17/6/19
 
 
Mário João Fernandes 14/06/2019
Mário João Fernandes

opiniao@newsplex.pt

Um primeiro-ministro consumidor de estupefacientes?

A campanha eleitoral para a escolha do líder dos Tories ocupa-se do doping e não do Brexit.

 

No Reino Unido, o respeito pelos eleitores obriga os jornalistas a dirigirem aos candidatos a primeiro-ministro perguntas que, na Lusitânia, são impossíveis por mor do “respeitinho”. Na disputa pela liderança do Partido Conservador, a antecâmara que dá acesso ao n.o 10 de Downing Street, o tema do consumo de drogas está a monopolizar a discussão. O tiro de partida foi dado contra Michael Gove, candidato repetente a líder, Brexiteer e ex-jornalista, anunciado como consumidor de cocaína. O visado confirmou, remetendo o consumo para os tempos em que jornalava, coisa com 20 anos. Seguiu-se o inefável Boris que, numa recriação do melhor estilo clintoniano (“inala mas não engole”), anunciou aos costumes ter em tempos tentado snifar coca, tarefa impossibilitada por um oportuno espirro. Uma ex--locutora da BBC, candidata a miss simpatia, também foi dada pela imprensa como consumidora pretérita, confirmou o facto e foi ontem eliminada da corrida à liderança, tendo obtido o menor número de apoios (as drogas matam). Andrea Leadsom, a ex-líder parlamentar dos Tories, apressou-se a comunicar ao mundo ter fumado erva durante o percurso universitário e garantiu o terceiro pior resultado (e a eliminação) na primeira ronda da escolha do novo líder. No entretanto surgiram na fila dos candidatos mais cinco consumidores confessos. Até ao final da semana deverá ser difícil aos que não possam provar ter consumido drogas continuar na corrida para a liderança. O Partido Conservador já não é o que era…

Os efeitos do consumo fazem-se sentir nos programas eleitorais dos candidatos, um dos quais se transformará no programa do próximo Governo. O team Boris anunciou o projecto de suspender a actividade do Parlamento, evitando que Westminster interfira na negociação do Brexit, desde logo proibindo um Brexit sem acordo de saída. A possibilidade de suspender o Parlamento, para fugir à maioria que recusa um Brexit sem acordo e sem convocar eleições, suscitou um coro de críticas, algumas referindo a inconstitucionalidade da coisa. Talvez não se chegue a tanto numa matéria em que a prerrogativa real se traduz em seguir as indicações do PM de turno, no fundo o único responsável pela liderança política e aquele que terá de responder perante os eleitores. Aqui por Xelas aposta-se numa nova extensão do prazo para o Brexit, para lá de 31 de Outubro.

A escolha do primeiro-ministro acontecerá por via dos militantes Tories, que elegerão um dos dois finalistas seleccionados por sucessivas rondas eliminatórias em que só votam os deputados conservadores. A legitimidade democrática do procedimento tem que se lhe diga. Nas recentes eleições para o Parlamento Europeu, os conservadores obtiveram 8% dos votos. Os militantes do partido somam 160 mil, para 66 milhões de habitantes no Reino Unido. Mais de 30 mil militantes aderiram no último ano, vindos das fileiras do UKIP e com uma agenda política francamente extremada, favorável ao “no-deal” Brexit, muito longe da realidade de um eleitorado dividido ao meio, quer no referendo de 2016, quer nas sondagens mais recentes.

Comparando este mecanismo de escolha do novo PM com a realidade portuguesa, respeitando a proporção entre os decisores e a população total, seria o equivalente a confiar aos votantes no PCTP-MRPP nas recentes eleições para o PE (em número de 27 223...) a escolha do próximo ocupante do n.o 4 da Rua da Imprensa à Estrela.

Escreve à sexta-feira, sem adopção das regras do acordo ortográfico de 1990
 

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