25/6/19
 
 
Carlos Diogo Santos 22/04/2019
Carlos Diogo Santos
.

carlos.santos@newsplex.pt

Não é só Lisboa que gosta de ser francesa

Antes de Notre Dame ainda precisamos ver o que podemos fazer pelas vítimas de Moçambique. Quando esgotarmos tudo, então aí devemos ajudar nas reconstruções, mas diria que começaríamos pela do Museu do Nacional do Rio de Janeiro. Esse sim, faz parte da nossa história.  

O mundo ocidental está definitivamente com os seus valores trocados. Ver Notre-Dame a arder foi um momento horrível que não pode deixar ninguém indiferente. Não tendo um fascínio especial pela capital francesa, o certo é que aquele símbolo era de facto um dos mais especiais, não só pelo que foi, como pelo imaginário que à sua volta se criou.

As imagens incomodavam tanto que era impossível não sentir impaciência com a demora dos meios a chegar ao terreno e a começarem a fazer o trabalho visível através das câmaras de televisão.

E o momento em que o pináculo desabou foi uma imagem de como a nossa história pode ser consumida em poucos minutos – uma imagem que devemos recordar para sempre até para evitar que outros desastres aconteçam por cá.

Mas as imagens de Moçambique, aquelas mães que passaram noites a segurar os filhos fora de água, aqueles homens e mulheres que ficaram de um momento para outro a viver na rua, aqueles homens e mulheres que do nada morreram e deixaram dezenas de órfãos, aquelas crianças... Essas imagens, sim, são uma história mais minha. Aqueles vidas sim estão ligadas a nós e nós a elas.

A mim enquanto português choca-me a maior generosidade com Notre-Dame do que com Moçambique por dois motivos: o primeiro só vincula aqueles que são portugueses, os laços, o segundo deveria vincular todos, a vida.

A destruição dos registos do passado, do que resta do que fomos, é uma perda civilizacional, mas nada comparado à perda de centenas de pessoas, à destruição do futuro.

Surpreende por tudo isto que poucas horas após o incêndio de Notre-Dame seja anunciado que os donativos iniciais dados a Notre-Dame foram 16 vezes maiores do que os existiram para a Beira, onde além das 600 mortes um milhão e meio de pessoas foram afetadas.

O ciclone Idai, que assolou Moçambique, Malaui, Zimbabué e Madagáscar, deixou um rasto de destruição cujos prejuízos estão avaliados em cerca de dois mil milhões de euros e nos primeiros seis dias foram angariados 57 milhões de euros para os países afetados. A soma que nas primeiras horas foi conseguida para Notre-Dame não tem sequer comparação: 900 milhões de euros.

Nada temos a ver com a forma como os milionários franceses – responsáveis por parte significativa destas doações – gerem as usas fortunas e se preferem doar à causa x ou y. Mas devemos ser exigentes quanto ao que será aplicado por nós cidadãos, enquanto União Europeia e enquanto país, sim, porque Portugal já anunciou que quer fazer parte da reconstrução – ainda que a posição não tenha sido clara.

Acho muito bem que façamos parte da reconstrução, desde que não seja um apoio desproporcional face ao que estamos dispostos a fazer quando se trata de uma história que nos é mais próxima e, sobretudo, que ‘mete’ vidas humanas.

A esse propósito vale a pena refletir ainda sobre o que Portugal e as autoridades portuguesas fizeram quando em 2015 houve o incêndio do Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, ou quando no fim do ano passado ardeu o Museu Nacional do Rio de Janeiro. Se Notre-Dame faz parte da nossa história como tanto tenho ouvido, estes dois museus são a nossa história.

E, por isso, Portugal tinha obrigação de ser extremamente ativo na reconstrução dos mesmos, de mostrar uma disponibilidade ímpar. 

Iniciar Sessão
Esqueceu-se da sua password?

×
×

Subscreva a Newsletter do i

×

Pesquise no i

×