo à enumeração para percebermos que tudo o que aqui listamos, quando conjugado, resulta em chapéus, nada mais simples.

É assim que, desde as cabeças inanimadas dos bustos, é impossível não pressentir tantas vidas a coroá-los. Que é como quem diz que voltamos a fazer um recorrido histórico pelo universo chapeleiro, da época vitoriana aos anos 20, 30 e por aí fora. Mas desengane-se, aqui não há imitações. No máximo, encontra inspirações. Mas já vamos.

Por agora, entramos num espaço mais escondido, onde o que interessa acontece. "Aqui é a minha caverna do Ali Bábá", diz-nos Joana Marrecas, absolutamente à vontade entre os seus incontáveis carrinhos de linha, alfinetes, rolos de palha, feltros ainda por modelar e um sem fim de matéria-prima que usa para as suas criações chapeleiras. Disfarcemos, pois, o deslumbre das cores desta caverna, concentremo-nos e vamos a contextualizações: Joana Marrecas, 30 anos, sempre gostou de chapéus. E apesar das artes sempre terem ocupado os seus tempos livres, licenciou-se em Economia e seguiu os estudos pelos caminhos da Gestão, entre Londres, Paris e Singapura. Mas, há cerca de dois anos, o feitiço dos chapéus levou-a a aventurar-se pela experiência de tentar fazê- -los. E a aventura correu tão bem, com as amigas que começaram a levar os seus chapéus a casamentos e a espalharem a palavra que, de repente, Joana viu-se como chapeleira. "Depois acabei por ir para Londres estudar Millinery Design no London College of Fashion e tive ainda a oportunidade de trabalhar com a designer de chapéus que colabora com a British Fashion House da Vivienne Westwood", conta-nos.

chapéus e protocolos Pouco importa a época, a história ou a génese da cabeça que enverga um chapéu. Como nos diz Joana, "o chapéu é uma extensão da personalidade de uma pessoa". Mas se é certo que os chapéus têm sido, ao longo dos tempos, uma das extensões corporais mais orgânicas de entre toda a panóplia de acessórios, nestes tempos contemporâneos os costumes parecem tê- -los deixado pendurados no cabide. "Acho que o chapéu teve uma época. Por exemplo, no tempo das nossas bisavós, uma senhora não saía de casa sem chapéu. Mas acho que agora estamos a voltar a uma série de tradições. Nota-se que as coisas feitas à mão estão a renascer".

Com clientes de lugares tão distintos como Itália, Espanha, Inglaterra, Rússia e França, Joana explica que o chapéu "é uma coisa muito exclusiva. Ainda assim, tenho todo o tipo de clientes e de todas as idades (onde se incluem clientes de diversas casas reais). Quando aqui entram, a maioria das pessoas quer experimentar tudo." E que assim seja, mas, claro está, é preciso que cada um se encontre no seu chapéu. "Peço sempre à cliente que traga o vestido que está a pensar usar. Preciso de perceber a personalidade. Claro que depois gosto que seja a pessoa a chegar a uma conclusão sobre o chapéu por si. Só faz sentido quando a pessoa sai daqui confiante com o chapéu que vai usar", explica Joana, acrescentando que "usar um chapéu é uma coisa que exige um certo sentido de humor".

Para além de chapéus, Joana Marrecas faz também turbantes, fitas e toucados, uma diversidade de acessórios que se divide entre colecção de Outono/ Inverno e Primavera/ Verão. "A maioria destes artigos são feitos para ocasiões especiais, como casamentos ou outros eventos. Mas também tenho uma linha de praia". Se acaso lhe parecer duvidoso que usar um chapéu destes se resigne a ocasiões especiais ou locais e horas específicas (saiba-se, por exemplo, que um toucado tem mais abrangência de horário de utilização que um chapéu), Joana esclarece: "Não sou uma pessoa com limitações quanto ao que se deve ou não usar. Tudo depende da pessoa."

do sonho ao trabalho de artesão Joana Marrecas não segue tendências. Tudo o que faz trata-se "de algo muito livre. Às vezes sonho com um modelo e quando acordo já estou a visualizar o chapéu. Venho a correr para o atelier e começo a fazê-lo". Do desenho à execução, é absolutamente tudo feito por Joana, que apenas encomenda a maioria das matérias-primas de Londres - trata--se, como nos diz, da "Meca dos chapéus". É na capital inglesa que se concentram materiais vindos de lugares tão distintos como a Indonésia, a América Latina ou a Tailândia. "Depois faço tudo à mão, nem máquina de costura utilizo. Por isso, nunca há dois artigos iguais". A exclusividade tem um preço, que neste caso pode compreender valores como os 70€ e os 2000€. "A minha preocupação é a qualidade. Não me interessa fazer produção em massa. Sinto que cada pessoa que aqui vem sai apaixonada".

Para visitar o atelier é preciso fazê-lo por marcação. Joana Marrecas faz questão de atender individualmente cada cliente. "Isto tem um lado muito pessoal", acrescenta.

Encontre o que encontrar, é garantido que levará para casa o seu chapéu numa caixinha de cartão envolto em papel de seda.

Para entrar em contacto com Joana Marrecas, veja o contacto da designer aqui:

joanamarrecas.com

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