20/4/19
 
 
João Luís Mota de Campos 17/04/2019
João Luís Mota de Campos

opiniao@newsplex.pt

Europa, Europa

Nas próximas eleições europeias o que está em jogo é saber para que lado pende a Europa: para o espírito de farol de esperança no mundo ou para a luta mesquinha de egos nacionais.

Fará por estes dias 2420 anos que um exército de mercenários gregos foi contratado pelo príncipe Ciro da Pérsia para o ajudarem a derrubar o seu irmão Artaxerxes, que então reinava.

A campanha iniciada em 401 a.C. foi muito mal sucedida e Ciro morreu. Os mercenários gregos negociaram com o imperador Artaxerxes a sua retirada das terras persas, e ao longo de dois anos, até 399 a.C., os 10 mil mercenários atravessaram penosamente a Mesopotâmia até ao mar Negro.

Sabemos do detalhe desta aventura, uma das mais famosas aventuras militares de todos os tempos, porque o último comandante do exército grego juntou às suas qualidades de estratega a de escritor; chamava-se Xenofonte e escreveu um dos mais famosos livros da Antiguidade, a Anábase ou a Retirada dos Dez Mil.

Depois de atravessarem a Pérsia e a Mesopotâmia e a Ásia Menor, os gregos chegaram ao mar Negro. A Anábase conta-nos a reação do exército à medida que os hoplitas chegavam à crista da montanha da qual se avistava o mar: um imenso rumor propagou-se a todo o exército e os soldados gritavam “o mar, o mar!”.

Este grito de libertação, o mais célebre da literatura clássica, veio a significar a alegria do regresso a uma civilização conhecida, no caso, para os gregos, a europeia.

Nos dois mil anos seguintes, Alexandre o Grande conquistou meio mundo conhecido, nasceu o Império Romano e desapareceu Cartago, deu-se o mais importante e consequente acontecimento da história do Ocidente, o nascimento e a morte e ressurreição de Cristo, desapareceu o Império Romano, nasceu e morreu o Império Carolíngio, aconteceram as Cruzadas, os reinos ibéricos lançaram--se ao mar e descobriram o mundo…

Mas, quando em 1533 o tradutor italiano Romolo Amaseo traduziu a Anábase, dedicou-a a Carlos v, com a menção de que ela inspirasse o imperador a combater os turcos e a reconquistar Constantinopla, fazendo um paralelo entre a Marcha dos Dez Mil e a recente expedição húngara contra os turcos, de Carlos v, o imperador do Sacro Império Romano-Germânico.

Não haverá dúvidas de que no espírito de Xenofonte, de Marco António, de Carlos v ou de Edward Gibbon, o grande historiador inglês do século xviii, o símbolo mais óbvio da Anábase é o triunfo do espírito europeu, não de um país em particular, mas da Europa.

Fast forward, chegamos a 8 de maio de 1945. A ii Guerra Mundial terminou, os alemães apresentam a sua rendição incondicional. Numa Berlim devastada, o marechal Keitel, à frente da delegação alemã, entrou na sala onde o esperavam os altos comandos aliados para apresentar a rendição da Alemanha. Keitel entrou na sala onde ia decorrer a cerimónia, fardado de gala para a ocasião, momentaneamente ofuscado pelas luzes das câmaras de filmar; reparou então que entre os altos comandos aliados estava o general francês Jean de Lattre de Tassigny. “Ah, os franceses também cá estão, só nos faltava isto!” exclamou.

A Europa é um continente, uma civilização e um estado de espírito. A União Europeia junta a isso uma tentativa de institucionalizar aquilo que temos em comum.

Nas próximas eleições europeias, e para além delas, o que está em jogo é saber para que lado pende a Europa: para o espírito do Anábase, da luz na escuridão, do farol de esperança no mundo, ou para a luta mesquinha de egos nacionais.

Egos e egoísmos nacionais foi o que mais vimos na crise recente das dívidas públicas dos países da periferia do euro, mas também no Brexit, na reação húngara ou polaca à crise dos refugiados sírios, no entendimento que os políticos italianos têm vindo a demonstrar da União e até na forma como certos políticos do norte europeu se referem aos países do sul.

Pôr em comum exige espírito de conciliação e partilha; era o espírito de Jean Monnet plasmado no artigo 1.o do Tratado da União Europeia: “O presente Tratado assinala uma nova etapa no processo de criação de uma união cada vez mais estreita entre os povos da Europa, em que as decisões serão tomadas de uma forma tão aberta quanto possível e ao nível mais próximo possível dos cidadãos”.

Mas a comunhão corporizada na União exige também, de todos, espírito de coesão, disciplina coletiva e sujeição aos objetivos comuns.

Sem a disciplina coletiva não há União possível nem espírito europeu que resista. Podemos até voltar ao texto com 2400 anos da Anábase, que relata bem como só com extrema disciplina coletiva, sujeição férrea aos objetivos comuns e espírito de coesão foi possível àqueles 10 mil mercenários regressar a casa e voltar a ver o seu mar familiar.

Curiosamente, a obra dá-nos um excelente exemplo dos desastres que esperam a falta de espírito de corpo: o príncipe Ciro é morto durante a batalha de Cunaxa porque, num ato arrogante, o comandante grego, Clearco, ignora as ordens do príncipe e a tática previamente definida para a batalha.

Numa época tão confusa e perigosa como aquela em que vivemos, rodeados de perigos por todos os lados, desde a desistência americana do consenso ocidental até à imparável ascensão da potência chinesa, só uma Europa disciplinada e coesa pode contar no mundo. Cada país que a integra é uma pequena e irrelevante potência, chame-se Alemanha ou Chipre, que por si nada vale.

Nesta encruzilhada em que nos encontramos, tudo é possível, incluindo o pior. É nossa missão e encargo fazer tudo quanto esteja ao nosso alcance para merecer o sucesso da União Europeia, que é o nosso próprio bem.

 

Ex-secretário de Estado da Justiça

Advogado, subscritor do “Manifesto: Por Uma Democracia de Qualidade”

 

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