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Luísa Lopes. “Já se viu no cérebro que é possível estar apaixonado ao fim de 20 anos”

Luísa Lopes. “Já se viu no cérebro que é possível estar apaixonado ao fim de 20 anos”

20/03/2015 00:00
Neurocientista diz que as emoções são uma área controversa mas com pistas curiosas: e se as relações longas dependerem da dose de uma hormona?

Luísa Lopes estuda fenómenos como o impacto das emoções na memória. Aspectos bem concretos como o papel do stresse. Mas o estudo da chamada neurobiologia de emoções mais abstractas, em que o amor é rei, não lhe tem passado despercebido. Foi este o mote da conversa com a investigadora no Instituto de Medicina Molecular (IMM), em Lisboa, onde amanhã à tarde decorre o encerramento da Semana Internacional do Cérebro.

 

Nascemos programados para amar e odiar ou estas emoções resultam da exposição de cada um à sociedade ou à cultura?

Hoje sabe-se que nascemos programados para amar no sentido de criar laços afectivos em comunidade. O homem é um ser gregário, sempre foi. E quando nos tiram esses laços sofremos.

E para odiar?

O ódio no sentido abstracto está menos estudado que o amor. Mas estudamos a aversão e sabemos que existem áreas no cérebro ligadas a sensações desagradáveis, quase como uma defesa. Mas o ódio parece não ser tão intrínseco na natureza humana como essa ligação afectiva entre pais e filhos, irmãos ou entre duas pessoas.

O que sabem as neurociências sobre o amor?

É uma emoção que gera um padrão de actividade no cérebro que começamos a perceber. Mas não conseguimos de modo nenhum explicar biologicamente porque amamos uma pessoa ou outra ou porque é que algumas pessoas gostam umas das outras durante 20 ou 30 anos e outras não. Mas há um facto engraçado: já se conseguiu perceber que é mesmo possível uma pessoa sentir-se apaixonada 20 anos depois pela mesma pessoa.

Como?

Hoje em dias as neurociências utilizam a chamada ressonância magnética funcional, que foi uma inovação fantástica em termos tecnológicos e permite olhar para o cérebro humano enquanto está a funcionar, em vez de dependermos apenas dos estudos com animais. Num estudo em particular participaram pessoas com relações estáveis e que se diziam felizes e apaixonadas. Eram-lhes mostradas imagens do parceiro, de membros de família e de pessoas com as mesmas características físicas do companheiro mas que não conheciam. Os resultados mostraram que quando viam a imagem do cônjuge, e em mais nenhuma circunstância, eram activadas as mesmas áreas do cérebro de quando se está apaixonado pela primeira vez. Portanto é possível sentir paixão ao fim de 20 ou 30 anos.

Que áreas são essas?

Basicamente há uma libertação de dopamina, maiores níveis de adrenalina e maior actividade em áreas cerebrais mais ligadas à excitação sexual. E não se encontraram diferenças entre homens e mulheres.

Percebe-se o que distingue as relações ocasionais dessas duradouras?

Parece haver algo mais. Uma das hormonas associadas ao reforço dos laços, que dispara quando a mãe está diante do filho recém-nascido, é a oxitocina.

Qual é a duração habitual da paixão?

Não se sabe. Mas ainda antes de todas estas novas tecnologias, o sociólogo italiano Francesco Alberoni tem estudos que se tornaram famosos e dizem que a fase do enamoramento de será mais ou menos dois anos. É um período em que somos muito optimistas, censuramos menos.

Porquê?

Pensa-se que as pessoas estão mais dispostas a correr riscos, há menos censura. Tudo isso poderá ser avaliado em termos cerebrais e a questão de arriscar mais é muito visível nos adolescentes, no caso deles pelo facto de o cérebro estar em de-senvolvimento. A partir daí as reacções mudam. Agora seria interessante estudar isto em detalhe e ver o que acontece por exemplo aos sete anos, naquelas datas em que se diz que as relações costumam falhar.

Toda a gente terá um cérebro capaz de relações duradouras?

Biologicamente não consigo dar resposta. O estudo foi feito com pessoas que estavam nessa situação, que tinham encontrado alguém. Se calhar o segredo é encontrar a pessoa certa e manter_[risos]. Não sabemos se o mais natural é amar uma pessoa dois anos ou 20, e existirá uma grande influência cultural nisto.

Mas pode pensar-se numa análise que nos pudesse dizer se estamos com a pessoa certa para tentar ?

Acho que isso traria grandes problemas éticos. Mas fora de brincadeiras existe a teoria da vasopressina, de que quando está em níveis mais baixos as pessoas têm mais problemas conjugais.

Faz o quê?

É uma hormona com várias funções, mas no campo das emoções o que está descrito é que as pessoas com uma mutação no gene da vasopressina são mais agressivas, têm mais dificuldade em manter laços. Provavelmente a probabilidade de manter uma relação é inversamente proporcional, há-de criar conflitos.

E não há nenhum superalimento para aumentar a vasopressina?

Que eu saiba não.

Seria descabido ir por aí? Em tempos falou-se de um spray de oxitocina para ajudar nas relações amorosas.

É verdade, mas não me parece que possamos tomar isso como certo, seria quase entrar no mundo dos feitiços. Há muito mais coisas que influenciam as nossas emoções do que a biologia, sejam as experiências de vida seja a personalidade.

E temos um cérebro monogâmico?

Não creio, mas a resposta aí também parece passar pela vasopressina. Sabemos que apenas 3% dos animais são monogâmicos, isto no sentido de ter um parceiro de cada vez, não necessariamente um toda a vida. Mas o estudo que se fez foi nos roedores, em que isso é raro, mas existe o caso dos ratos da pradaria, que têm sempre o mesmo parceiro. E quando se foi ver a diferença percebeu-se que tinham maiores níveis de vasopressina. Porquê, não sabemos. Sabemos que estamos programados para procriar, será essa a função primordial da atracção sexual. Agora muito disto passará pela cultura e pela educação, que também influencia o cérebro.

Uma pessoa que está sempre a ter relações falhadas pode ter um problema cerebral?

Acho muito simplista pensar que um qualquer condicionamento cerebral de base pudesse ser motivo para fracassar relações, ainda que no caso dos traumas surjam de facto alterações funcionais no cérebro e por isso existe a psicoterapia, que permite dessensibilizar algumas memórias que em certos casos poderão prejudicar os relacionamentos.

O que se sabe sobre o ódio?

Conhecemos de forma genérica as áreas activadas quando sentimos repulsa. A amígdala [do cérebro] está muito ligada a isso, é uma das zonas do cérebro que processam os estímulos e os integram e está por isso muito ligada ao medo e à memória traumática. Nesse sentido esse sentimento é menos natural, implicará uma experiência negativa de base, enquanto a paixão é mais instintiva. No cérebro não são tanto as áreas que importam mas o padrão de actividade. Sabemos que o padrão das coisas positivas e agradáveis inclui a dopamina, a serotonina. No caso das experiências negativas a hormona mais envolvida é o cortisol, a hormona do stresse. É o que nos faz reagir quando vemos algo que nos assusta, um cão se temos medo, o ladrão que nos assaltou.

Bons laços afectivos causam reacções positivas. O que gera o mesmo efeito?

No fundo tudo o que active os circuitos cerebrais do prazer, da recompensa, algumas coisas pela sua formulação química. É o exemplo das drogas, e por isso às vezes se diz que o amor é como uma toxicodependência. Mas temos o chocolate e muitas pessoas sentem-se bem a fazer exercício e até se dizem “viciadas no ginásio”. São situações em que se libertam endorfinas, que nos fazem sentir felizes, aumentam a nossa auto-estima. A realização profissional também faz isso.

E também há viciados no trabalho.

Bom, isso não sei se será mais pela recompensa literal. Mas há o vício do poder.

Muitas vezes os chamados workaholics não conseguem ter relações estáveis. Será porque os circuitos do prazer estão demasiado ocupados?

É uma boa pergunta e, que eu saiba, nunca ninguém olhou para isso. Mas esta semana o “The Guardian” publicou a carta de um workaholic e é interessante que às vezes pensamos que sentem culpa, mas este assumia que quando tinha de estar em casa com a mulher e os filhos sentia era impaciência. Parece-me que será mais uma questão de escolha e prioridade. Até porque há workaholics com relações saudáveis. Não acho que seja a neurobiologia a dar-nos resposta para essas incompatibilidades, até porque todos conhecemos relações inesperadas que funcionam. Somos atraídos por personalidades muito diferentes.

Porquê?

A parte sociológica e cultural parece sobrepor-se ao que seria primário e biológico. Os estudos sugerem que biologicamente seríamos atraídos pelas pessoas mais férteis, mais atraentes, mais fortes. Nem sempre é assim, e a verdade é que nem sabemos porque é que umas pessoas gostam mais de umas coisas que outras. Mesmo que isso seja visível no cérebro. Uma pessoa que prefere amarelo activa áreas diferentes que outra que prefere verde. E veja-se o que faz o neuromarketing: coloca pessoas na tal ressonância funcional e mostra-lhes dez imagens de embalagens. Por algum motivo o cérebro da maioria reage melhor à número três e é essa que é aprovada, para nos levar a comprar.

Há esse lado da manipulação, mas que impacto positivo lhe parece que esta área das neurociências podia ter?

Poderia ajudar pessoas com traumas graves ou crianças com défices de atenção a ultrapassar problemas que comprometem cognição e relacionamento social. Se conseguirmos encontrar forma de suprir défices funcionais, equilibrar hormonas, teria um grande impacto. A manipulação e os riscos são sempre o reverso da medalha na ciência, basta ver a bomba atómica.

Esta área é muito controversa?

É fascinante mas gera incómodo. Repare-se que quando nos anos 90 há a ideia da oxitocina como a hormona do amor a cientista nem tinha pensado em estudar o amor nesses termos. Queria estudar laços afectivos mas a comissão de revisores mandou a proposta para trás a sugerir-lhe que usasse o termo. Acho que ninguém quererá saber de facto como funciona o cérebro nestas coisas – estragaria qualquer relação. Se soubermos exactamente o que acontece no amor, e espero que não venha a acontecer, as emoções passariam a ser vistas como um conjunto de reacções químicas. Ninguém gosta que se saiba o que se passa dentro de si ou de sentir que pode ser manipulado.

Se calhar até deixava de ser bom. A surpresa não tem efeito no prazer?

Sim, activa a recompensa, claro que numas pessoas mais que outras. Mas por isso é que procuramos a novidade. 

Que parte do puzzle da neurobiologia tenta perceber?

Essencialmente como as emoções podem influenciar a memória, nomeadamente desencadeando stresse. É muito engraçado porque, até certo ponto, o stresse é bom. Mas ultrapassando um determinado limiar bloqueamos. O stresse afecta a memória porque a prioridade passa a ser lidar com isso e não a memória, daí por exemplo as brancas dos exames.

Enquanto cientista nesta área qual foi a informação mais valiosa que adquiriu?

Acho que poderá advir do que estamos agora a estudar: como é que o nosso ritmo circadiano, o nosso ciclo biológico, influencia também a memória. E estamos a perceber que as pessoas que têm vidas mais desreguladas, por exemplo que estão sempre a alternar turnos, têm mais problemas. Temos resultados interessantes, como ao fim de dez anos isso tem impacto.

E é reversível?

À partida sim. Estamos a tentar perceber como acontece e quando para poder ajudar as pessoas de forma objectiva, ter biomarcadores. Nas perturbações do sono tem havido um avanço enorme, há subs-tâncias para regular os níveis de melatonina. O nosso objectivo seria de alguma forma ajudar as pessoas que trabalham por turnos a proteger-se. Mesmo que não tenham problemas no sono podem ter perturbações cerebrais de outros tipos.

Descortinar esses porquês não torna os cientistas mais insensíveis às emoções?

Acho que somos um bocadinho mais cépticos, temos maior percepção das condicionantes biológicos. Mas não se perde o deslumbramento, continuamos a ter emoções como qualquer outra pessoa.

 

Termina a Semana Internacional do Cérebro, mas em Abril o tema promete regressar à agenda. A Fundação Calouste Gulbenkian vai receber nos dias 9 e 10 a Conferência Internacional de Neuroética (iCONE), organizada pelo Instituto de Bioética Católica Porto.

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