Lou Andreas-Salomé. A violência doméstica e a intimidade dilacerada

Lou Andreas-Salomé. A violência doméstica e a intimidade dilacerada


Um Desvario é um livro marcado por um episódio de violência que marcou profundamente a narradora, como terá marcado grande parte das leitoras, que ao lerem agora este texto, de uma ou outra maneira, terão sofrido ou assistido a um golpe de violência sobre uma mulher, uma filha, ou contra si próprias.


Mais do que qualquer personagem ou enredo, um livro deve-nos tatuar a alma. É o caso deste Um Desvario de Lou Andreas-Salomé.
 
Lou Andreas-Salomé ao colo da sua ama assistiu á selvajaria com que o marido a atingiu enquanto a segurava pequenina nos braços. Enquanto a olhava ternamente.
 
Um livro que parte da violência física com profundos lenhos psicológicos na narradora que jamais esquecerá a cena, mas que depois se avoluma na maior doçura e transparência. Um livro que podia ser um espelho.
Um espelho Art Decô, veneziano ou o I’ll be your mirror da Joana de Vasconcelos. Este é o espelho da “máscara” nas palavras da escultora.
A violência do vermelhão no pescoço da ama em contraste com a devota comoção com que segura a criança, cerzem em pleno a máscara de todas as mulheres submissas que sofrem e se mascaram. Que sofrem em silêncio e resgatam nos braços dos seus protegidos, os braços da inocência.
 
Numa altura em que estamos confinados a quatro paredes, não pude deixar de louvar esta frase em código que circulou nas redes socias. «Se for vítima na farmácia peça uma máscara covid-19 que nós saberemos ajudá-la.» Fiquei impressionada com esta iniciativa. Brutal esta frase em código. Pena que muitíssimos homens também certamente a terão lido.
 
Mas este não é um livro confinado à violência doméstica bruta. É antes sobre a violência humana no seu âmago. As relações humanas dilaceradas, a intimidade à beira do abismo, no fundo do poço.
 
Nunca deve um leitor catalogar um livro, muito menos trancá-lo. Deve deixá-lo cirandar dentro de si.
Deixar que tudo aquilo que ele lhe suscite venha ao de cima.
Pois bem, temos a história de um primeiro amor.
Sempre gostei da velha frase popular “Amores de verão ficam enterrados na areia”. Neste caso, enterrados na neve.
Benno e Adine ficam noivos muito cedo.
Ele é um jovem psiquiatra cheio de ambição e ela uma miúda que nem sabe ao certo o que quer, e acredita naquele homem como escudo de Atena.
Acabam por se separar, porque Benno, um profundo machista, igual a tantos marialvas que ainda geniosamente e genialmente, ou vice versa, imperam nos lares azedos lares portugueses, não suporta a ideia de ter uma mulher artista que não se amarra à costura nem às lides domesticas de corpo e alma.
 
Benno não é capaz de aceitar nem de compreender o pungente estado de embriaguez artística de Adine e rompe o noivado.
Adine abandona a Rússia e parte para Paris. Reergue-se e segue o seu sonho. É nessa altura que, mais do que se tornar pintora, torna-se Mulher.
Não haverá mulher alguma que não se deixará envolver. Que não se reveja em algum canto do espelho. O espelho só nos devolve a imagem que lhe entregamos. Em eco, só recebemos a força do grito com que esvaziamos a raiva, os pés descalços.
Neste livro encontramos ao espelho o amor em riste com a arte e o feminino em eco de mãos dadas com a neve, a amargura, o remorso, o constante fervilhar da mente humana.
 
Há duas personagens fabulosas. Ana e a Baronesa Daniela. Ana é a empregada de Benno e da mãe de Adine e conserva no seu comportamento um certo padrão de loucura boa, contida.
Ela tinha sido doente de Benno no hospital psiquiátrico, mas estava em condições de trabalhar, o que se passava, é que ela acreditava que estava ao serviço do imperador da China. «A loucura é capaz de preservar ilusões agradáveis». Não seria uma delicia se todos acreditássemos estar ao serviço de um Imperador?
No caso, um Romano.
Creio que seria arriscado de mais agora a China.
 
A outra personagem que me encantou foi a desforme e aleijada jovem Baronesa, também antiga doente de Benno, que retratada num desenho de Adine se destaca muito mais bonita do que na realidade é.
Adine desenhou a felicidade. Desenhou-lhe a esperança nos olhos. Nos lábios. Nos cabelos.Imagino que em cada traço da cara.
Quando a Mãe dela a reconheceu no quadro fez um comentário acerca da feia rapariga.
Esse comentário inaugura o diálogo mais apoteótico do romance: «Pobre Daniela (…) Dá vontade de lhe desejar um pouco de felicidade no Natal, como presente.» «Ai, minha mãe, ninguém sabe com exactidão o que as outras pessoas desejam.» É aqui que está o desvario.
Uma parte do mundo está longe de saber o que a outra parte do mundo deseja.
Uma parte do mundo está convencida que sabe o que a outra parte do mundo deseja.
Nem mesmo eu, sei ao certo o que desejo.
Desejo o desvario para a minha filha. Todo o desvario.
 
Em todos os livros desta escritora, há uma aura poética e existencial, não só pela sua formação em psicanálise, mas que pelo seu doloroso sentido de vida e de descoberta se desdobra, permitindo-nos desdobrar com ela pondo-nos em causa, de quatro.
 
Teria eu abdicado da minha apetência para as artes por um homem?
Ter-me-ia entregue aos deveres matrimoniais em prol da felicidade conjugal virando costas á escrita?
São estas as linhas que tricotam os gomos dos diálogos e dos pensamentos dilacerados da narradora, mas também não serão estes os pensamentos da maioria das leitoras deste texto?
 
Só no limbo se reconhece a força do ser humano. Neste caso, da mulher artista. Da mulher luz, da Mulher neve, da mulher onda, que já antes de rumar á cidade luz já tinha a luz dentro dela a transbordar. O desvario. O problema foi ter encontrado um homem que na altura não a deixou transbordar, e quando foi atrás do tempo perdido, já era demasiado tarde.
O amor não tem dois tempos.
 
Tomara que todas as mulheres que vivem em silêncio, consumidas com à arte cerrada nos punhos, fossem desvariadas.
Eu sou uma dessas mulheres desvariadas.
Sempre serei.
E a pergunta que me faço é a seguinte: Quantas Adines intimas de Freud, Nietzsche, Paul Rée e Rilke antes da ida para Paris, antes do rompimento do noivado, existem em 2020?
Dá que pensar que a mulher, qual milagre da multiplicação dos pães e dos peixes, em prol da multiplicação da espécie, vê-se tantas vezes enclausurada e melindrada por essa mesma multiplicação desumana que a desmembra.
 
Que um dia, todos acreditemos que só a arte nos possa salvar dos dias bolorentos, do tédio, dos homens que não nos deixam transbordar, como a mim me salva a poesia.