22/2/20
 
 
O rótulo de quem vive no Bairro da Jamaica

O rótulo de quem vive no Bairro da Jamaica

Visto do lado de fora, é um bairro pintado de tijolo que afasta as pessoas pelo medo. Lá dentro, há quem tenha vergonha e há quem lute para sair. Só em 2017 é que o governo deu luz verde ao processo de realojamento das famílias do Bairro da Jamaica e até 2022 o bairro deve desaparecer. Até lá, as visitas da polícia são constantes.

No ano passado, Joelma Mendes comprou um frigorífico num supermercado e pediu que fosse feita a entrega em casa. Pagou e deu a morada: bairro Vale de Chícharos, lote 15, Amora-Seixal. A entrega foi recusada depois de dizer onde vive e foi obrigada a pedir o dinheiro de volta. Joelma é uma das cerca de 200 pessoas que vivem hoje no Bairro da Jamaica, conhecido pelo cenário pintado por prédios inacabados de tijolo e pela falta de segurança. Ninguém quer entregar ali frigoríficos, ou o que quer que seja. “Compra de eletrodomésticos, instalação de tv cabo, algumas empresas de tv cabo não vêm aqui por causa do nome do bairro, têm medo”, diz o marido de Joelma, Salimo Mendes, ao i e pergunta ainda se o bairro não parece calmo. Trata-se aqui de uma questão retórica – todos sabem a resposta, mas ninguém se atreve a dá-la.

Há uns anos, o Bairro da Jamaica foi palco de algumas intervenções policiais devido aos assaltos e casos de violência – episódios que ficaram na memória de quem vê do lado de fora e marcados em quem vive lá dentro. As condições são visivelmente más e, apesar de a Câmara Municipal do Seixal e o Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana já terem conseguido realojar 187 pessoas que viviam no lote 10 – um investimento de 15 milhões de euros – ainda há muitas pessoas que esperam a sua vez.

 

“Nós não escolhemos viver aqui”

A questão da habitação é a mais evidente, basta entrar no Bairro da Jamaica – prédios inacabados que viraram o teto de centenas de pessoas e paredes que quase deixam ver o seu interior. A cor de tijolo domina no bairro e assim que saem de casa, a lama nos pés é uma realidade a que já estão habituados. Hoje têm eletricidade, mas há muitos anos não tinham. A canalização continua com problemas e quem vive nas caves – como a dona do último café, conhecida por Dédé – sofre com as inundações que no inverno teimam em não dar tréguas. Os ratos aparecem constantemente e o risco de curto circuito nunca se coloca de parte. “Há pouca gente que gosta de falar sobre isto, as pessoas têm vergonha”, diz Vanusa enquanto se desvia dos buracos de lama e apresenta o bairro.

De todas as casas, há uma que salta à vista por ser diferente. Mesmo de fora, a casa de Salimo e Joelma é diferente de todas as outras – fica no lote 10 e é a única que tem as paredes rebocadas e pintadas. “. A casa tem paredes duplas, tem esferovite, tem tudo”, diz o casal. E garante ainda que no inverno, o frio nem se sente lá dentro. “Nós não escolhemos viver aqui, mas também não tivemos outra oportunidade”, diz Salimo.

O assunto da habitação não é novo. Segundo Manuela Calado, vereadora da Câmara Municipal do Seixal do pelouro da Educação, Desenvolvimento Social, Juventude e Gestão Urbanística, o projeto de recolocação iniciado em 2017 teve um percurso conturbado. Primeiro, porque a câmara não encontrava parceiros para o projeto de realojamento e, em segundo, porque o governo nunca se chegou à frente. Só em 2017, com a criação a Secretaria de Estado da Habitação é que foi possível, já que “a habitação social ainda não é uma competência das câmaras municipais”, diz Manuela Calado.

Neste momento, espera-se que o processo de recolocação das famílias do bairro esteja concluído até 2022. Quanto aos edifícios, o lote 10 – neste momento vazio – preparava-se para ser demolido, mas o atual proprietário dos terrenos recusou e interpôs um pedido de suspensão em tribunal. Até o caso estar resolvido, a câmara garante monetariamente a vigilância do lote 10. “Se em três dias realojámos 64 famílias, provavelmente nos dias a seguir teríamos lá tantas ou mais ”, justifica Manuela Calado.

 

Rótulos de quem vive no bairro

Nas redondezas do Bairro da Jamaica existem cafés, cabeleireiros, comércio local e veem-se crianças e jovens a sair da escola, ou homens e mulheres a regressar do trabalho. Um cenário normal de qualquer cidade ou bairro. Em relação ao bairro onde vive Vanusa, a vizinhança tem opiniões que divergem em alguns pontos.

Alguns dizem que nem dão conta que estão ao lado de um bairro considerado problemático e há quem garanta que nunca ouviu desacatos. Da janela, uma senhora diz ao i que ali “não há problemas”, “às vezes vem a polícia, mas cala-se tudo e eles vão embora”. Percorrendo a rua, está uma senhora que se dirige ao carro, em chinelos e, mesmo não querendo ser identificada, garante que já chamou várias vezes a polícia. A sua casa fica mesmo atrás do bairro e o barulho que ouve todas as noites não a deixa dormir. Na sua opinião, “é a miudagem, os mais velhos trabalham, não fazem estas coisas”, acrescentando que “saem do bairro às tantas e destroem o que apanham à frente, principalmente os carros, estragam os carros”.

O desemprego entre os mais novos é uma realidade que afeta quase todos os jovens. De manhã, os mais velhos saem para trabalhar e são os mais jovens que ficam pelo bairro durante todo o dia. Joelma Mendes conta que quando chegou ao bairro não conseguia encontrar trabalho: “Basta dizer que moro no vale de Chícharos e dizem ‘ah, está bem, vai para casa e depois ligamos’, mas nunca ligam”.

“Quando se vive no bairro já existe o estigma, basta saber que a pessoa vem do bairro e pensam logo que a pessoa é ladra e que não serve para trabalhar”, diz Vanusa Coxi. No entanto, é preciso ver também o outro lado, e os moradores têm essa consciência. Vanusa avisa que “há muitos que não se pode dizer que são desempregados por falta de trabalho”.

Falam em “preconceito doentio que continua até hoje” e o facto de não terem, por exemplo, um contrato a tempo certo, impede muitos deles de conseguir empréstimo no banco para uma casa. A falta de dinheiro é a realidade que enfrentam todos os dias e o principal motivo pela qual estão ali. Vanusa já tentou sair duas vezes do bairro. Voltou sempre. “Preferi vir, porque tenho filhos e mais vale os meus filhos terem este teto do que não terem nenhum”, diz Vanusa, garantindo que “se desse, nem sequer tinha voltado, estava muito bem onde estava”.

 

Um pontapé na dignidade

Hoje, o Bairro da Jamaica está revoltado. Mesmo quem não assistiu ao que se passou esta segunda-feira, sente na pele, todos os dias, o preconceito que existe em relação à gente que ali vive. Vanusa contou ao i na primeira pessoa o que aconteceu. O desentendimento começou num festa de aniversário entre a cunhada de Vanusa e um grupo de pessoas que viveu no bairro – agora realojado – e terminou com a chegada da Polícia de Segurança Pública (PSP) de Cruz de Pau.

O vídeo que deu origem a toda a polémica mostra agentes da PSP a agredirem o cunhado de Vanusa. No entanto, não é possível ver no vídeo o que se passou antes. Vanusa garante que os habitantes do bairro não apedrejaram as forças policiais. “Pararam, olharam, ainda se riram, porque eu olhei para a carrinha e vi um deles a rir, e deixaram as pessoas a discutir”, conta. Segundo a jovem de 33 anos, quando a PSP viu que existia a possibilidade de luta, os agentes saíram do carro, mas novamente regressaram à viatura. “Depois, a rapariga que chamou a polícia foi lá falar com eles e eles saíram novamente da carrinha, mas saíram com a atitude errada”, continua. A confusão instalou-se e, a partir daí, o vídeo mostra o que aconteceu.

Do lado da PSP, segundo comunicado de imprensa enviado, “na abordagem policial para perceber as circunstâncias da ocorrência e na identificação dos indivíduos envolvidos registaram-se algumas reações contra a intervenção policial por parte de indivíduos residentes naquele bairro, que arremessaram pedras em direção do efetivo policial, tendo causado ferimentos na boca de um dos polícias, o qual teve necessidade de receber tratamento hospitalar”. A intervenção policial está a ser alvo de averiguação interna, ainda sem resultados divulgados.

A semana está quase a terminar, mas o tempo ainda não apagou o que aconteceu. Já de noite, a música africana faz-se ouvir a metros de distância e o escuro não traz medo a quem vive no Bairro da Jamaica. E nem mesmo a falta de luz tira o brilho nos olhos de Salimo quando fala da sua pequena horta. Antigamente, à frente dos prédios onde ainda vivem muitas famílias existiam bares, mas agora é apenas o cantinho de Salimo. “Tenho aqui muita coisa, planto piripiri, pimentão, quiabos, alfaces, beringelas, mas só depois de abril, porque agora o frio queima tudo”, diz.

Há quem não entre no Bairro da Jamaica por medo e há quem tenha vergonha de viver lá. Mas há também quem queira entrar e voltar. Aos domingos, é na Associação Social de Vale de Chícharos que se juntam pessoas mais velhas com vontade de aprender a ler e a escrever. Aos domingos, alunos universitários entram no bairro para ensinar. “Temos um aluno de 78 anos, que vivia neste prédio [no lote 10], mas que vem aqui estudar ao fim de semana”, diz Salimo.

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