22/2/19
 
 
Luís Natal Maques 14/02/2019
Luís Natal Marques
Opinião

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A cal e o carvão

Não gosto de generalizações abusivas. Dizer que o povo português é racista preocupa-me, até porque não sou adepto de quaisquer tipos de discriminação

“A injustiça em qualquer lugar é uma ameaça para a justiça em todos os lugares.”

Martin Luther King Jr.

 

Não gosto de generalizações abusivas. Dizer que o povo português é racista preocupa-me, até porque não sou adepto de quaisquer tipos de discriminação, sejam elas de raça (que não sei muito bem o que isso seja), de costumes ou de qualquer outra natureza. Afinal não somos todos PESSOAS?

Confesso que conheço alguns racistas, com os quais não privo (e conheço-os de diversas cores), que manifestam esse sentimento em relação a toda a gente, independentemente da cor da pele, porque a sua fronteira é... a sua própria pele.

Vi em tempos bem colocada a questão do racismo numa conferência organizada pela Casa Fernando Pessoa (ao tempo, dirigida pela Inês Pedrosa) e para a qual foram convidados dois palestrantes: Caetano Veloso e José Cícero, ambos brasileiros, portanto.

Lembro-me da estranheza que ambos manifestaram pelo facto de, hoje, os americanos se colocarem como os campeões dos direitos cívicos. Logo eles, que só na década de 60 permitiram que brancos e pretos andassem nos mesmos autocarros, permissão forçada pela intensa luta dos negros pelos seus direitos cívicos.

Referiram os conferencistas duas abordagens à questão do racismo, facilmente percetíveis e que retive.

Uma, a americana, resultante de uma leitura muito puritana da sociedade, em que cada raça deve ser acomodada na sua gaveta e por lá ficar: nada de misturas. Lembremos que os puritanos se consideravam eleitos de Deus e que saíram da Inglaterra, rumo à América, em choque com a coroa, por quererem purificar o anglicanismo. Defensores da predestinação, ao verem chegar os escravos negros ao solo americano concluíram ser vontade de Deus essa sua condição.

A cultura que os radicais puritanos transportaram para o outro lado do Atlântico prevaleceu e levou a que a luta pela igualdade, leia-se direitos cívicos dos negros americanos, fosse essencialmente empreendida na perspetiva da igualdade perante a lei. É disso que os americanos falam quando se referem à luta contra o racismo. Falam de leis que são iguais para todos e que a todos se aplicam sem distinção de raça.

Outra aceção, mais nossa, portuguesa, é a que vai na linha de Gilberto Freyre: a miscigenação enquanto promoção da igualdade entre as raças.

Sempre podemos dizer que a miscigenação teve por base o domínio (poder) que os portugueses tinham sobre os povos indígenas, ou interesses económicos de um povo desprovido de capital e levado, por isso, a casamentos de conveniência, os quais eram uma porta segura para o acesso às sociedades locais. Mas outros povos europeus estariam nas mesmas condições e nem por isso ousaram misturar-se. Voltarei ao tema.

 

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