20/4/19
 
 
Eduardo Oliveira e Silva 17/04/2019
Eduardo Oliveira e Silva

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Agora sim, o diabo espreita

Os indicadores económicos imediatos e a sustentabilidade da segurança social a médio prazo não auguram nada de muito bom.

1. Os indicadores económicos que vão sendo conhecidos quase diariamente apontam para um óbvio arrefecimento da nossa economia, atingida por uma situação de contexto mundial que vai no mesmo sentido. Independentemente do retrato que Mário Centeno faça num sentido mais ou menos otimista, há uma desaceleração das grandes economias europeias, da própria China e dos Estados Unidos. Sem serem dramáticas, as perspetivas são, no entanto, preocupantes e podem atingir os países mais frágeis, entre os quais se encontra Portugal que, apesar de ter recuperado em termos de contas públicas (por via de uma carga de impostos diretos e indiretos absolutamente gigantesca), continua a apresentar fragilidades de toda a espécie, nomeadamente ao nível da sua dívida externa. Os dados recentes da OCDE mostram também que a nossa classe média (que, na realidade, é uma classe média baixa e empobrecida) está sobre- -endividada, o que é recorrente e perigoso. O panorama geral é, portanto, preocupante e pode deteriorar-se muito rapidamente se a conjuntura internacional se agravar. O Governo de António Costa conseguiu gerir a situação até agora, nomeadamente através de medidas de recuperação de rendimento no setor estatal, mas é preciso ser claro quanto a ela. Um caminho desses só é possível num ambiente de crescimento e desenvolvimento económico. Num contexto de retração, como o que pode estar a acontecer, é praticamente impossível não haver problemas financeiros, aumento do desemprego e diminuição do investimento. Haverá que ver se a conjuntura interna e externa ainda consegue inverter a tendência negativa que se vislumbra para que não tenhamos de nos confrontar com a vinda do diabo, que anda sempre à espreita.

 

2. Há dias, a televisão France 2 apresentou uma pequena reportagem sobre os reformados portugueses, comparando--os com os franceses. Meteu dó. Em Portugal, sublinhava-se que os reformados têm de trabalhar até aos 66 anos e meio para pararem. Lá, reformam-se aos 62. Depois, o nível de felicidade é incomparável, com vantagem para (adivinhem?) os franceses, que conseguem dispor de um rendimento que, em geral, é mais de três vezes superior ao de cá. Naquele retrato jornalístico não transpareceu o Portugal do António, do César, da Mariana, da Joana ou do Jerónimo. O que se viu foi país verdadeiro. O que aufere as pensões cortadas do Vieira da Silva e a quem, por via da banca, um tal Joe deve mais de 980 milhões, que acabarão por ser pagos por cada um dos habitantes do retângulo à beira-mar plantado. Só para se ter uma ideia, o total da dívida do comendador corresponde a qualquer coisa como 100 euros por cada português. Para nos animar surgiu, entretanto, um estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos que aponta para um aumento do tempo de trabalho que pode ir mesmo até aos 69 anos. A baixa da natalidade e o aumento da esperança de vida são algumas das causas apontadas. Como soluções eventuais aponta-se a hipótese de haver descontos para instituições ou fundos privados. A ideia não é nova e os fundos, recorde-se, são aqueles instrumentos que, volta e meia, declaram falência ou estão ligados a bancos que, por vezes, nos põem a pagar imparidades ou desaparecem, deixando os calotes aos contribuintes. Segundo o estudo, o desequilíbrio da segurança social vai acontecer a partir de 2028. Uma segurança social assente num pressuposto de desconto direto e parcial dos cidadãos para a área privada pode ser possível na Suécia ou noutros países escandinavos, porque por lá não há memória de casos de falências de instituições financeiras privadas, uma vez que o controlo é rigoroso e as penas são exemplares. Alguém ouviu falar de casos como o BES, o BPN, o BPP, o Banif ou o Montepio por aquelas bandas?

 

3. À medida que se aproximam as eleições europeias aumenta a tensão política e cresce a preocupação de António Costa. Os dados disponíveis apontam para uma descida da adesão ao PS e à geringonça. Obviamente que a realidade só se conhecerá depois do escrutínio, mas há uma tendência que está identificada e ela é negativa para Costa, o que não surpreende em função das dificuldades que vem enfrentando com casos como os dramas dos incêndios, o de Tancos, o “Familygate”, o aumento do custo de vida, a ineficácia da segurança social, as falhas sistemáticas na saúde, a ausência de uma justiça célere num cenário de corrupção e de falta de meios para assegurar a segurança através da PSP e da GNR, além do clima de confronto com certas forças profissionais, como os professores. Há, em síntese, a constatação evidente do fracasso da estrutura do Estado em quase todos os setores cruciais. E isso é negativo em primeira linha para o governo, mas pode afetar toda a classe política e os partidos, designadamente por via de uma abstenção inaudita. Entre nós não há, nem é provável que venha a existir tão cedo, um movimento populista de esquerda ou de direita. O mais perto que há do populismo é o Bloco de Esquerda, mas já se percebeu que o cheiro a poder o fascina, assim como atrai o PCP, que parece decidido a manter a geringonça, apesar dos arrufos de alguns comunistas mais ortodoxos, que têm vindo a ser afastados do partido. O populismo português existe, mas está ainda na fase anónima, exprimindo-se pelas redes sociais. As condições sociais não lhe permitem expandir-se porque não há causas nacionalistas fraturantes, o que não quer dizer que, ao nível da degradação das condições sociais, elas não existam. É, portanto, preciso cuidado, pois é outro diabo que anda à solta.

 

Escreve à quarta-feira

 

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