Na Rússia com Lou Andreas-Salomé

Na Rússia com Lou Andreas-Salomé


Aprende-se muito com a Rússia. Aprendi as Isbas, as típicas casas de madeira. Conheci um temperamento diferente dos Russos. Mais ternurento e morno.


Na Rússia com Rilke de Lou Andreas-Salomé. Edição: Relógio D'Água, Fevereiro de 2018

Todo o livro é paisagem.

Aprende-se muito com a Rússia. Aprendi as Isbas, as típicas casas de madeira. Conheci um temperamento diferente dos Russos. Mais ternurento e morno.

Estive em Moscovo uma vez durante três dias e encontrei lá o povo mais frio e áspero e menos sorridente do mundo. Neste livro reencontrei o mesmo povo, mas mais estreito a mim, numa redoma de calor e paixão. De mornice e saudade. Voltei a deparar-me com o que sempre me atraiu neles: a melancolia, a despedida permanente, a ilusão no seu estado mais vegetal.

Humilhados e Ofendidos de Dostoievski foi o primeiro bagaço puro que de golada tomei e degolada me tomou. Depois, os outros clássicos na mesma linha e no mesmo grau de alcoolémia generosa.

Sensação de transbordo permanente este livro. Sensação de transbordo permanente também nas imagens, nas descrições, em toda a paisagem. São sempre as paisagens do interior das casas, as que mais me fascinam. A mesa posta, a comida escassa, a sujidade, o estábulo ou o feno no chão da cozinha.

É do interior da paisagem a minha natureza. Mas não é só no interior que se foca o olhar da narradora. É também na paisagem social. As catedrais, as basílicas, os camponeses, os cocheiros, os bosques, o barqueiro, os guardas nocturnos e principalmente as águas dos rios.

O Volga e o Niepre surgem quase como entidades promonitórias.

Confesso que esta sensação de transbordo me fez sentir perdida algures como num sonho. Não sabia muitas vezes se estava no sul ou no norte, se numa aldeia ou a chegar a uma cidade.

Gostei especialmente da estadia em Kresta – Bogorodskoia. Da isba. Do anoitecer, do samovar. Sempre adorei samovares. Trouxe um dessa vez única que fui a Moscovo.

Esta Rússia de Andreas-Salomé tem um travo a saudade. Uma saudade avassaladora de me sentir nómada, clandestina em qualquer lugar. Até num supermercado. Até numa rua.

Todos os personagens me fazem lembrar Dostoievski e as plantações de tabaco do Outeiro, a casa dos meus Avós. As primeiras grandes folhas que conheci e onde largada corria desenfreadamente. Eram tão maiores e mais largas que eu, mas eu sentia que corria muito mais depressa do que elas e que nunca me iriam apanhar. Fizeram-me também lembrar a vacaria grande cheia de animais e o andar de cima, meio assotado, onde se guardava o feno, e onde uma pequena e estreita ponte feita com vigas de madeira maciça dava passagem. Adorava essa ponte onde tantas vezes baloicei e desafiei as leis do equilíbrio.

Encontro na L.A.S muito da Marina Tsvetaïeva. Como se as duas tivessem o mesmo coração. É uma escrita límpida, sem ruído, meditativa. Feminina.

Tenho a ideia que para ela, o tempo, como para mim atravessa-nos em quarto crescente. Só não desparece no tempo a saudade. Eu que sempre gostei de viver num passado meio dormente, vivo agora numa espécie de conversão do tempo.

Converto o passado em poesia e a poesia em mergulho. Chego á conclusão que só gosto de livros como este. Livros em que se está sempre a mergulhar em rios e paisagens. Sempre a chegar e a partir. Sempre com saudade de chegar quando se acabou de partir e sempre com vontade de partir quando se acabou de chegar. Só assim se chega e só assim se parte.

Muita pena de em Moscovo não ter ficado hospedada como LAS numa divisão redonda com três janelas de finos vidros a dar para o Kremlim. A ouvir os sinos e a procissão. Fiquei num hotel antigo perto da praça vermelha e da Catedral de São Basílio que me cortou a respiração durante uns bons segundos. Mas vou confessar que do meu quarto via uma praça assustadoramente patrulhada por militares do exército que durante toda a noite não desligavam os motores dos jipes e dos bólidos de guerra e dificilmente me deixavam adormecer em paz.

Nem quero imaginar aqueles militares todos num 9 de Maio a celebrar mais um ano e outro a vitoria sobre os nazis. Que medo. Mesmo assim, adoraria lá voltar.

Para além de tudo neste livro, adorei a Mulher Rio por detrás dos diálogos com o Volga. Podiam ser os meus pensamentos enleados no Douro ou no Tâmega ou no Minho. É sempre bom ter dois rios. Três talvez seja demais. Não há braços que cheguem.

Pois é, foi isto tudo o que me ficou do livro. A paisagem. «Tudo isto sou eu enquanto paisagem» (p.64) diz-nos LAS num diálogo com o seu rio. A vida acaba por ser somente isso, uma paisagem. E isso é TUDO.

Não me ficaram as descrições maçadoras das igrejas ou o alcoolismo, a miséria ou a fome. Só porque me mantenho sempre na margem da fantasia. No cume mais belo da paisagem.

Há dois loucos no livro, um  que de manhã lhe pede esmola em Kresta, – o louco de Deus. Não percebi o porquê ser de Deus e uma mulher de trinta anos que enlouqueceu porque lhe recusaram o homem que amava. Não percebi esta recusa. Não percebi se foi porque o homem foi para a guerra da China ou se porque já era louca antes de o amar.

Pelas minhas contas a LAS deveria ter uns 40 anos quando escreveu estas memórias. Viajou com Rilke, catorze anos mais novo. Não sei o que terá sido na época, uma mulher casada abandonar a sua vida conjugal para partir á descoberta e á aventura de um país. É a Rússia de uma Lou que, apaixonada ou não, porque o leitor não se apercebe. É a Rússia pelos olhos de uma mulher. Mais que narrar uma viagem, esta escritora permite que qualquer leitor a refaça a cada capitulo. Como um areal intacto á espera das primeiras gaivotas em terra.

É mais do que certo, que o leitor se deixe entregar livremente a estas paisagens recônditas tão próximas das minhas. Menos pantanosas, mas tão próximas das raízes e da luz e habitadas pela mais rasteira vegetação, o silêncio.

É sempre na paisagem de um livro que o mundo se ergue ou naufraga. Nos sacode ou nos resgata e reencontra.

Todo o livro é paisagem.