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“O jogo contra uma pandemia faz-se com preparação e conhecimento”

“O jogo contra uma pandemia faz-se com preparação e conhecimento”

AFP Marta F. Reis 04/02/2020 12:20

Casos continuam a aumentar na China. Diretor do Centro Nacional de Doenças Infecciosas e Alergias dos EUA admite que uma pandemia é quase certa, mas a severidade é a incógnita. Especialistas ouvidos pelo i dizem que os cenários estão em aberto e que a preparação da resposta é a melhor estratégia.

Há uma semana eram 4 mil casos, ontem passaram a barreira dos 17 mil, com um recorde de 2838 doentes confirmados no espaço de 24 horas. A epidemia do novo coronavírus da China parece continuar numa fase de crescimento e há diferentes perspetivas sobre como vai evoluir daqui para a frente.

Há uma semana, Zhong Nashan, responsável da equipa de investigação da Comissão Nacional de Saúde chinesa, admitiu que o pico poderia acontecer até ao próximo fim de semana, mas investigadores de Hong Kong acreditam que pode só chegar em abril e que até 25 de janeiro já havia 75 mil pessoas infetadas em Wuhan. Evoluirá a crise chinesa para uma pandemia? As opiniões também se dividem, mas há uma recomendação unânime: é preciso os países estarem preparados.

O alerta sobre uma pandemia quase certa foi feito ontem pelo diretor do Instituto Nacional de Doenças Infecciosas e Alergias dos EUA ao New York Times: “É muito, muito transmissível, e será quase de certeza pandémico. Será catastrófico? Não sabemos”, disse Anthony S. Fauci, recordando os receios que havia em torno da gripe A em 2009, a única pandemia declarada este século. “No início dizia-se que era o Armagedão no México, mas acabou por não ser assim tão severo”, recordou.

Especialistas ouvidos pelo i concordam que o cenário de uma pandemia é possível, apesar de a convicção dos peritos da OMS na semana passada ser de que ainda é possível travar o vírus com medidas de contenção fortes e solidariedade com os países mais pobres. Para já, a transmissão limitada fora da China é um sinal positivo. Ontem estavam confirmados 153 casos fora da China em 23 países e foi reportada a primeira morte, nas Filipinas, mas pelo segundo dia não houve nenhum novo país a reportar casos.

“Temos dados positivos em relação à evolução dos doentes que têm sido detetados na Europa que nos dão alguma tranquilidade. Não temos nenhuma morte e a transmissão é limitada, mas isso não deve diminuir o nível de preocupação e de responsabilidade”, disse ao i Filipe Froes, pneumologista e coordenador do gabinete de crise da Ordem dos Médicos. “Uma pandemia é um cenário possível, para o qual temos de estar preparados. É como a frase do futebol: prognósticos, só no final do jogo. Mas o que também sabemos do futebol é que a sorte conta pouco. A equipa que se prepara melhor, que é mais regular, que tem melhor capacidade de se preparar é a que ganha. O jogo contra uma pandemia é um jogo de paciência, preparação e conhecimento”.

Nos últimos dias, a forma como as autoridades portuguesas lidaram com o segundo caso suspeito do coronavírus, de um técnico italiano que esteve cinco horas numa ambulância à porta de uma fábrica em Felgueiras antes de ser levado para o hospital de referência, motivou várias críticas – a que se seguiu a denúncia de falta de material de proteção e de instruções por parte dos bombeiros e técnicos do INEM. À TSF, o bastonário dos médicos defendeu que falta formação. “Estamos preparados para lidar com poucos casos. Se houver uma epidemia, não”, disse.

Ontem, em conferência de imprensa, a ministra da Saúde garantiu que os equipamentos necessários estão disponíveis e que haverá melhorias. Também o caso do avião privado chinês autorizado a aterrar nos Açores depois de ser recusado na Islândia e nas Baamas suscitou dúvidas. A diretora-geral da Saúde garantiu que não vinha do epicentro da doença, mas há poucas informações sobre o grupo. Para Filipe Froes, a comunicação é vital durante uma epidemia. “Uma das coisas que aprendemos durante a epidemia de gripe A é a importância de uma comunicação transparente e acessível. O trabalho da comunicação social tem de ser respeitado. Se não colaborarmos, não podemos mais tarde acusá-la de alimentar o alarmismo”.

Alfredo Martins, coordenador do núcleo de estudos de doenças respiratórias da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna, defende também ao i que o foco deve ser a vigilância, preparação e contenção, considerando o isolamento dos portugueses repatriados apesar de terem testado negativo para o vírus um bom exemplo. Deveria ser feita a mesma recomendação a quem tenha estado noutras zonas da China? Para o especialista, não existe para já evidência para essa recomendação. “Mais de 60% dos casos são na província de Hubei”, afirma.

O especialista considera que o desfecho desta epidemia na China e as consequências para o mundo são ainda imprevisíveis. Até ao momento, a taxa de mortalidade do vírus é baixa, na casa dos 2%, mas num cenário de pandemia, em que afetasse milhões de pessoas, seriam muitos milhares de casos mortais. Por isso mesmo, um vírus menos severo pode ter um grande impacto. “Penso que não estamos perante uma catástrofe iminente, mas não sabemos a longo prazo se a epidemia vai durar muito tempo. Pode ser como o vírus da gripe, que circula por todo o mundo, mas neste momento estamos perante um vírus e uma doença nova que não conhecemos bem”.

Ontem, especialistas de Hong Kong tornaram a alertar que os casos conhecidos em Wuhan podem ser apenas a ponta do iceberg, depois de na sexta-feira ter saído na revista Lancet a projeção de que haverá pelo menos 75 mil casos na cidade. Pequim tenta travar o surto e o comité permanente do Partido Comunista da China assumiu algumas deficiências na resposta, mas, ao mesmo tempo, cresce a tensão diplomática. Hua Chunying, porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês, acusou os EUA de espalharem o pânico com medidas restritivas, contrárias à OMS, que tem sistematicamente elogiado a capacidade do país. Mas são já vários os países a avançar com medidas restritivas: Austrália e Singapura também proibiram a entrada de estrangeiros que tenham estado na China e países como Egito, Finlândia, Indonésia, Reino Unido e Itália suspenderam os voos para o país.

 

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