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Corridas ilegais. “Procura-se companhia para logo, alguém por aí?”

Corridas ilegais. “Procura-se companhia para logo, alguém por aí?”

Dreamstime Carlos Diogo Santos 28/02/2020 15:19

Todas as semanas as estradas nacionais são transformadas em pistas de alta velocidade. A1, A16 e CREL são algumas das preferidas. O i viaja até ao submundo do street racing.

“Alguém para dar um tirinho hoje?” O desafio foi lançado no último domingo num grupo fechado do Facebook, poucas horas depois do acidente fatal que vitimou três jovens na Segunda Circular. E as respostas dos membros da comunidade não se fizeram esperar muito: “Assim, tá bem” ou “Eu apareço” são alguns dos exemplos. Dois dias depois um novo anúncio: “130E [alcunha fictícia] procura companhia para logo, alguém por aí?” O post ganha quase de imediato diversos likes e nos comentários há emojis a rir e uma mensagem: “Ah, c***!”

A A1, a A16, a ponte Vasco da Gama e a CREL continuam a ser palco de corridas ilegais todas as semanas. Há anos que é assim, há anos que os locais são os mesmos – só nos Ralis, no Eixo Norte-Sul e na A2 é que se conseguiu travar ou, pelo menos, abrandar este fenómeno.

“A atividade tem sido mais ou menos a mesma de sempre”, conta ao i um dos membros da comunidade, a quem damos o nome fictício de João G.

“No Ralis deixaram de existir porque agora há lá radar e no Eixo Norte-Sul também tem andado um bocado parado. É mais a A1, A16 e CREL”, confirma, explicando que no caso da Circular Regional Exterior de Lisboa quem participa nas corridas, dá “a volta antes da descida do Dolce Vita e sai na saída de Queluz”: “Fazem [a estrada] para baixo”.

“O pessoal não tem ido também muito para a A2, porque lá têm levado com a polícia, com inspeções B e assim. A A1 é sempre – vão até ao radar, depois abrandam e voltam para baixo”, conta João G., explicando que existem todos os anos centenas de pessoas a seguir de perto estas corridas: “Tem dias que chego à bomba da A1, do Burger, e está ao barrote. Há dias que está vazia. E quando vou a Massamá depende”.

O número de pessoas pode até ter baixado ligeiramente na última década, mas a frequência das corridas mantém-se e as velocidades, com os ponteiros a bater os 300 km/h – mais do que um Boeing 747 precisa para levantar voo – continuam a pôr em risco a vida de quem circula nas principais estradas e autoestradas da Grande Lisboa.

locais e dias de encontro Depois do desafio ser lançado nos grupos fechados do Facebook, onde só entra quem tem autorização do administrador, os pilotos amadores encontram-se em bombas de gasolina ou outros pontos já bem conhecidos da comunidade. Fóruns na internet como o PS Maníacs existem, mas já não são praticamente usados – todas as combinações passam pela rede social.

Para os “picanços” na “A1 e na Vasco da Gama são sempre as bombas da Segunda Circular”. João G. revela ao i que para os “aços” na CREL, “o encontro é ou no Aldi do Cacém ou no InterMarché de Massamá”: “Aí é muito relativo, depende como combinam”.

E se há uns anos os dias mais comuns eram as terças e quintas-feiras, hoje a preferência são já mais vésperas de feriado, sextas ou sábados. “Os dias mais concorridos são as vésperas de feriado, sextas e sábado, mas os sábados têm sido fortes”, acrescenta.

“Olha este último que aconteceu, estavam a correr antes, há vídeos na net. Isto foi um acidente histórico, mas vão havendo outros”, diz ainda, explicando que apesar do aparato o fim das corridas não está próximo: “Isto não muda nada, até porque é pessoal que algum pessoal conhecia, mas que nem era pessoal da bomba, aquele habitual, tás a ver?!”.

E quanto ao “pessoal da bomba” não existe propriamente um padrão. Quem conhece este mundo conta que há jovens de famílias mais ricas, pessoas ligadas a forças policiais e até pilotos de aviões. Além de menores e muitas pessoas que apesar de adultas não têm carta de condução. “Há muitos com a carta apreendida”, refere João G.

E se no alcatrão os esquemas continuam a rolar, com as seguradoras a história é outra, não sendo já tão fácil a simulação de acidentes, como acontecia há uns anos. “Está tudo mais complicado. Hoje, muitas vezes, dão dinheiro a alguém para comprar um carro fraco e simulam um acidente, as seguradoras também estão a apertar. Mas é mais fácil simulares um acidente e reconstruíres um carro, porque como sabes há cada vez mais carros roubados o que torna mais fácil conseguir peças”, explica ao i.

Os carros preferidos Nestas corridas ilegais existem carros para todos os gostos, mas, na maioria dos casos, os reis da velocidade são Citroëns e Peugeots (os conhecidos PSA), Hondas e Seats, mas também Fiats, Fords e BMW. Nos últimos anos, os Audis e os BMW têm estado a ganhar terreno.

“Antes era mais Cups, GTI, Type R, agora até já vês máquinas mais recentes, Audis, BMW, vê-se muito disso. Hoje já se veem carros de valores mais elevados”, explica João G.

Todos andam mais do que as viaturas de origem porque os seus donos chegam a gastar mais de 30 mil euros em transformações que escapam às inspeções periódicas obrigatórias que transformam viaturas banais em autênticos Ferraris. Nalguns casos, a potência desses carros chega aos 400 cavalos, o que lhes permite ultrapassar os 300 quilómetros/hora em estradas onde o máximo legal são os 80 ou os 120 quilómetros/hora.

E as transformações raramente são acompanhadas pelo reforço dos travões e da capacidade de imobilização do veículo. “Adaptar os travões àquelas velocidades significaria gastar o dobro do dinheiro em material – e isso não se faz quase nunca”, explicou ao i um mecânico de uma das oficinas especializadas nestas transformações. “Sei de um Honda CRX que faz 260 km/h e se tentar travar ele reage da mesma forma que reagia se carregasse na embraiagem – não faz nada. Há outros em que uma travagem significa um despiste. Estes carros não estão preparados para travar àquelas velocidades”, disse ainda.

Caso um carro normal lhes apareça à frente, os corredores só têm duas opções: fazer “bermas” ou aceitar o embate. “Normalmente, o que se faz é desviar e passar pelas bermas. Há imensos vídeos no YouTube do pessoal a fazer bermas, mas, quando não dá, bate-se”, concluiu.

O início dos picanços Seja na A1, A16, ponte Vasco da Gama ou CREL, a partida é sempre de tirar a respiração: quando os carros que vão participar estão alinhados a uma velocidade considerada normal, por exemplo a 70 km/h, surgem três buzinadelas dão início ao “pico”. Quando há seis anos o i participou numa destas corridas estavam frente-a-frente um Saxo e um León. Era madrugada de segunda-feira, as costas colaram-se ao banco e os carros mantiveram-se numa disputa renhida até o ponteiro do Citroën tocar nos 200 quilómetros/hora. É sempre assim que começam estes desafios em que todos os portugueses participam, mas que poucos conhecem. “Isso continua tudo igual, mudam as pessoas, o tipo de carros, mas o resto não muda”, explica agora ao i João G.

Quando saem das bombas, os street racers fazem tudo para reforçar a reputação que já conquistaram no alcatrão e até mesmo para não deixarem ficar mal na fotografia a sua oficina (ver texto ao lado).

Alguns dos participantes acreditam que a polícia se quisesse travar o street racing poderia fazer mais. Uma posição partilhada com um elemento ligado às forças de segurança que apenas aceitou falar com o i sob anonimato. Considera que tanto a PSP como a GNR “têm uma excelente rede de informação sobre essas pessoas”, mas que tem faltado um pouco de mão firme nos últimos anos. “Sabe-se onde param, as rotinas. Sabe-se que morre um entra outro, mas está tudo igual. Sabe-se quem são e mais: estão monitorizados. Mas, na prática, para impedir isto não foi feito nada de especial”, afirma, lembrando que se o i denunciou tudo o que hoje acontece há seis anos e pouco mudou é porque a estratégia “falhou redondamente”: “Existe o fenómeno? Sim! Há rede de informação? Há!”

Ao contrário daquilo a que se está habituado a ver nos filmes, em Portugal os pilotos amadores não apostam dinheiro e alguns riem-se mesmo quando alguém de fora lhes faz essa pergunta. O que está em causa é o seu nome, as suas capacidades para dominar a máquina e, claro, a adrenalina.

Os números oficiais Na madrugada do dia 20 o Mercedes que seguia com três homens na Segunda Circular e se despistou, provocando a morte a todos, tinha acabado de sair de uma corrida na ponte Vasco da Gama, onde atingira velocidades próximas dos 300 km/h. Nos últimos anos, têm surgido diversos vídeos no Youtube de corridas ilegais nesta ponte, algumas com mais de uma década.

Em 2018, segundo o Relatório Anual de Segurança Interna de 2018 – os dados mais atuais –, registaram-se “29 123 crimes rodoviários, o que representa uma diminuição de 1479 participações” em relação ao ano anterior. Deste total, apenas 439 dizem respeito ao crime de condução perigosa de veículo rodoviário, uma diminuição de 12% face aos números de 2017.

 

Psicologia - Comportamentos de risco podem esconder problemas

Vazio

A procura de adrenalina por parte de alguns jovens pode significar “um vazio intenso e insuportável que vão tentando preencher de várias formas”, explica ao i a psicóloga clínica Filipa Chasqueira. “Uma delas é através destes comportamentos de risco, em que se colocam no limite entre a vida e a morte”, diz ainda.

Vício

“Estes e outros comportamentos tornam-se mesmo um vício, que muitas vezes levam à morte”, afirma a psicóloga, acrescentando que “são comportamentos idênticos aos que se vivem tipicamente na adolescência, com a diferença de que o tempo e amadurecimento neste tipo de personalidade, não atuam da mesma forma, acabando estes comportamentos por se perpetuar e serem dificilmente controláveis”.

 

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