23/7/19
 
 
António Luís Marinho 12/07/2019
António Luís Marinho
cronista

opiniao@newsplex.pt

Racistas? Nós?!

Considero alguns argumentos da historiadora racistas, mas não acompanho a alegada legitimidade de queixas na ERC.

Em novembro de 1963, pela primeira vez, Salazar recebeu secretamente o político africano Moisés Tshombé, que declarara três anos antes, na sequência da independência do ex- -Congo belga, a secessão do Catanga, a região mais rica daquela ex-colónia.

Portugal apoiou discretamente a secessão do Catanga, que faz fronteira com o norte de Angola, contando com a garantia de Tshombé de não hostilizar a então província ultramarina portuguesa.

O líder africano foi recebido por Salazar mais três vezes, nos anos seguintes.

Foi no final da terceira reunião que o presidente do Conselho confidenciou ao seu ministro dos Negócios Estrangeiros, Franco Nogueira: “Gostei do homem. Olhe, promovi-o a branco”.

Vem esta história a propósito da polémica levantada pelo artigo da historiadora Fátima Bonifácio sobre a proposta socialista de quotas étnico-raciais e que foi considerado racista, merecendo mesmo queixas na ERC e promessas de processos judiciais.

Antes do mais, esclareço que considero alguns argumentos da historiadora racistas, mas não acompanho a alegada legitimidade de queixas na ERC e muito menos de processos judiciais.

Embora não pelos melhores motivos, o texto de Fátima Bonifácio espoletou um debate que a sociedade portuguesa tem de fazer com serenidade e, sobretudo, com inteligência.

Está na hora de discutirmos tudo, desde as teses de “sermos pouco racistas” – como se o racismo se medisse – provindas do nosso passado colonial, até ao pretenso integracionismo da sociedade portuguesa, sendo verdade, no entanto, que segundo o relatório de 2018 da FRA (Agência dos Direitos Fundamentais da União Europeia), intitulado Being Black in the EU, entre 12 países europeus analisados, Portugal foi o país que apresentou as menores taxas de violência e de vitimização motivadas por racismo.

Neste debate, que deve ter sentido de futuro e não ser um pretexto para revisionismo histórico, com muitos pedidos de perdão, vale a pena discutir questões, como a das quotas, que estiveram na origem da polémica.

O racismo, cuja existência teimamos em ignorar, é, voltando à história de Salazar, um olhar de superioridade de uma raça, a branca, sobre todas as outras, com especial incidência na negra, escravizada durante séculos e objetivamente discriminada até aos nossos dias.

É um sentimento secular de superioridade branca a que o aproveitamento do poema de Kipling, “O fardo do homem branco”, nos finais do séc. xix, deu uma aura de missão grandiosa:

“Tomai o fardo do Homem Branco /Enviai os vossos melhores filhos/ Ide, condenai os vossos filhos ao exílio/ Para servirem aos vossos cativos/ Para esperar, com chicotes pesados/ O povo agitado e selvagem/ Vossos cativos, tristes povos,/ Metade demónio, metade criança”.

Regressando ao ditador português, na sua perspetiva, gostar de um negro equivalia a promovê-lo a branco – isto é, colocá-lo num outro patamar, mais elevado.

Gostaria de acreditar que todo este sentimento e toda esta mentalidade estão mortos e enterrados, pertencem ao passado, frutos de uma época.

Mas não sou assim tão otimista.

 

Jornalista

 

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