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“Esta experiência vai ficar marcada para o resto das nossas vidas”

“Esta experiência vai ficar marcada para o resto das nossas vidas”

Bruno Gonçalves Marta F. Reis 14/02/2020 08:56

Portugueses repatriados de Wuhan, em isolamento no Hospital Pulido Valente, repetem esta sexta-feira o teste para o vírus. Se tudo correr bem, podem ir para casa no sábado.

Despertar pelas 8h30 para o primeiro controlo de febre. Refeições em separado, exercício no ginásio improvisado e, nos dias de sol, ar livre numa zona confinada. Nos outros, viu-se a rua pela janela e não faltaram momentos de convívio em grupo, com espaço para jogos e tempo de sobra para “falar sobre a vida”.

Foi assim a rotina destas quase duas semanas de isolamento no Hospital Pulido Valente, descreveu ontem ao i Miguel Matos, um dos portugueses do grupo de repatriados de Wuhan, a cidade que continua a lutar contra o novo coronavírus. Quase na reta final, conta-se o tempo para voltar a casa. Esta sexta-feira, pelas 9h30, está prevista a colheita de novas amostras para serem repetidos os testes ao vírus. Se todos derem negativo, e não existindo sintomas, poderão sair do hospital no sábado ao final do dia, disse ao i a diretora-geral da Saúde Graça Freitas.

A referência para o período máximo de incubação do vírus mantém-se nos 14 dias e o tempo começou a contar quando o avião descolou de Wuhan, na madrugada de 2 de fevereiro. Fará os 14 dias na noite de sábado para domingo e a saída está planeada para umas horas antes.

Pode agora ser feito um primeiro balanço do que foi, na história recente, o período de isolamento profilático mais longo de pessoas à partida saudáveis – os resultados dos primeiros testes foram todos negativos – e em instalações do Estado. Para Graça Freitas, a solução encontrada revelou-se “eficaz” e justificou-se por se estar diante de um vírus e de uma doença nova e de pessoas que tinham estado vários dias no epicentro da epidemia. Na gripe pandémica, em 2009, a opção foi propor o auto-isolamento em casa e Graça Freitas admite que, desta vez, houve algumas vantagens, como maior facilidade de contacto com os técnicos de saúde e as pessoas poderem sentir-se mais apoiadas. Mas há sempre inconvenientes. “Na gripe pandémica, as pessoas que regressaram do México no início do surto ficavam em casa e os familiares tinham de sair”, recorda.

Lições? A importância de informação permanente e de negociar as condições, para que haja a melhor adesão possível, responde Graça Freitas. Foi o que aconteceu com o grupo, que a certa altura pediu equipamentos de ginástica ou para que estivessem todos no Pulido Valente e não divididos entre o hospital e o Parque de Saúde de Lisboa. Tiveram também jornais ou cápsulas de café, exemplifica Graça Freitas. “Acho que seria a primeira coisa que eu pedia, mas também achei positivo haver o interesse em manter a prática desportiva”.

Sobre o apelo para que a Constituição seja alterada para permitir a quarentena obrigatória, lançado pelo antigo diretor-geral de Saúde – e que o Chega propôs entretanto no Parlamento, – Graça Freitas defende que para já não se revela necessário, salvaguardando que a legislação permite, em casos em que seja decretada emergência de saúde pública, serem impostas medidas de isolamento, individuais ou até restrições na comunidade. Ontem, uma vila do Vietname, Son Loi, tornou-se a primeira localidade fora da China a impor uma quarentena de 20 dias aos habitantes, depois de serem confirmados 16 casos.

Para Miguel Matos, a negociação de condições foi importante e contribui para um balanço positivo da temporada no Pulido Valente. “Fomos um pouco cobaias. Sabemos que os franceses têm condições melhores, mas há pessoas que voltaram de Wuhan e estão em quartéis e os australianos estão numa antiga cadeia numa ilha. Há sempre questões que podem melhorar, mas temos de estar gratos”.

Para o treinador, contudo, a questão da quarentena obrigatória poderia ser equacionada, até para situações futuras em que possa não haver adesão. Miguel diz que é difícil ficar tantos dias isolado – não haver visitas foi uma das condições que acordaram – mas piores foram os nove dias que passaram em Wuhan e onde as notícias que têm de amigos são de que a situação ainda está muito difícil. “Agora só podem sair de casa uma pessoa da família a cada três dias”, conta. “Estão confiantes de que tudo se vai resolver, só não se sabe quando”.

Essa é também a incógnita para os repatriados que esperam regressar à China. Agora vão aproveitar para estar com a família e não anteveem o regresso antes do próximo mês. Além dos quatro treinadores do Hubei Chugeng Heli, fazem parte do grupo duas atletas brasileiras, estudantes, professores e dois diplomatas que se deslocaram de Pequim a Wuhan para tratar do repatriamento. “É uma experiência que nos vai marcar para o resto da vida”, diz Miguel. “Nós os quatro trabalhávamos juntos mas pensávamos que éramos os únicos portugueses em Wuhan. Tenho a certeza que depois disto tudo alguns de nós nos voltaremos a encontrar lá”.

 

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