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Os vários bloqueios que ameaçaram e chegaram mesmo a parar o país

Os vários bloqueios que ameaçaram e chegaram mesmo a parar o país

Miguel Silva Sónia Peres Pinto 17/04/2019 08:12

Uma das maiores paralisações ocorreu em 2008. Ânimos exaltaram-se, postos de gasolina ficaram
sem combustível e supermercados sem produtos.

Nos últimos anos tem havido sucessivas ameaças de paralisação. Uma das últimas grandes reivindicações foi feita em junho do ano passado pela Associação Nacional de Transportadoras Portuguesas (ANTP), depois de ter feito um ultimato ao Governo exigindo que o aumento dos combustíveis fosse refletido no preço do serviço e descontos nas portagens.

No caderno reivindicativo constavam questões como a descida do combustível em quatro cêntimos, a fixação da reforma para os motoristas aos 60 anos, a exclusão de pagamento nas ex-Scut (estradas sem custos para o utilizador) e os pagamentos a 30 dias.

Em junho de 2016 tinha sido a vez da Associação Nacional de Transportadores Públicos Rodoviários de Mercadorias (ANTRAM), após o Governo ter anunciado um aumento de seis cêntimos por litro no imposto do gasóleo rodoviário. Na altura, a entidade lembrava que este setor estava a ser fortemente penalizado nos últimos anos. De acordo com as contas da ANTRAM, teriam encerrado cerca de três mil empresas nos três anos anteriores. A associação justificou o fecho destas empresas com os mais variados fatores, nomeadamente a dificuldade das empresas em obterem financiamento, o elevado preço dos combustíveis – ainda sem contar com as novas subidas propostas pelo Governo – e a elevada carga fiscal.

 

2008 parou o país

O aumento dos preços dos combustíveis foi uma das principais razões que levaram à rua milhares de camionistas em 2008, por considerarem que estava a afetar os recursos das empresas de transportes. O país era liderado por José Sócrates e o ministro com responsabilidade nesta pasta era Mário Lino.

Os camionistas apresentavam ainda outras reivindicações: queriam ter acesso ao gasóleo profissional (taxado com imposto mais baixo), debater a redução das portagens à noite, os apoios ao abate de veículos, os incentivos à formação profissional ou a suspensão do pagamento do IVA referente a faturas que ainda não tinham sido pagas pelos clientes.

O bloqueio foi marcado entre 8 e 12 de junho, depois de ter sido realizado um plenário que juntou mais de mil transportadores de mercadorias, na Batalha, e de terem ensaiado um primeiro bloqueio no Porto. Mas acabou por ser levantado ao fim de três dias.

Esta iniciativa nunca contou com o apoio da associação do setor, a Associação Nacional de Transportadores Públicos Rodoviários de Mercadorias, por esta considerar que estava em negociações com o governo. Na altura, a entidade chegou a apelar “ao bom senso e à serenidade dos ânimos”, afirmando ainda que aguardava “que as reuniões que estavam a decorrer resultassem num entendimento que satisfizesse as pretensões de todos os transportadores públicos rodoviários de mercadorias”.

Mas a paralisação manteve--se apesar dos apelos da ANTRAM e o terceiro dia ficou marcado pela morte de um camionista que participava num piquete de greve, perto de Torres Novas. O camionista morreu na sequência de atropelamento por um pesado.

Um outro camionista português ficou ligeiramente ferido quando tentava impedir que outro, também de nacionalidade portuguesa, abandonasse o Parque TIR de Vilar Formoso para regressar a casa. A Guardia Civil acabou por identificar os dois camionistas, um por atropelamento e outro por dano.

Mas as consequências deste bloqueio não ficaram por aqui. Vários camiões foram apedrejados, e furados pneus e depósitos de combustível por camionistas paralisados entre Aveiras de Cima e Carregado.

 

Postos sem combustível

Também o combustível começou a faltar em vários pontos do país, e a GNR teve de escoltar vários camiões-cisterna, nomeadamente os que se dirigiam para o aeroporto da Portela, a partir de Aveiras de Cima.

Os militares montaram uma zona de segurança em torno da coluna de camiões, isolando-os de viaturas. As pontes e acessos à A1 foram cortados à passagem dos camiões, para “garantir a segurança da coluna” que ia abastecer o aeroporto.

A hora do jogo Portugal-República Checa – no dia 11 de junho – chegou a ser aproveitada para a passagem de um camião com combustível, para os bombeiros de Almada, que acabou por passar despercebido ao piquete de Aveiras de Cima, cujos elementos estavam a assistir ao jogo.

Perante estas paralisações, a Associação Nacional de Revendedores de Combustíveis (Anarec) chegou a dizer que o país “estava a secar completamente”, considerando que a situação só se resolveria quando o governo baixasse o imposto sobre produtos petrolíferos (ISP). “O país está todo a saque e o ministro, teimoso, não quer baixar o ISP”, criticou, na altura, o responsável máximo da associação.

O certo é que muitos postos do país chegaram a fechar por falta de combustível, nomeadamente em Coimbra, Batalha, Leiria, Lisboa, Oeiras, Montijo, Carnaxide e Amadora.

Os problemas não se fizeram sentir apenas no abastecimento de combustíveis. Também os supermercados foram atingidos, com a associação do setor a alertar para a falta de produtos hortofrutícolas e peixe nos estabelecimentos, principalmente no centro e sul do país, devido à paralisação dos transportes de mercadorias. A falta de embalagens de água e de peixe, carne, frutas e legumes frescos foi bem visível em muitas grandes superfícies.

Esta paralisação afetou também outros setores, como o turismo (com os transfers reduzidos por falta de combustíveis), o papel (as associações diziam que podia faltar para os jornais e revistas), os produtores de leite ou o abastecimento de farmácias.

José Sócrates, na altura primeiro-ministro, chegou a afirmar que era preciso “tirar ilações do que aconteceu” e admitiu que, em alguns momentos, sentiu “o Estado vulnerável”. No entanto, depois de várias horas de negociações entre o ministro Mário Lino e os grevistas, foi obtido um novo pacto, ratificado de novo na Batalha, com a presença de dois milhares de empresários.

O acordo acabou por não incluir o gasóleo profissional, reivindicado pelos camionistas num momento em que o diesel havia ultrapassado pouco antes o euro por litro, mas contemplava outras questões como descontos nas portagens noturnas, mais formação profissional, descontos fiscais e a majoração das despesas de combustíveis.

Estas propostas satisfizeram o setor, que depois assistiu à subida do combustível para valores na ordem dos 1,5 euros por litro. O fim da crise foi saudado pelo Presidente da República, que considerou te sido reposta a “legalidade” e a “ordem pública” no país.

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