19/8/19
 
 
José Cabrita Saraiva 18/07/2019
José Cabrita Saraiva
Opiniao

jose.c.saraiva@newsplex.pt

Escrever com erros não dá multa nem prisão

Hoje, que tanto se valoriza a inovação e o “pensar fora da caixa”, não fica nada bem dizer isto – mas a resistência indignada às regras do Acordo Ortográfico (AO) de 1990 configura, as mais das vezes, uma atitude reacionária. O povo português é em geral conservador no gosto e nos hábitos e convive mal com a mudança.

Hoje, que tanto se valoriza a inovação e o “pensar fora da caixa”, não fica nada bem dizer isto – mas a resistência indignada às regras do Acordo Ortográfico (AO) de 1990 configura, as mais das vezes, uma atitude reacionária. O povo português é em geral conservador no gosto e nos hábitos e convive mal com a mudança.

Basta olharmos para um livro ou um jornal antigo para percebermos que a ortografia tem evoluído no sentido de uma saudável simplificação – ou descomplicação, se preferirmos. Gostaríamos de ainda escrever lucta, cahir, producção, egualdade ou solemne? Eu não, decididamente.

É, portanto, natural que a língua mude, se adapte, evolua – e o Acordo Ortográfico contribui para isso. O que não significa que seja perfeito. De facto, esta versão coloca alguns problemas mais ou menos bicudos que até já foram elencados pela Academia de Ciências: só para dar o exemplo mais gritante, não faz qualquer sentido escrever-se “para” em vez de “pára”, do verbo parar.

Ontem, o Parlamento teve oportunidade para discutir a questão e, eventualmente, começar a resolvê-la, mas o Partido Socialista preferiu adiar a votação do grupo de trabalho que avalia o impacto do AO. Se a intenção é salvaguardar o acordo, fez mal, porque enquanto se mantiverem incoerências como aquela que apontei os críticos vão ter à sua disposição mais argumentos que dão força à posição conservadora, que pretende revogar o acordo de uma vez por todas. No ponto em que as coisas estão, julgo que isso seria um erro; porém, se há arestas para limar, então que se limem rapidamente.

Evidentemente, os adversários do acordo não estão interessados no compromisso: preferem continuar a vilipendiar a “nova” grafia e a chamar-lhe um crime de lesa-pátria. Sinceramente, as injúrias parecem-me exageradas. Afinal, cada um pode fazer o que quiser. Querem escrever sem o acordo? À vontade. Que eu saiba, não é proibido, da mesma forma que nunca ninguém foi preso nem teve de pagar multa por dar erros de ortografia. 

Iniciar Sessão
Esqueceu-se da sua password?

×
×

Subscreva a Newsletter do i

×

Pesquise no i

×